O Direito à Verdade

Doutor Hugo de Azevedo

O direito à verdade procede directamente de duas facetas humanas: da inteligência e da sociabilidade. Por natureza, o homem procura o conhecimento certo do que ele mesmo é e de tudo o que o rodeia; por natureza também, o homem necessita da ajuda dos outros para confirmar e ampliar os seus conhecimentos, e deve aos outros idêntico serviço.

Dizia alguém: «Conheço muita gente que quer enganar os outros; ninguém que queira ser enganado», o que, aliás, nem sempre é verdade, porque a inteligência tem as suas tentações: e por vezes preferimos que nos enganem. Quando algo nos incomoda, apetece-nos ignorar a realidade. Mas, inclusive nesses casos, sabemos que por tal caminho não sossegamos. Mesmo fechando os olhos, não gostamos de caminhar totalmente às cegas.

Vem isto a propósito ainda da Encíclica «Caritas in Veritate». Sem verdade, não há progresso. A falta de verdade dá sempre maus resultados, a começar pela instabilidade provocada pela desconfiança mútua.

Um exemplo comezinho, banal, mas estendidíssimo, é o da propaganda enganosa dos produtos à venda. Talvez – em letra miúda, geralmente – se explique do que realmente se trata, mas, numa cultura da imagem como a nossa, segue-se mais o critério da secretaria de certa Universidade de outros tempos, ao colocar nos corredores um cartaz com o título de letras garrafais: «AMOR LIVRE». E logo abaixo: «Pedimos desculpa pelo título, mas queríamos chamar a atenção dos alunos para o prazo das matrículas…».

Parece que a nossa arte publicitária pouco avançou em originalidade, esquecendo-se, ainda por cima, de pedir desculpa aos consumidores. E com o inconveniente comercial de confundir todas as marcas aos olhos de quem passa na rua, dos contemplativos da televisão ou dos navegantes da internet.

O progresso na publicidade não consistirá sobretudo na melhor maneira de informar devidamente o público, de forma sintética e sugestiva, certamente, mas respeitando a sua inteligência, isto é, sendo cada vez mais verdadeira?