Programação da RTP decidida por tribunal

 

Isabel Stilwell

 

 

Já há alguns anos Vasco Pulido Valente avisava que o mundo estava perigoso. Depois houve o filme que alegava que os Deuses estavam loucos. Hoje acho que temos a confirmação de todos essas profecias.

 

Pelo menos é o que se sente depois de ler a decisão do Tribunal de Lisboa que proíbe a RTP de transmitir touradas, por considerar que a sua exibição é «susceptível de influir negativamente na formação da personalidade de crianças e adolescentes» . A providência cautelar decreta que touros, na televisão, só a partir das 22h30 e antes das 6h da manhã, e com bolinha vermelha.

 

Ao contrário do que pode parecer não são as touradas que estão em causa nesta decisão (a não ser que se prove que quem julgou assim assistiu a muitas!). O que me preocupa é a febre proibicionista que se parece ter apoderado da nação. O Tribunal, pelos vistos, parece ter-se esquecido que as crianças têm pais, e os televisores telecomandos, e de que não precisamos de um polícia, a vigiar-nos a toda a hora.

 

Esta decisão, além do mais, chama a atenção para o facto de cada vez mais se usar o Santo Nome das Crianças em vão! Como um alibi, que leva sempre a bom porto. Até os defensores dos animais de quatro patas já recorrem a ele.

 

Fico agora à espera que o Tribunal de Lisboa dê provimento a uma queixa contra os telejornais, os programas da National Geographic em que o tigre come a presa, e mais oportuno ainda contra a realidade, que não há meio de ficar mais doce, e que sem sombra de dúvida influencia negativamente a formação da personalidade dos mais pequenos.

 

Mas mais do que tudo, angustia-me por a hipótese de que os tribunais já não sejam um repositório de bom senso, onde era colocado um ponto final às demandas mais fanáticas. Que se proíbam a realização de touradas em nome do touro, é um caso a discutir, mas a sua exibição, com este pretexto? Assusta.