A estupidificação da Humanidade


 José António Saraiva

Jornal "Sol"



Um destes dias entrei no carro e, maquinalmente, estendi o braço na direcção do rádio para o ligar. É um gesto que milhares de portugueses fazem diariamente ao início da manhã e ao fim da tarde. Mas a meio caminho suspendi o movimento. Apetecia-me ouvir o quê: música ou notícias? Subitamente percebi que aquilo que me apetecia mesmo era não ouvir nada. Apetecia-me gozar o silêncio. 
E aquele gesto que suspendi, aquele simples gesto de premir um botão, separa dois modos de estar completamente diferentes, para não dizer opostos. 
O indivíduo que liga o rádio do carro torna-se, a partir desse momento, um ouvinte – um 'consumidor' de música ou notícias. Inversamente, o indivíduo que conserva o rádio desligado pode ser um 'produtor', porque o silêncio permite-lhe pensar.  
Para bem das estações radiofónicas, a decisão de manter o aparelho de rádio desligado é cada vez menos frequente. Os indivíduos são cada vez menos produtores e cada vez mais consumidores. Já quase não sabem fazer mais nada senão consumir.
E não me refiro apenas – note-se – às compras (...) refiro-me ao consumo 'em geral'. 

As pessoas sentam-se ao volante e imediatamente começam a consumir rádio. Chegam a casa, sentam-se no sofá e começam a consumir televisão. Depois sentam-se à mesa, naturalmente a consumir… comida. Depois do jantar ou vêem televisão, ou falam ao telefone ou ao telemóvel, ou põem-se diante do computador a consumir na internet textos ou imagens. E na manhã seguinte voltam a ligar o rádio. E a caminho do emprego, depois de estacionarem o carro, põem os auriculares nos ouvidos e ouvem mais música, e no emprego ligam o computador – onde passam uma boa parte do tempo a consumir mais imagens, mensagens, e-mails, informação… E nos intervalos lêem os SMS que receberam.
Há duas gerações atrás as crianças fabricavam muitos dos seus brinquedos.  

Organizavam equipas de botão e de caricas, construíam carros de esferas e trotinetas, improvisavam bolas. Faziam álbuns para guardar os selos. Compravam construções de cartolina ou plástico para montar, algumas altamente complexas: palácios, fortalezas, aviões, navios, com centenas de peças que se tinham de recortar e colar com Cola Cisne (no caso da cartolina) ou com cola tudo (no caso das construções de plástico). E havia outros brinquedos como o Lego, constituído por peças de encaixar (como se fossem tijolos) com as quais se fazia todo o tipo de construções ao sabor da imaginação.
Estas crianças que construíam os seus próprios brinquedos ainda estavam próximas do homo faber, do homem fabricante dos utensílios necessários para sobreviver.
Mas em duas gerações tudo mudou. As crianças deixaram progressivamente de construir brinquedos e tornaram-se furiosas consumidoras. Não constroem nada, mas têm os quartos cheios de brinquedos comprados nas lojas. E nos tempos livres consomem televisão e DVD ou jogam no computador, enquanto comem bolachas, pipocas ou batatas fritas e bebem Coca-Cola.
O problema agrava-se pelo facto de, a esse vazio produtivo, se somar uma demissão de pensar. Na sua fúria consumidora, os homens desabituaram-se de pensar. Perderam a disponibilidade para pensar. Não têm tempo para pensar. Têm medo de pensar. Têm preguiça de pensar. Quando arranjam um bocadinho livre sentem-se mal, agarram-se ao telemóvel a marcar números, a falar, a receber mensagens.
A expressão "opinion makers" é um produto desta sociedade onde as pessoas só consomem e não pensam. Até porque, se lhes sucede – num momento raro – pensarem um bocadinho e chegarem a uma conclusão diferente da que é partilhada pela maioria, assustam-se e acham que se enganaram. Sentem-se, pois, mais seguras a consumir as opiniões alheias, as opiniões das pessoas pagas para pensar. As tais opiniões dos opinion makers ou opinion leaders.
(...) Dizer-se que as pessoas hoje têm mais informação é uma ilusão: consomem, de facto, mais informação, funcionam como esponjas, mas depois não usam essa informação porque não produzem quase nada.
(...) Máquinas cada vez mais velozes e sofisticadas multiplicam por milhões produtos pensados por uma pequeníssima minoria de criadores.
E essa legião de consumidores assemelha-se progressivamente a uma legião de escravos – escravos de todos os tipos de consumo, inclusivamente das opiniões de outros.
Durante séculos a Humanidade evoluiu porque os seres humanos eram obrigados a produzir e a pensar. Hoje vive-se a situação contrária: como os homens estão a desabituar-se de pensar, a Humanidade encontra-se num processo de estupidificação.