A Paciência

Maria Fernanda Barroca

 

 

O mundo fascinante da publicidade é muito enganoso: apresenta as coisas com a promessa de as obtermos sem esforço. É o detergente que tira as piores nódoas só de olhar para elas; é a comida instantânea que a mulher prepara quando chega a casa e ainda não tirou a bolsa do ombro; é o jantar que foi feito há dias e congelado, pronto num instante com recurso ao micro-ondas, etc.

 

Como será daqui a algum tempo a vida de uma juventude assim criada e habituada a não dar tempo ao tempo que as coisas exigem? Enquanto os mais idosos, muitas vezes apáticos, desbaratam o tempo, os jovens com o seu frenesim gastam-no a um ritmo alucinante. Ora as coisas não são tão fáceis de conseguir e apresentam inevitavelmente dificuldades que só a paciência pode vencer.

 

Saber esperar é uma virtude perante as dificuldades que se nos apresentam; é uma conquista do ser humano ao mesmo tempo que a impaciência não acelera o ritmo normal das coisas. A paciência é a virtude essencial dos agricultores: lançam a semente à terra, têm de esperar que germine, cresça, dê flor e frutos maduros. Sabem que o melhor que têm a fazer é não fazer nada e estar disponíveis para o que o futuro lhes apresente.

 

A paciência também regula a convivência, para não a tornar uma tirania que não senão uma forma de impaciência. O tempo de cada um é variável conforme a profissão – comparemos o tempo de um cientista-investigador com o de um corretor de Bolsa. Como o tempo se vive no plural, isto é em sociedade, só a paciência suporta essa pluralidade sem exigir um tempo igual para todos.

 

A paciência que enfrenta a dificuldade inevitável ou inesperada torna-se constância quando a dificuldade se prolonga. Lembra-me agora a história do menino que semeou um feijão num copo de vidro e no dia seguinte de manhã ao olhar para o copo deitou tudo fora dizendo com enfado – afinal o feijão não deu o feijoeiro que eu esperava...

 

A constância perante uma dificuldade não é resistência à mudança, é firmeza flexível. Não é pois uma inércia ineficaz, mas uma ajuda progressiva e dinâmica. Isto no exercício das virtudes é fundamental.

 

Com o progresso moral as coisas custam menos, mas nem por isso valem menos. O que mede o valor de uma coisa não é o que ela custa, mas o empenhamento posto na sua execução. Uma mãe que perde noites consecutivas à cabeceira de um filho doente recusa que a lamentem – ela não mede o que custa, porque o amor é superior ao esforço empregado.

 

Dizer que: “Só o que custa tem valor”, depende do significado dado à palavra “custar”. O anel de brilhantes que o milionário compra para oferecer à mulher nas Bodas de Prata matrimoniais, só “custou” muito dinheiro; o modesto anel de ouro que o empregado de escritório compra com igual finalidade para dar à sua mulher, “custou” pouco dinheiro, mas “custou” muitas renúncias a satisfações lícitas para angariar a quantia necessária. Qual “custou mais? Com certeza que foi o segundo pois o seu custo pertence ao domínio do espiritual (amor com renúncias ou renúncias por amor) e não ao domínio do material (o dinheiro), que no caso do milionário nem se fez sentir no orçamento.

 

O que custa só tem valor na medida que esse esforço implicar amor, generosidade, magnanimidade, esquecimento de si para dar gosto ao outro.

 

Por que não há paciência; por que não há constância face às dificuldades, é que nós vemos a falta de fidelidade e as separações conjugais subir em flecha.