IRRESPONSABILIDADES

 

 

   

    Houve um claro exagero na forma como os Media acompanharam a visita de Bill Gates a Portugal . Naturalmente que Bill é uma personalidade relevante simpática ( a Vida é um valor igual para todos, disse ele...), e também a ele devemos um dos sistemas operativos e programas informáticos mais úteis, e tanto que os utilizamos todos os dias.

    Porém a sua vinda teve por objectivo promover actividades comerciais e filantrópicas, numa simbiose questionável. Se os Media claramente exageraram na atenção que lhe dedicaram, também os nossos políticos ultrapassaram todas os limites do distanciamento a que são obrigados face ao Poder Económico. 

    Foi desconfortável ver as mais altas figuras do regime a participar em cerimónias que no fundo estavam a promover uma empresa informática, ignorando muitas outras que também existem no mesmo ramo ( e que naturalmente protestaram   contra a discriminação).

     O sentido de responsabilidade social dos Media deveria tê-los alertado para o exagero e  falta de objectividade na abordagem  de algumas iniciativas para a promoção da Sociedade da Informação, mas a que faltou um enquadramento económico e político suficientemente esclarecedor.

    É que neste domínio da actuação irreflectida, podem gerar-se conflitos sociais e políticos de extrema gravidade. Estamos infelizmente a assistir ao desenrolar de um gravíssimo incidente político entre os crispados Ocidente e Oriente provocado pela publicação de caricaturas ofensivas do profeta Maomé.

    A onda de violência contra o Ocidente que tem sido veementemente reprovada por todos os sectores moderados, fora  e dentro do Islão, resultou dessa publicação.

     Por isso é incompreensível que um jornalista, um editor dum jornal dinamarquês tenha publicado imagens ridicularizando uma referência sagrada do Islão. Não é possível que um profissional ignore a tensão (histórica) que prevalece entre estes dois espaços civilizacionais, hoje em dia cada vez mais agravada, nem que ignore o elevado respeito pela pessoa do profeta, que não se pode sequer representar como assinalou o filme sobre a sua vida.

   Como tantas vezes temos lembrado nesta coluna, a liberdade de expressão (como todas as liberdades) deve ser balizada pelo sentido de responsabilidade que é o fundamento do respeito pelas pessoa dos outros,  pelos seus valores.

   Esta infeliz situação continua a evoluir de modo aparentemente incontrolado, mau grado as posições assumidas pela diplomacia do Ocidente.

   Façamos votos para que o bom senso de ambos os lados ultrapasse o imperdoável erro de apreciação dum jornal nórdico, que, talvez por isso, não tem a sensibilidade histórica que nós temos em relação ao Oriente e os seus valores.

 

 16-Fev-2006

Manuel José Lopes da Silva, Professor Jub. UNL.