MAL ESTAR SOCIAL

 

As cenas de violência social invadiram os espaços informativos de todos os canais com noticias, entrevistas, comentários ou mesas redondas.

Há uma nova crise na sociedade francesa, revelando a exclusão social de jovens oriundos do norte de África, com algumas excepções.

Em Dezembro de 1986 escrevi uma crónica sobre a convulsão de então, semelhante a esta. Nessa altura a reivindicação era contra os processos excessivamente selectivos da Universidade, e a falta de empregos para os jovens licenciados.

Ora os actuais confrontos revelam também que os actuais jovens pretendem emprego e habitação decentes.

Bem no fundo, a questão consiste em que as novas gerações têm expectativas sem esperança de as ver cumpridas.

Como foram criadas essas expectativas, deveria ser a pergunta a fazer explicitamente, tentando encontrar uma resposta.

Entre as várias dimensões desta questão fundamental há a dimensão económica, evidenciando os aspectos negativos do funcionamento do mercado.

De facto o funcionamento do actual mercado de bens e serviços subsiste apenas porque há uma crescente propensão para o consumo, que não pode diminuir. Há uma pressão obsessiva para o consumo de bens, sobretudo não essenciais, em qualquer situação em que nos encontremos, e o sistema dos Media tem uma grande responsabilidade em tal excesso de pressão.

Sofrendo a juventude tal pressão, e não tendo meios de satisfazer as expectativas de consumo criadas, só vêm a solução de se revoltarem.

Naturalmente que a questão é bem mais complexa e recordo  aquilo que Raymond Aaron afirmou a propósito do Maio de 68.

Ele interrogava-se sobre se os manifestantes não estariam de facto a contestar uma civilização ( tecnico-burocrática, industrial) que, à mingua de crenças transcendentes parece arrastada numa louca aventura para mais saber e mais poder ( e mais consumir...), sem fim último, sem disciplina de sageza.

Reflexão que nos parece hoje maus actual que nunca.

 

 

 25-Nov-2005

Manuel José Lopes da Silva, Professor Jubilado, UNL.