NÃO – SEM DÚVIDA

 

 

Muitas entidades têm lançado, e bem, campanhas de sensibilização dos cidadãos tendo em vista uma maior responsabilidade dos condutores e peões para evitar ou diminuir o número de acidentes nas estradas. De facto nós, os portugueses, vamos à frente no número de mortos e estropiados por causa da péssima condução, que em certos casos se pode considerar criminosa.

Como a falta de civismo é muito grande, as coisas não têm melhorado e os desastres rodoviários são uma das principais causas de morte entre nós.

 Mas o que se avizinha vai ser também para nós causa de muitas mortes. Como é evidente estou a referir-me à despenalização do aborto que vai causar um número muito grande de mortes. Se uma condução imprudente pode considerar-se criminosa, a morte de um não nascido é um assassinato qualificado.

 Os pró-aborto tentam fazer vingar a ideia de que não há vida própria nas primeiras semanas após a fecundação e portanto o aborto é praticável com a mesma licitude que a eliminação de um quisto. Ora, após a formação do zigoto, com um código genético nitidamente distinto do dos gametas masculino e feminino que lhe deram origem, não há mais nenhuma contribuição ontogénica, isto é, nada mais é acrescentado ao zigoto – estamos em presença de um novo ser humano. As restantes etapas são de auto-crescimento e de desenvolvimento. Outro argumento pró-aborto, é que o feto é uma parte de corpo da mãe e portanto pode ser extirpado. Falso, redondamente falso. O feto não é uma parte do corpo da mãe e possui até partes que deixa depois de ter nascido, como o saco amniótico, o cordão umbilical e a placenta. Insisto em afirmar que estas partes são do feto e não da mãe; é o embrião que se instala no útero, que desenvolve a placenta e que se protege dentro de um saco com o líquido amniótico. Até agora era também ele, o feto, que "resolvia" quando devia nascer; com os progressos da ciência, há quem determine o dia e a hora do nascimento, muitas vezes por conveniência da família ou do médico. Isto consegue-se através dos exames pré-natais. O pior é quando esses exames servem para "seleccionar" os fetos, quer por sexo, como em muitos países asiáticos, quer pela hipótese de haver uma malformação do feto.

 Seja qual for o motivo invocado para praticar o aborto, a nossa resposta deve ser: não; não; não.

 Não podemos dizer que a criança procede do feto, como não é correcto dizer que o adulto procede da criança. Um embrião é tão ser humano como o indivíduo de noventa anos. Passa por fases: embrião, feto, infância, puberdade, juventude, adulto e idoso, mas é sempre o mesmo.

 O zigoto está para o ser humano adulto, como a semente para a árvore.

 Temos, infelizmente, aprovada no Parlamento uma lei que admite o aborto directo, por razões sem razão, pois que se tanto se fala nos Direitos Humanos, não podemos esquecer que o primeiro direito é o direito de nascer.

 A lei em si revolta-me, mas muito mais me revolta sentir que aqueles que dizem que representam o povo, a fizeram à revelia do povo. Agora querem alterá-la... para pior e talvez para lavar as mãos como Pilatos, propõem um referendo. Eu digo não; não; não ao referendo, pois que a vida não se referenda, mas se ele for para a frente temos também de o encarar de frente.

 A pergunta que vai ser feita ao povo é por demais conhecida e todos, excepto os autores, a consideram confusa e tendenciosa. Nela não aparece a palavra "aborto", mas sim "interrupção voluntária da gravidez". Eu posso afirmar, contando um caso verdadeiro que muita gente não sabe o que isso significa. A uma mulher humilde e com pouca instrução perguntaram se alguma vez tinha feito um aborto. Ela escandalizada respondeu – nunca; só fiz dois "desmanchos". Ora, como ela, muitas outras por esse país fora, não relacionam "interrupção voluntária da gravidez" com aborto, como também não relacionam "aborto" com "desmancho". 

 Também não colhe a afirmação que a despenalização do aborto vai diminuir os abortos clandestinos, pois nos países em que essa despenalização existe os abortos clandestinos continuaram. Também me parece macabro dizer que assim as mulheres vão ter melhores condições para abortar, isto é, vão poder matar os próprios filhos com todo o conforto...

 

 

                                                                       Maria Fernanda Barroca