Os dramas da vida real na televisão


 

Os dramas da vida real são um isco de audiências na nossa televisão (não exceptuo nenhum canal). São os mistérios de âmbito policial que estão por resolver; são o número de pessoas, sobretudo crianças, desaparecidas mesmo no nosso país; são os relatos sangrentos dos conflitos internacionais do género tribal ou étnico, etc.

 

Perante um tal cenário onde predomina os shows reais, há quem chame à nossa programação o “telelixo”.

 

Os directores de programação confrontados por algum telespectador que lhes escreve, respondem: “Não fazemos mais do que reflectir o estado da sociedade”. Por acaso é verdade, mas será que é isso que o telespectador quer encontrar quando liga o botão da “caixa mágica”? O que se passa actualmente é o recurso ao mórbido, exibido em horário nobre.

 

Compreende-se que apresentar a paz em linguagem televisiva é mais difícil do que apresentar a guerra, mas aí é que se pode aquilatar da competência de quem programa.

 

Outra moda televisiva é a abordagem sem pudor dos assuntos sobre o sexo. Li algures a opinião de um especialista que dizia: “Pessoalmente, não imaginava que alguém falasse ao telefone ou com o conjunto da população do país de problemas que não se atreveria quase a comentar com o seu médico”. (…) E continuava: “Quanto mais estúpido é o programa emitido, mais inteligente se considera a audiência”.

 

Os directores de programa argumentam que não podem, nem devem esconder do público os acontecimentos da vida real, e que assim, mostrando o lado negro da sociedade estão a contribuir para acordar os cidadãos passivos e a alertar os governos para que actuem e arranjem soluções para os pungentes problemas que eles apresentam.

 

Não se pode duvidar das suas boas intenções, mas na prática somos mais bombardeados com sensações do que com ideias. O que está a acontecer é que a televisão está a transformar em entretenimento tudo aquilo que foca levando, a pouco e pouco à insensibilidade. Os mais descuidados até são levados a confundir a realidade com a ficção.

 

Os desenhos animados, que podiam e deviam ser uma distracção para as crianças, são muitas vezes causadores de medos e terrores nocturnos, quando as crianças os vêem antes de deitar.

A televisão que nos mostra todas as desgraças, por vezes em tempo real, produto de um qualquer fotógrafo amador que capta com o seu telemóvel o acontecimento, está a tornar-se anestesiante: à força de nos mostrar tragédias, a nossa sensibilidade embota-se.

 

Depois, algo muito em voga é a devassa das vidas alheias, sobretudo se são pessoas de destaque nos meios sociais, políticos, financeiros, artísticos, etc. O telespectador enche algumas horas do seu dia com imagens da vida alheia. E o que acontece ao telespectador desprevenido ou leviano é que a contemplação dos dramas e problemas alheios levam-no a desculpar-se: afinal todos fazem assim!

 

Claro que não foi a televisão que inventou a violência – ela existe, mas a televisão amplia-a e sobretudo cada canal procura, por razões de audiência, nunca ficar atrás do concorrente. Se num canal está a dar um filme violento, ao mudar de canal encontramos, muitas vezes, outro pior.

 

Para os mais novos e não só, este constante espectáculo de violência levam-nos a admitir a violência como algo de normal e o modo prático de resolver os conflitos. Assim estamos a viver numa sociedade cada vez mais dura e hostil, com comportamentos agressivos desde a mais tenra idade, sim, porque as crianças de agora, na sua maioria, vêem tudo sem restrições e resolvem nas Escolas e na convivência do dia-a-dia, os problemas com recurso à violência.

 

Maria Fernanda Barroca