A tragédia do douto ignorante
 
 
João César das Neves
Artigo do DN de 28-11-2005
 

A vida real é espantosa, a vida comum é única, a vida ordinária é extraordinária. Quando foi que nos esquecemos disto? A sociedade ocidental, em nome de um suposto realismo, perdeu a chispa de transcendência que penetra todo o real. Essa é a origem do seu drama patético. Assim, cada um vive projectado fora de si, mergulhado em ficções que considera reais.

Vivemos num mundo de aparência. Somos arrastados numa enxurrada de filmes, romances, novelas, jogos de computador, publicidade. Esta é a era dos génios, campeões, estrelas, personagens míticas cuja vida queremos viver em vez da nossa. Os auscultadores e os SMS isolam os jovens do mundo.

A suprema mentira é o reality show, ficção com a ilusão de realismo, que vai muito para lá do telelixo. Nesta "era da informação" a maior parte da informação que recebemos é falsa. Se pretendêssemos obter retratos fidedignos do mundo leríamos as publicações do INE, relatórios das direcções-gerais e centros de estudo, volumes das organizações internacionais. Sem paciência, escolhemos os telejornais e a imprensa. Aí saímos do real e entramos no reality show.

Um repórter, ao cobrir um evento, não está interessado em descrever o que aconteceu. O que procura é um ângulo de abordagem, um ponto picante, uma nota polémica. Os jornais publicam, não informação, mas "notícias", textos dramáticos concebidos livremente a partir da vida monótona. Empolam alarmes, incitam discussões, sublinham o insólito. Baseiam-se, afinal, no fundamento das coscuvilhices de comadres. Ver o relato jornalístico de algo em que participámos é ficar, em geral, com a sensação de ouvir a única pessoa na sala que não percebeu nada do que ali aconteceu.

O chamado jornalismo de investigação é pior. Pretendendo aprofundar um tema, estatística, tendência ou fenómeno, o jornalista assume então o lugar de dramaturgo. Oculta o aborrecido, corrente, natural, para tomar os aspectos mais incríveis, as interpretações mais alvoroçadas. Depois colecciona opiniões de especialistas e comentadores, mas escolhidos artisticamente para encaixar nos papéis destinados. Por vezes procura muito até conseguir o palpite que compõe o ramalhete.

Não é só nos jornais e televisões que a realidade é distorcida como num reality show. O debate político há muito que abandonou a objectividade. Não só usa vorazmente a distorção jornalística, com os desvios referidos, mas deixou mesmo de se incomodar com o real. A maior parte dos discursos, entrevistas e comentários ocupa-se exclusivamente de discursos, entrevistas e comentários. O tema da política é a política. Muitos são influentes só por serem abstrusos. O mais engraçado é ouvir um político a condenar o desinteresse de outro pela realidade, sem notar que, ao fazê-lo, cai precisamente no que condena.

Mas a maior ficção é a divulgação científica. O nosso tempo venera a ciência como mestra suprema, mas, como a desconhece, toma-a antes como tema de espectáculo. Romances científicos e canais temáticos divertem fingindo ensinar teorias rigorosas. A verdadeira divulgação científica existe, mas é muito difícil e rara, pois necessita, simultaneamente, de profundos conhecimentos teóricos e forte dose de pedagogia. O que esses livros e canais fornecem é, em geral, algo muito mais comum mixordice científica, um reality show concebido com tons laboratoriais. O resultado inclui as maiores patranhas intelectuais de sempre, muito mais perigosas que as antigas lendas mitológicas, que nunca se pretenderam exactas.

Vivemos assim num mundo de doutos ignorantes, que falam com autoridade sobre o Bush ou a fusão do átomo, porque leram as aldrabices que alguns lhes impingiram. Consideram-se largamente informados sobre a realidade que nos rodeia, tendo esquecido totalmente a realidade que os rodeia. Nem sequer sabem que não sabem. Mas, pior de tudo, vivem projectados fora de si, num mundo de ficção que lhes tapa a beleza incomparável de si mesmos. Porque a única coisa admirável na vida é a vida vivida.

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