Sacudir a Segurança do Capote


 

Por Tito de Morais

 

 

"É precisa toda uma aldeia para educar uma criança" é um provérbio popular, dizem-me que de origem africana. Recorro a ele habitualmente para explicar que a segurança online de crianças e jovens é uma tarefa que nos compete a todos. Infelizmente há quem prefira apontar o dedo em vez de dar a mão.

 

 

 

É para mim um grande motivo de tristeza. Por vezes, nas acções de sensibilização e formação em que participo, apercebo-me que, também no que toca à segurança online de crianças e jovens, algumas famílias e professores estão de costas voltadas em vez de estarem de mãos dadas. Mas quando vejo pessoas com responsabilidades "alinharem" nesse jogo de "sacudir a segurança do capote" e fazerem-no perante uma plateia onde predominam seja professores ou pais e encarregados de educação, o meu sentimento já não é de tristeza. É de preocupação. De profunda preocupação.

 

E na Escola?! E em Casa?!


Felizmente não é muito frequente, mas pontualmente lá acontece. Numa acção de sensibilização e formação sobre a segurança online de crianças e jovens em que participo como orador ou formador, um pai, uma mãe ou um encarregado de educação "sacode a segurança do capote". Geralmente com um frase do tipo "pois, eu lá em casa consigo ter as coisas sobre controlo, mas e na escola?!" Também não é muito frequente, mas por vezes o mesmo acontece com professores. Por vezes em privado, lá vem a frase: "Nós aqui fazemos o que podemos, mas o problema é em casa".

 

Dar as Costas em Vez de Dar as Mãos


Invariavelmente, num caso e noutro, tenho a preocupação de explicar que esse tipo de discurso não leva a lado nenhum. Não resolve problemas. Tal como tem acontecido com as famílias, no que toca à segurança online de crianças e jovens, também a escola e os professores têm estados entregues a si próprios. Ambos precisam de ajuda. E não é de costas voltadas, mas de mãos dadas, que vamos conseguir que os nossos filhos maximizem os benefícios que as tecnologias de informação e comunicação (TIC) têm para lhes oferecer. Não é de costas voltadas, mas de mãos dadas, que conseguiremos promover uma utilização ética, responsável e segura das TIC pelas nossas crianças e jovens.

 

Tal Pai...


Diversos estudos mostram o fosso digital existente entre pais e filhos. No entanto, muitos e muitos professores são também pais, mães e encarregados de educação. Ambos enfrentam as mesmas dificuldades. Por outro lado, não são precisos estudos para percebermos que inúmeros pais e mães, muitos que mal sabem ler e escrever, que saiem de casa às 6 da manhã para regressarem às 10 da noite, dificilmente podem acompanhar devidamente os filhos. Nem na sua escolaridade, quanto mais na Internet, um "luxo" de que não dispõem em casa. São inúmeros os pais que, se "esmifrando-se" por ter esse "luxo" em casa, não dispõem dessas ferramentas nos seus trabalhos nem tão pouco de formação ou tempo para as usarem em casa, acompanhando os seus filhos, pois estão ocupados com trabalhos que a maioria de nós não aceitaria. Por outro lado, são também inúmeros os pais e mãos que, tendo a formação académica, usando estas ferramentas quotidianamente nos seus trabalhos bem remunerados e dispondo dos meios financeiros para oferecer estas ferramentas aos filhos, infelizmente encontram-se mais focados nas suas carreiras do que no acompanhamento dos filhos. Por fim, "sacudir a segurança do capote" é de uma tremenda injustiça para os muitos pais e mães que, apesar das muitas das dificuldades referidas, se esforça como pode e com grande falta de apoios, a todo o nível, para acompanhar os seus filhos na utilização que estes fazem da tecnologia.

 

Tal Professor...


Por outro lado, apesar de em circunstâncias diferentes, as escolas e os professores não estão muito melhor. Muitos, no que toca à utilização das TIC, são auto-didactas. Muitos nem isso. Para muitos as TIC chegaram já no fim das suas carreiras. E mesmo os que receberam formação, não receberão formação relacionada com a segurança. Por outro lado, se já vão dispondo de recursos educativos em português relacionados com a segurança para usarem com os seus alunos em sala de aula, têm de o fazer voluntariamente, por carolice, na esmagadora maioria das disciplinas, dado este tema ainda não estar integrado nos curriculas escolares. Por outro lado, a generalidade das escolas não dispõem das infra-estruturas, das tecnologias e procedimentos de segurança necessários para garantir e promover um utilização ética, responsável e segura das TIC pelos seus alunos. Por fim, "sacudir a segurança do capote" é de uma tremenda injustiça para as muitas escolas e professores que, apesar das muitas das dificuldades referidas, se esforça como pode e com grande falta de apoios, a todo o nível, para garantir e promover uma utilização ética, responsável e segura das TIC pelos seus alunos.

Assim, a todos aqueles que se preocupam mais em "sacudir a segurança do capote", isto é, acentuar o facto de famílias e escolas continuarem de costas voltadas em vez de estarem de mãos dadas, relembro a frase de John Kennedy: "Não pergunte o que o país pode fazer por si, mas o que você pode fazer pelo país". Que é como quem diz, "em vez de se preocupar com o que os outros não fazem, preocupe-se com o que você pode fazer" para garantir e promover uma utilização ética, responsável e segura das TIC por crianças e jovens.