IDENTIDADE DA DOIS

 

 

A TV tem uma tríplice missão: informação, divertimento e cultura como foi sempre reconhecido nos sucessivos instrumentos jurídicos do sector.

Os canais privilegiam uma ou outra missão, sendo um infeliz sinal dos tempos a mistura de missões, como acontece com a informação-espectáculo tantas vezes por nós denunciada.

Por isso a programação da RTP2 suscita sempre a nossa atenção porque tem a responsabilidade de se constituir como alternativa à proposta massificante da programação comercial.

Ora a RTP-2 assume-se, e bem, como um canal de vocação cultural que tem vindo a confirmar ao longo do tempo, revelando uma identidade própria.

Programas como “Bombordo” ou “Alma e a gente” são assumidamente culturais (ainda que com estilos diferentes), como também “Hora Discovery” e “National Geographic”, que são felizes importações de menus internacionais.

Tais rubricas podem mesmo ser utilizadas como complemento do Ensino convencional, como já fazem muitos Professores/as esclarecidos, estabelecendo uma ligação que poderia e deveria ser implementada.

O “Jornal 2”  tem um estilo próprio, mais atento ao dado explicativo que ao espectacular; e a sobriedade praticada torna-o preferível aos outros.

Programas como a “ A Fé dos Homens”, “ Causas comuns” ou “Contas do dia” são do maior interesse para aceder aos problemas concretos que surgem no espaço público, promovendo uma vivência cidadã  de que tanto necessitamos.

Concretamente “A Fé dos Homens” está a contribuir para um diálogo entre religiões, de que se podem esperar frutos muito benéficos para a nossa sociedade cada vez mais plural.

O canal 2 tem por isso uma imagem de rigor, de exigência intelectual  que nenhum dos outros partilha.

Ainda que  o índice de audiência seja pequeno, todavia refere-se aos cidadãos mais conscientes e responsáveis da sociedade e que podem ajudar os outros a elevar o seu próprio nível cultural.

Por isso não podemos aceitar  certas cedências ao mau gosto que, de quando em quando, surgem na Dois no domínio dos filmes.

Não se podem servir  dois senhores ao mesmo tempo, à exigência cultural e ao mau gosto obsceno.

Temos todos que apoiar a Dois, aplaudindo-a quando for o caso, corrigindo-a amistosamente quando necessário.

 

 20-Jan-2006

Manuel José Lopes da Silva, Professor Jub. UNL.