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Das Tormentas à Boa Esperança



Maria Adelaide Calado

A memória (ainda) me não engana. Não há muito, para uma sessão sobre os Meios de Comunicação Social, sugeri o seguinte título: (In) formar para os Media.
A sessão foi da responsabilidade da ACMedia, associação de um grupo de cidadãos que viram a influência dos Media na sociedade e entenderam ser intervenientes face ao problema. A influência é, aliás, transversal a todos os tempos e através de qualquer meio comunicador.
Hoje, porém, a influência é acompanhada de efeitos perniciosos em muitos dos utilizadores dos referidos meios, com acento forte nos meios de comunicação tecnológica. Os malefícios estão à vista; as notícias são esclarecedoras.
As pessoas ficaram deslumbradas com as novas tecnologias. E usam-nas sem saberem as suas múltiplas valências, a estrutura que as sustentam, os riscos que correm no uso e abuso da maquinaria informática que têm à mão.
Isto acontece com adultos e é extremamente preocupante quando são as crianças, os adolescentes, que estão em causa. É cada vez mais sofisticada a tecnologia e torna-se-lhes, por isso, cada vez mais aliciante.
Não me tenho por nenhum Velho do Restelo mas lembro as mães que em vão choraram, as noivas que ficaram por casar de Pessoa por se aventurarem ao mar os nossos navegadores.
Diz-se, por exemplo, navegar na Internet e a metáfora vem a propósito. Nesse mar imenso, ameaçador, povoado de horrendos adamastores, quantos já naufragaram, quantos hão-de naufragar ainda!
Este quadro de crise comunicacional foi-nos magistralmente mostrado na lição de Pacheco Pereira com o nome de Educação para os Media no dia 16 de Abril num dos anfiteatros da Faculdade de Letras de Coimbra.
Sugeriu o orador a necessidade da aprendizagem dos Media desde os primeiros anos de Escola e no seio da Família. Sabemos que uma e outra instituição atravessam, também elas, uma profunda crise com omissão de tão importante como urgente e intransmissível tarefa.
Numa visão global e lúcida, tratou ainda o professor o Jornalismo, a Televisão, a Rádio dando-os, hoje em dia, como meios altamente deficitários de boa comunicação; frisando o tempo e o espaço de que dispõem, em desvantagem e com a impossibilidade de competir com a rapidez dos instrumentos tecnológicos.
Por isso nunca será demais que outras instituições, associações e qualquer cidadão que, uma vez elucidado dos estragos, a par dos benefícios que as novas tecnologias trazem, ajam no sentido de minimizar aqueles e potenciar estes.
Inteiramente identificada com o assunto exposto por um mestre, interpelei-o desta forma:
- Face à situação, como agir?
E a resposta devolvo-a eu a todos que navegam neste mar encapelado em que vivemos. A essência da mensagem que “o homem do leme” (mais uma vez Pessoa) nos deixou, parece-me ter a força que o professor me incutiu, aconselhando-me a escrever, a falar, a comunicar, em suma:
                                       “Aqui ao leme sou mais do que eu;
                                       Sou um povo que quer o mar que é teu;
                                       E mais que o mostrengo que a alma teme
                                       E roda nas trevas do fim do mundo,
                                       Manda a vontade que me ata ao leme
                                       De El-Rei D. João Segundo”


De “O Mostrengo”