UMA VISITA FELIZ

 

 

Já é possível um certo distanciamento no tempo para fazer uma reflexão objectiva sobre a visita de Bento XVI à Turquia, que foi exaustivamente coberta por todos os canais de rádio e TV.

As imagens do Papa em cordial diálogo com as altas Autoridades ortodoxas e islâmicas mostraram que se estava a estabelecer uma ponte entre os católicos e os sectores moderados das outras duas confissões religiosas - aliás uma plataforma de diálogo a que esses sectores tanto aspiravam, para contrariar a ameaça agressiva de fanáticos dum e doutro lado.

A simplicidade e a simpatia de Bento XVI suscitaram a cordialidade dos responsáveis ortodoxos e islâmicos, cuja conduta é normalmente muito reservada, e constituiu um sinal de que o diálogo vai prosseguir.

Houve um consenso geral na opinião de que, a pesar das ameaças que precederam a visita, o saldo final foi extremamente positivo.

Muitos comentadores manifestaram porém a sua surpresa pelo comportamento do Papa que , disseram, se opunha a posições por ele assumidas como simples Cardeal.

Ora essa surpresa apenas resulta de falta de conhecimento da História da Igreja, porque em meados do Século XIX, quando Pio IX foi eleito, a reacção de Metternich que conduzia a politica europeia nessa altura, foi afirmar que tinham previsto tudo, menos um Papa liberal.  Surpreendentemente, porém, foi esse mesmo Papa que a par de reformas progressistas (amnistia política, melhorias na Administração, uma Constituição e um Governo chefiado por um primeiro Ministro civil) , redigiu um documento fundamental condenando os princípios liberais que atacavam o ensinamento da Igreja e que causou uma enorme reacção em toda a Europa.  

De facto o Papa não é um simples Cardeal é , mais do que isso, o depositário das mesmas garantias que foram dadas ao Apóstolo Pedro. Ele actua e pensa como chefe e guia  espiritual dos crentes , e já não como estudioso dos processos sociológicos ou teológicos com  que se ocupava anteriormente. Os católicos acreditam que o Papa tem, nessa missão, uma ajuda espiritual que neste caso é evidente.  

 

 

Manuel José Lopes da Silva, Professor Jub., UNL

NC, 20/12/06