IMPRENSA

 

Diario de Burgos

 

Temos a Televisão que merecemos?

 

 

 


Artigo publicado pela Presidente de ATR – Burgos, Carolina Miguel Sancha, no DIARIO DE BURGOS, em cujo suplemento apareceu também uma reportagem demolidora com o título S.O.S.  – ESTE ANO O SEU FILHO VIU 12.000 CENAS DE VIOLÊNCIA NA TELEVISÃO
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Não aceito a afirmação de que temos a TV que merecemos. Primeiro, porque o seu sistema de avaliação super-secreto merece pouco crédito – tal como tudo o que não se vê nem fica registado. Depois, porque motivo vêem um programa as pessoas que se supõe estar a vê-lo? A quem não aconteceu já, depois de ter andado às 10 da noite a saltar de um programa para outro, fixar-se – por exclusão de partes – no menos mau? Mesmo que o programa mais néscio e infamante fosse o que mais se vê, isso justificaria a sua emissão? Com efeito, há coisas que se consideram prejudiciais – álcool, tabaco, ideias racistas ou discriminatórias, etc. – que, exactamente por isso, nunca saem da televisão. E a ninguém ocorre dizer que cada um decide apagar ou não o televisor quando se anuncia tabaco ou se apoia e aplaude um descerebrado racista.

 

A exaltação do violento e da própria violência, a apresentação do homem e da mulher como meros objectos, a valorização do êxito profissional à custa de qualquer meio ou a acumulação de uma fortuna como paradigma de realização pessoal, o culto do ambíguo e do enganoso, os comentários frívolos sobre as relações entre as pessoas, em doses de mais de duas horas diárias ao longo dos anos, não prejudicam mais a sociedade do que o tabaco?

 

Então porque é que há quem se mostre indignado quando se apela para a responsabilidade dos jornalistas e empresários da televisão por nos tratarem tão mal? Ao menos poderiam pensar nisso.

 

Não, realmente nós não merecemos esta televisão. Nem nós nem ninguém que se considere como pessoa. Simplesmente não há direito de que apenas por dinheiro – poderosa razão – se cause um mal social.

 

Exagero? Creio que não. Aqui vai um dado objectivo: Um recente estudo intitulado “Valores Sociais e Drogas”, levado a cabo pela Fundación de Ayuda contra la Drogadiccion, revelou que as franjas de jovens que se identificam com valores hedonistas, impróprios ou interesseiros apresentam maior probabilidade de vir a consumir tabaco, álcool e sobretudo cannabis e outras drogas.

 

É evidente que ninguém se vicia em drogas por ver televisão mas há dados estatísticos credíveis que relacionam determinados temas frequentemente apresentados na televisão com uma maior percentagem de dependência dessas substâncias.

 

Por favor, na televisão, nem parvoíces nem sermões. Apenas um pouco de consideração por aquilo que merece respeito.

 

 

In Boletim de ATR (Agrupación de Telespectadores y Radioyentes) – Madrid

(tradução)