INFORMAÇÃO ESPECTÁCULO

 

 

É consensual que os programas de actualidade do género de “Pros e Contras”, tenham por objectivo esclarecer o cidadão comum àcerca dos problemas políticos ou sociais que mais o preocupam. Lembramo-nos do saudoso Pivot que lançou em França este tipo de programas ; mas Pivot era um entrevistador cordial, deixava os participantes exprimirem-se livremente, contrariamente ao que veio a suceder em programas posteriores. Ele sabia criar um ambiente de empatia que tornava muito credíveis os depoimentos dos participantes.

Foram recentemente transmitidos pela RTP debates sobre o Sistema Educativo ou sobre o Aeroporto da Ota, mas deixaram-nos insatisfeitos apesar do esforço de investigação realizado pela equipa de jornalistas; mas essa mesma insatisfação experimentamo-la também depois de certas entrevistas ou mesas redondas menos ambiciosas, do ponto de vista jornalístico.

Há um primeiro aspecto  que se deve referir, que é a desagradável sensação de não nos deixarem ouvir até ao fim as respostas dos entervistados.

Aparentenmente isto resulta do excesso de informação prévia recolhida pela equipa de jornalistas e que o entrevistador/a pretende  exibir perante os telespectadores.

Depois é também desagradável a insistência dos entrevistadores em temas de pura coscuvilhice poítica. Mas o aspecto  mais desagradável é a convicção que se vai apoderando de nós, de que  por detrás de tudo o que é manifestado nos programas,há grandes manobras de bastidores, de grupos de interesses ideológicos ou economico-políticos.

Nos casos que referimos, o do Aeroporto, ou o do Sistema Educativo, também do Plano Tecnológico ou do TGV, nem tudo é dito neste espectáculo mediático e, sobretudo,  não se diz o essencial.

Até mesmo nas entrevistas e debates da campanha para a Presidência, se nota o mesmo artificialismo, a mesma obsessão pelo desempenho no espectáculo mediático, e pouca objectividade.

É inesperada e surpreendente, a agressividade de alguns candidatos contra os outros, por vezes duma forma de baixo nivel ético e político - que só se explica pela necessidade de afirmação pessoal através dos Media. Estes, em vez de estarem ao serviço dum diálogo cívico (civilizado),  suscitam comportamentos políticos muito condenáveis.

De resto a campanha presidencial que deveria ter uma base essencialmente pessoal, pois que se trata de escolher uma personalidade idónea para a mais alta Magistratura, transformou-se, afinal num despique partidário: aparecm candidatos sem qualquer vocação para a Presidência, sendo apenas mandatários dos seus partidos.

O domínio dos Partidos políticos estende-se cada vez mais sobre áreas onde não deveriam intervir, asfixiando-as, por impedirem que agentes sociais independentes e capazes tenham acesso aos postos de responsabilidade. Os Media, mais uma vez, são responsáveis pela promoção de pessoas que nunca deveriam ocupar lugares de evidência pública.

 Precisamos urgentemente dum novo jornalismo, sóbrio, objectivo, avesso aos efeitos espectaculares.

Precisamos de políticos desligados de interesses corporativos, que venham a ser verdadeiros árbitros na arena política, independentes, corajosos e nobres.

Só assim se justificarão os enormes investimentos no funcionamento dum Sistema dos Media tão oneroso como é  o nosso, face às nossas carências noutros domínios.

 

09-Dez-2005

Manuel José Lopes da Silva, Professor Jubilado, UNL