SABER ESCOLHER


  Por Maria da Glória Corte-Real


   Não há dúvida de que dos meios de comunicação social aquela que tem mais impacto é a TV: nas crianças, nos novos, nos menos novos, nos velhos... em todas as camadas etárias e sociais.

   Num recente inquérito feito em escolas secundárias verificou-se que, em muitas casas portuguesas, há mais aparelhos de televisão do que habitantes. Parece anedota mas não é... E eu lembro-me daquela miúdo que pedia ao Menino Jesus para lhe pôr a cara quadrada a ver se o pai olhava para ele como para a TV.

   Fala-se muito sobre os programas, na maioria dos casos duma forma negativa e com razão... haja em vista aqueles que nos impigem... Dum modo geral o telespectador só se sente como vítima deste drama televisivo, mas na realidade é que a crítica deveria começar pela autocrítica de cada um como telespectador que é – somos nós que, em grande parte podemos sancionar os ditos programas.

   Em Portugal, em média consomem-se três ou mais horas de TV por dia, o que quer dizer que depois de trabalhar e dormir é a nossa terceira actividade. Isto significa também que pouco tempo resta para outras alternativas de lazer desde a leitura, à assistência de espectáculos, à conversa que tanta falta faz numa família normal.

   E como se vê a TV? Sentamo-nos em frente do aparelho, agarramos no comando e aí vai disto... o comando à distância faz nascer um espectador insatisfeito que seguindo um ritual, consome horas de TV duma maneira compulsiva. Este espectador – e é-o a grande maioria – não se informa do que a TV oferece em cada dia; em resumo não procura a qualidade, mas um mosaico em que vê uma parte dum filme, uns minutos de algum concurso, parte de uma série ou do telejornal até que, já aborrecido, se fixa em qualquer um sem o mínimo critério de escolha. Consomem-se os programas indiscriminadamente por hábito, por vício sem se dar conta que, muitas vezes o importante seria carregar no botão, apagar a televisão e dedicar-se a outra actividade.

   Não é nenhuma novidade que a televisão é, além de outras coisas, um grande supermercado e uma escola de formas de vida. E cada vez mais.

   Daí a nossa responsabilidade.

   E se é certo que não podemos ficar de braços cruzados perante o panorama das nossas televisões (há que protestar ou louvar conforme o caso), também é certo que temos que ter em conta a nossa responsabilidade como telespectadores. O saber escolher, a procura de bons programas (que os há também, graças a Deus) faz parte da obrigação de cada um de nós e não o devemos esquecer.

   Se o problema dos programas está, em grande parte, na guerra das audiências pela qual os canais se batem, há que perceber que teremos que definitivamente entrar na dita guerra já que as audiências são constituídas por cada um de nós.

   Recusando programas por motivos éticos, sociais ou por simples senso comum, estaremos a contribuir para que os “senhores da TV” pensem duas vezes antes de os lançar para o ar. E também obrigá-los-emos a entender que “temos espírito crítico, que sabemos distinguir o sucesso fácil do produto inteligente e criativo” como escreveu a Dra. Margarida Miranda num artigo publicado acerca da ACMedia.