BALANÇO DE 2005

 

 

No domínio dos programas culturais de ficção a expectativa criada com “João  Semana” foi sendo paulatinamente frustrada até chegar a “Pedro e Inês”, que não passou de uma prolongada sensaboria.

Teria sido melhor investir o dinheiro assim gasto, em programas assumidamente culturais, em vez de séries dispendiosas como estas e é com tristeza que o afirmo.

A transmissão da telenovela nacional “Ninguém como tu” teve vários aspectos positivos como um bom desempenho de actores, português correcto, uma imagem positiva de Lisboa e Almada, cenas que apelam para o civismo ( pessoas a reciclarem lixo), transmissão de bons hábitos alimentares (comer fruta), preocupação ética ( critica à ostentação de riqueza e estatuto social e ao pouco escrúpulo na busca de determinados objectivos). Mas também exibiu um enredo culturalmente pobre, sem contexto histórico - político, com algumas cenas de sexo implícito.

Embora possa ter tido algum apelo viciante, como aliás todas as telenovelas, foi agradável ver uma telenovela “made in Portugal” com bons actores portugueses, a falarem português, com boa música portuguesa e com imagens da nossa terra. Seria desejável que tais telenovelas contribuíssem para aumentar o nível cultural do povo português, através de enredos mais ricos do ponto de vista cultural/histórico/político.

 Mas acabou por ser o género de Informação o que claramente marcou o ano agora a findar.  Tivemos que assistir a duas campanhas eleitorais, uma legislativa outra  autárquica, e à ante visão da presidencial, que quase banalizaram o discurso político, dado que os partidos monopolizam excessivamente o espaço público, como é reconhecido por analistas nacionais e estrangeiros. Houve excessivo espectáculo mediático que afectou a imagem do regime e inquietou o cidadão corrente.

O mesmo excesso continuou com a transmissão dos devastadores incêndios no verão, sugerindo que a TV se especializou na transmissão do horror. Mas ao fazê-lo passa ao lado dos verdadeiros problemas da sociedade, como também sucedeu com a transmissão das violentas confrontações de Outubro/Novembro em França.

A TV poderia, e deveria, ajudar a identificar as causas de tão angustiantes situações, e propor soluções.

Em Fevereiro escrevi para esta coluna a crónica “Austeridade”, propondo uma atitude cautelosa dos consumidores face à grave crise que vivemos. Infelizmente as apreensões aí manifestadas tinham todo o fundamento, porque no fim do ano os portugueses são os mais endividados da Europa (140%) e já recebemos uma advertência da UE.

Uma nota optimista foi assistirmos, para o final do ano, a um reajustamento da programação da TVI num sentido menos populista que levará a uma reabilitação da sua imagem de marca, o que é de louvar no Canal 4 que nem sempre exibe a dignidade a que os seus telespectadores têm direito.

 Outra nota positiva foi o do interesse suscitado pelo sucessor de João Paulo II. O novo Papa congregou multidões entusiasmadas, como oportunamente assinalámos.

E num ano demasiado carregado com sinais negativos, Bento XVI com as suas intervenções sensatas e cheias de fé, ainda é o  sinal positivo de esperança de que o Mundo tanto necessita.

 

 06-Jan-2006

Manuel José Lopes da Silva, Professor Jub. UNL