ARTIGOS DE OPINIÃO - 2007 - MARÇO

 

Grooming: Aliciamento e Sedução de Menores
 

"Por Tito de Morais, fundador do site MiudosSegurosNa.Net, um projecto que ajuda famílias, escolas e comunidades a promover a utilização ética, responsável e segura das novas tecnologias de informação e comunicação por crianças e jovens. Aceda a mais de 100 artigos sobre este tema, a partir de http://www.MiudosSegurosNa.Net."


 

 

A semana passada, vários meios de comunicação social noticiaram o caso de uma adolescente portuguesa, alegadamente seduzida, fotografada, chantageada e violada por um adulto de 24 anos que havia conhecido através da Internet. Neste artigo deixo algumas pistas úteis para a prevenção destes casos.

Com base num comunicado da Polícia Judiciária, o caso em epígrafe recebeu cobertura noticiosa por parte de vários órgãos de comunicação social portugueses, nomeadamente: Correio da Manhã, Diário de Notícias, Jornal de Notícias (também aqui), Portugal Diário e SIC. Dado que o caso é noticiado com algumas variantes consoante o órgão de comunicação, sugiro a leitura das diversas notícias, seguindo as ligações acima. Por outro lado, se bem que a forma como este tipo de casos são noticiados pela comunicação social mereça, só por si, uma reflexão, esta ficará para outra altura. Mais premente parece-me o facto de nenhuma das notícias adiantar sugestões ao nível da prevenção deste tipo de casos. Seja para as próprias crianças e jovens, seja para pais, educadores e responsáveis de espaços públicos de acesso à Internet. Assim, em vez de me debruçar sobre o caso em si ou sobre a forma como foi noticiado, prefiro deixar aqui algumas pistas ao nível da prevenção, deixando as restantes reflexões para outra altura igualmente oportuna.

Distinguir o Trigo do Joio
Impedir ou proibir os contactos com estranhos na Internet é uma tarefa praticamente impossível. Sobretudo no caso de adolescentes. Assim, no artigo "Pirâmides de Confiança" já referi a importância de se estabelecerem hierarquias de confiança ao nível dos contactos que se estabelecem na Internet. As pirâmides de confiança podem ser uma forma de ajudar crianças e jovens a distinguir o trigo do joio das suas listas de contactos na Internet. Outra forma é ajudá-los a compreender como funcionam os mecanismos de aliciamento e sedução geralmente utilizados na Internet por predadores sexuais.

Internet Grooming
Internet grooming é a expressão inglesa usada para definir genericamente o processo utilizado por predadores sexuais na Internet e que vai do contacto inicial à exploração sexual de crianças e jovens. Trata-se de um processo complexo, cuidadosamente individualizado, pacientemente desenvolvido através de contactos assíduos e regulares desenvolvidos ao longo do tempo e que pode envolver a lisonja, a simpatia, a oferta de presentes, dinheiro ou supostos trabalhos de modelo, mas também a chantagem e a intimidação, como no caso da jovem referido no início deste artigo. No entanto, o estudo "A Typology of Child Cybersexpolitation and Online Grooming Practices" (PDF - 160 KB), da autoria de Rachel O'Connell, então Directora de Pesquisa da Cyberspace Research Unit da University of Central Lancashire's dá-nos informação extremamente relevante para percebermos e podermos explicar aos jovens as diversas etapas seguidas por este processo.

Métodos de Selecção de Vítimas
Segundo o estudo acima referido, as actividades que precedem o processo de contacto directo com uma criança/jovem podem envolver simplesmente o pedófilo fornecer uma descrição falsa de si próprio a todos os restantes utilizadores, fazendo-se passar por um tipo específico de criança/jovem, de determinada idade e/ou sexo, na esperança de atrair uma criança/jovem de idade equivalente, seja do mesmo sexo ou do sexo oposto. Ainda segundo o estudo, um padrão de comportamento é também por vezes adoptado onde o predador apenas acompanha as conversas públicas durante algum tempo sem intervir, no sentido de avaliar as conversas e cada uma das crianças/jovens participantes na mesma. E só após esta análise inicial escolhem apresentar-se, muitas vezes apenas a uma criança/jovem que têm mantido sob observação. Ainda segundo Rachel O'Connell, é importante notar que nem todos os pedófilos mentem quanto à sua idade. Alguns apresentam-se mesmo como adultos e fornecem informação correcta quanto à sua idade.

Etapa 1: Amizade
Nesta fase, o pedófilo procura conhecer melhor a criança/jovem. O tempo dispendido nesta etapa varia e o número de vezes em que é repetida varia em função no nível de contacto mantido pelo predador com a criança/jovem. Nesta fase, o pedófilo procura atrair uma criança/jovem que aparente ser vulnerável para uma conversa privada. O predador escolheu uma vítima potencial e começa a isolá-la dos restantes contactos. Tal poderá acontecer através de um convite para deixar uma sala de chat pública criando uma sala privada, como pode acontecer passando ou alternado as conversas através de programas de Mensagens Instantâneas ou por telemóvel, através de mensagens SMS. Muitas vezes é solicitado à criança/jovem uma imagem sua sem conotações sexuais.

Etapa 2: Formação de Uma Relação
Extensão da etapa anterior, nesta fase o pedófilo procurará envolver a criança/jovem em conversas sobre a vida doméstica e/ou escolar ou questionando-os relativamente a eventuais problemas que sejam detectados. Por um lado, o pedófilo procura construir um sentimento de familiaridade e conforto, e por outro, saber o mais que puder sobre a sua potencial vítima. Nem todos os pedófilos se envolvem nesta fase, mas aqueles que irão manter o contacto com a criança/jovem, esforçar-se-ão por criar a ilusão de serem o melhor amigo da vítima. Geralmente, esta fase é intercalada com perguntas que se relacionam com a fase seguinte.

Etapa 3: Avaliação do Risco
Nesta fase, a criança/jovem é questionado sobre o local onde se encontra o computador que está a usar e que outras pessoas têm acesso a ele. Ao reunir este tipo de informação, o predador está a avaliar o risco das suas actividades poderem ser detectadas pelos pais da criança/jovem ou outros adultos ou irmãos ou amigos mais velhos.

Etapa 4: Exclusividade
Nesta etapa, surgem sugestões do tipo "somos os melhores amigos", "percebo o que estás a passar" ou "podes falar comigo sobre qualquer assunto". O pedófilo procura criar um sentimento de amor e confiança mútuos com a criança/jovem, no sentido de manter a relação secreta. E é este aspecto que permite o início da fase seguinte, que se foca em aspectos mais íntimos e de natureza sexual.

Etapa 5: Conversas Sobre Sexo
Esta última etapa pode ser iniciada com perguntas como "já alguma vez foste beijado(a)?" ou "já alguma vez te tocaste?". Este tipo de perguntas pode parecer inócuas para a criança/jovem dado que, na fase anterior, o predador posicionou a conversa de forma estabelecer e partilhar um sentido profundo de confiança. Desta forma, o predador envolve a criança/jovem em conversas e trocas de imagens explícitas sobre sexo. Nesta fase, o pedófilo geralmente procurará marcar um encontro físico com a criança/jovem.

O estudo aponta ainda fases que aprofundam a última etapa acima referida e alerta para o facto destas fases constituírem um sumário das fases possíveis. Nem todos os predadores seguem todos as etapas sequencialmente nas suas conversas. Alguns podem despender mais tempo numa fase enquanto que outros podem pura e simplesmente ignorar uma ou mais etapas. A ordem e o número de etapas também poderão variar e estas variações podem fornecer pistas quanto às motivações. Por outro lado, enquanto algumas destas fases têm objectivos específicos e identificáveis, noutras os objectivos são mais psicológicos e relacionam-se de perto com as intenções do predador e com as suas percepções relativamente à vítima.

A terminar, ter consciência destas fases, perceber que os predadores são especialistas de engenharia social que sabem levar as crianças/jovens a revelar as suas necessidades e desejos para em função disso explorar as suas vulnerabilidades, pode contribuir decisivamente para os proteger de situações de aliciamento e sedução na Internet que podem conduzir à sua exploração e abuso sexual.