DA IMODERAÇÃO À INSTABILIDADE 
 

Que os Media têm um papel fundamental na vida das sociedades contemporâneas é um facto evidente que se impõe a quem sobre ela reflecte.

Em meados do século passado foram realizadas investigações no domínio da sociologia da comunicação que levaram mesmo a estabelecer um quadro dos efeitos da comunicação de massa na sociedade.

Os efeitos negativos então identificados deram origem a obras de referência de vários autores, abordando uns a perspectiva psico-social (americanos) outros a perspectiva político-económica (europeus)

São muitos esses autores, mas sobressaem certamente os nomes de Edgar Morin e Karl Popper que quiseram manifestar as sua preocupações quanto à evolução dos Media, de forma directa e acessível em obras muito divulgadas.

Há no entanto aspectos positivos na actuação dos Media que não têm sido, injustamente, invocados.

Um deles é o seu papel de estabilizador da mudança social, característica das sociedades ocidentais em evolução acelerada.

Essa estabilização resulta do confronto entre os vários interesses ser elevado ao nível da discussão racional no espaço público, exprimindo-se livremente e permitindo à sociedade eleger consensualmente os objectivos comuns.

No longo prazo este papel dos Media parece indiscutível; mas no curto prazo, tal papel moderador pode ser anulado pela evidente retroacção dos seus efeitos sobre o comportamento dos actores sociais.

Estes, procurando acima de tudo promover os seus próprios interesses, tentam manipular a comunicação, induzindo ideias no espaço público desligadas da realidade e da verdade, muitas vezes falsas.

Os Media podem por isso deixar de ser moderadores para ser coniventes com a criação de estados psico-sociais indesejáveis e mesmo patológicos.

Tudo isto vem a propósito de situações recentes vividas pela sociedade portuguesa. No momento em que a última crise atingiu o seu máximo, com os actores sociais intervindo descontroladamente, algumas personalidades mais sensatas afirmavam não ter explicação racional para o que se estava a passar, parecendo que poderosas forças irracionais e auto-destrutoras levavam a comportamentos verdadeiramente suicidas dos actores sociais em evidência.

O sistema político entrou claramente numa perigosa instabilidade, que causou graves danos psicológicos na sociedade. Os Media tiveram nessa instabilidade um papel preponderante, pondo-se o problema de averiguar porque tal aconteceu e de assumir as correspondentes responsabilidades.

É claro que os políticos não manifestam conhecimento acerca das verdadeiras relações dos Media com a sociedade; para eles estes são simples alti-falantes que inundam a sociedade com as suas propostas. Parecem ignorar sobretudo o efeito boomerang, pelo qual a arma com que querem atingir os adversários se volta frequentemente contra si próprios. 

Os comunicadores, ainda que em geral bem intencionados, têm a responsabilidade de pôr os Media ao alcance indiscriminado de qualquer actor social que os pretenda utilizar, sem avaliarem primeiro se são respeitadas a justiça, a verdade, a oportunidade e as regras da expressão cidadã, que impõem respeito pelas pessoas dos visados e auto-contenção nas formas de expressão.

Além disso o modelo de informação-espectáculo praticado pelos Media, particularmente a TV, afasta-os da objectividade e tende para a especulação.

De facto é bom recordar que a liberdade democrática está muito longe da demagogia com que a maioria dos actores sociais caracteriza as suas intervenções.

Temos de recuperar (comunicadores, políticos) a moderação nos comportamentos que é característica das sociedades democráticas civilizadas, conscientes da importância da comunicação social e do seu auto- controle num quadro ético - político responsável. 

Manuel José Lopes da Silva, Professor Jub., UNL.

Presidente Honorário e Membro do Conselho Científico da ACMedia