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A Vida é Bela



Maria da Glória Corte Real

“A vida é Bela!”, julgo ser este o título dum filme que vi há já bastantes anos, um excelente filme que, além de mais, transmitia uma mensagem extremamente positiva.
Não há ninguém que, na vida, escape a espaços mais ou menos amargos e o modo mais rápido de os ultrapassar é procurar – seja qual for a situação – descobrir neles o que se pode encontrar de bom e assim manter a esperança.
Penso que muitos recordam o filme ou, pelo menos, a parte em que o pai – judeu perseguido e preso pelos nazis – procurava descobrir algo de positivo para manter no filhito a esperança de um futuro diferente.
Ultimamente tenho-me lembrado mais ainda desta temática, não porque tenha tido graves problemas pessoais mas porque me sinto totalmente envolvida nesta crise que a todos afecta, com a consciência das dificuldades que Portugal tem para conseguir sair do buraco em que se deixou cair….
Acontece no entanto, penso eu, que no momento em que temos de ter a valentia de erguer a cabeça e nos unirmos no esforço árduo de andar em frente, a comunicação social arrasa-nos com catadupas de notícias penosas, quase sempre de carácter negativo que em nada contribuem para a saúde mental de que todos precisamos.
Psicologicamente, julgo não ser este o modo mais útil de servir o país. Claro que é preciso esclarecer, que é preciso falar do que acontece mas o tom alarmista e pessimista com que a comunicação social o faz não me parece propriamente o mais indicado. Às notícias seguem-se os comentários, sempre catastróficos, onde tudo se discute, tudo se põe em causa e não se dá sequer a chance de pensar que o futuro está, em grande parte, nas nossas mãos.
Claro que vai ser custoso; que muita gente vai sofrer, o que nos leva a ter de dar as mãos, de trabalhar, de ajudar, de compreender. Há dias contaram-me uma história verdadeira, não é anedota: Um miúdo, alarmado com a referência permanente à palavra crise, perguntou ao pai: “Pai, a crise é uma doença? E não há vacinas como as da gripe do ano passado?” Infelizmente até as havia, só que não foram tomadas a tempo.
Agora o que há a fazer é ter a coragem de enfrentar a situação, arregaçar as mangas, ter calma e pensar que os tempos difíceis que estamos a atravessar só se vencerão, não com lamentações estéreis, mas com luta, sacrifício e entreajuda.
Crises, temo-las tido ao longo da nossa história de oito séculos e continuamos todos de pé. Havemos de vencer esta como vencemos as outras, assim o queiramos.
E não será que esta mesma crise nos possa ajudar a perceber que o supérfluo, o consumo exagerado, o desperdício, o luxo não dão felicidade a ninguém? Não nos levará a procurar dar um sentido mais positivo à vida, colocando em primeiro lugar o que é realmente importante e não o que apenas é susceptível de chamar a atenção? Perceber que todo o dinheiro mal gasto, tudo o que se gasta por capricho, todos os euros desperdiçados são um verdadeiro roubo a uma sociedade onde tantos sofrem por não terem o suficiente para viver com dignidade.
Pedir à comunicação social que seja mais objectiva, mais parca em futurismos negativos e mais rica em notícias práticas, divulgando projectos que já estão em execução por gente que voluntariamente se entrega aos outros será pedir muito? E será “contra-informação” dar notícias boas, que ainda as há, felizmente? Será que só a má notícia merece a honra de ser notícia? Lembro-me da conversa que há tempos tive com uma jovem jornalista recém-formada e estagiária numa das nossas televisões. Foi chamada de urgência por estar mais perto de um acidente e não tardou a sair para onde o seu ofício a chamava. Naturalmente, perguntei-lhe o que tinha acontecido. “Estou mais perto, posso chegar mais depressa, descreverei mais cedo o desastre e, se conseguir encontrar alguém morto, melhor” respondeu-me em tom de gracejo.
Não consigo perceber, apesar dos meus muitos anos, a razão porque tudo quanto é bom não é notícia e tudo quanto é mau o é. Será que nós – sociedade civil – não teremos o direito de pedir que os senhores jornalistas nos ajudem, dizendo a verdade sem tantos exageros que quase nos levam à paranóia?
É certo que também temos dado conta de reportagens exemplares, mas são tão raras! Aqui ficam os nossos agradecimentos a quem as faz!