USO CORRECTO DOS MEIOS AUDIOVISUAIS


Por Luis Margarido Correia

Devemos considerar que

os filmes e os programas de televisão constituem actualmente meios privilegiados para institucionalizar publicamente as concepções e valorizações da pessoa humana e da vida em sociedade.

Impõe-se, portanto, fundamentar um tratado das imagens, uma iconologia audiovisual, a partir de uma perspectiva simbólica, que actualize os critérios da iconologia clássica. Para efeitos pedagógicos devem-se ter em conta, fundamentalmente, a estética da recepção e a criatividade da produção de narrações para cinema e para televisão.

Para a sensibilidade actual, a realidade chega mediada pelas técnicas domésticas, especialmente pela televisão.

O drama desta situação reside em que nós não sabemos o que seja um "uso humanamente correcto" dos meios audiovisuais.

Se não queremos que o uso dos meios audiovisuais esgote a nossa capacidade de projectar o futuro e impeça o conhecimento da realidade, temos de encarar de frente o desenvolvimento de uma filosofia e uma ética à altura da sociedade electrónica.

O panorama que Allan Bloom traça no seu "Ensaio sobre o declinar da cultura ocidental" é esclarecedor do panorama audiovisual pós-moderno. É o que sucede quando aborda o fenómeno da música rock, como expoente da situação de desintegração cultural das nossas sociedades, com as manifestações de histeria e hipocondria que lhe estão associadas.

Embora possa parecer uma amostra demasiado exagerada ou passageira, aí estão os videoclips que a MTV emite durante as vinte e quatro horas do dia, que apesar de tudo são uma representação paradigmática de um modo de conceber e expressar a vida, onde predomina a emoção sobre a razão, o parcial sobre o global, o conservantismo sobre o progressismo, o passivismo sobre o activismo, o cepticismo sobre o dogmatismo, os critérios qualitativos sobre os quantitativos. Mas o que acontece é que se mantém uma ambiguidade interna nas ideologias pós-modernas - do feminismo ao ecologismo - que, no fundo, impede uma apreciação clara do ponto de vista ético e metodológico.

Os meios audiovisuais estão imbuídos desta situação atrás descrita, pelo que, com Llano, concordamos em que a " sobriedade" é a atitude mais conscienciosa perante a abundância de "cultura audiovisual", e que pode ser o ponto de partida para a formatação - termo bem televisivo - de uma nova ética pública, à altura da sociedade electrónica de consumo.

As linguagens e a simulação

Em terceiro lugar devemos considerar que

actualmente o poder está nas mãos de quem domine as linguagens, entendidas como reprodução, criação e simulação da realidade. A simulação está vinculada à perda da referência da linguagem, à liquidação do seu nexo com a ideia de verdade. A simulação é uma representação sem referência.

Na era do simulacro os ritos dos media são representações de símbolos que não se referem a nada fora deles.

Quando dizemos alguma coisa, dizemos alguma coisa sobre alguma coisa. Mas quando o meio é a mensagem , o acto de comunicação adquire primazia sobre o conteúdo, precede a realidade e "cria-a". Tem relevante importância pedagógica a alteração da relação situacional que este facto determina. A tendência da cultura moderna é resolver a significação do real no seu significado subjectivo: situar a realidade num contexto relacional no qual é a subjectividade quem estabelece o sentido do real.