A objectividade na informação jornalística

 

Dorothy Nelkin, no seu livro “La ciência en el escaparate”, tradução do original americano, mostra com muita agudeza que os jornalistas pensam ser objectivos quando se esforçam por fornecer aos leitores todas as opiniões sobre um dado tema. Ora como nem todas as opiniões são fidedignas, o critério dos jornalistas é inconsistente, porque não dá a quem lê, meios para avaliar as diferentes opiniões com justiça.

Outro critério que guia os nossos jornalistas é a ânsia de serem os primeiros a dar a notícia, esquecendo ou menosprezando a sua confirmação. Quando João Paulo II estava em agonia, realmente muito mal, mas vivo, já havia meios de comunicação a anunciar a sua morte, que veio depois a ser desmentida, até ao momento em que realmente o infausto acontecimento teve lugar. Isto não é jornalismo, mas sensacionalismo.

Um caso típico de falta de objectividade é o que se refere à informação científica. Parece um filme policial. Há anos apareceu uma notícia “bomba”: «os aerossóis domésticos espalham a semente do fim do mundo». Lá estavam todos: a substância prejudicial funcionava de suspeito do crime; os investigadores que chegaram a tal conclusão eram os detectives; o juiz foi quem debitou a decisão inapelável à qual todos se deviam dobrar. Se bem que sejam prejudiciais ao meio ambiente, o fim do mundo ainda não veio e já lá vão alguns anos…

Outro hábito jornalístico é o sensacionalismo. No fim do século passado veio a lume uma notícia: “inter-ferrão cura o cancro”; passados que foram estes anos o cancro continua a vitimar milhares e milhares de pessoas a ponto de se criar, a nível mundial, programas que a par das tentativas de cura, desenvolvem o rastreio, para que o ataque possa ser atempado. Mas a frase mágica lançada ao mesmo tempo: “vislumbram-se esperanças de cura” criou uma avalancha de chamadas telefónicas para os Centros hospitalares por parte daqueles que, sendo vítimas da doença, viram brilhar uma luzinha ao fundo do túnel. Claro que à euforia seguiu-se a decepção e então os jornais, para vender papel, metaforicamente mudaram a frase: “perderam-se as esperanças” – não há aqui meio termo.

É claro que a culpa não está toda nos jornalistas, e nem todos assim procedem, mas também no facto da diferença de ritmo entre as necessidades da imprensa e os avanços da ciência. Enquanto o trabalho do cientista é paciente e escondido, as notícias para terem impacto devem ser velozmente transmitidas e quanto mais cedo melhor – não lhes interessa o rigor ou a confirmação, mas a informação em cima da hora. Actualmente algo que está na moda é a “fecundação in vitro”, voltando-se com todo o entusiasmo para esta nova técnica de fecundação artificial, mas nunca referem a baixa taxa de sucesso ou o alto custo dos processos que fracassam inúmeras vezes, isto para já não falar na ilicitude do processo, que separa a função reprodutiva da função unitiva.

Para a imprensa o que é notícia são os processos e não os resultados; investigações que levam a hipóteses muitas vezes não comprovadas, mas que os jornalistas tentam fazer crer como dados adquiridos.

Também é bom não esquecer, para estarmos de sobreaviso, que muitos dos artigos pseudo-científicos, que aparecem nos jornais, começam nos gabinetes de relações públicas, quer das indústrias envolvidas, quer dos centros de investigação. Não quero dizer com isto que queiram enganar conscientemente, mas já sabem que um alerta lançado pelos jornais canaliza dinheiro por parte daqueles que vislumbram um futuro rendoso no caso. Com isto ganham as Universidades e os Centros de Investigação. São eles, em parte, que empurram os jornalistas para o sensacional.

Por esta via a imprensa apoia os audazes: os cientistas (!) imprudentes são os mais ouvidos, porque são os que mais falam – só que falam de hipóteses que nem sequer, muitas vezes, foram testadas; pelo contrário, os cientistas cautelosos só falam de questões certas e sempre com reservas.

E nós os receptores? Que havemos de fazer? Pois uma coisa muito simples: não procurar uvas nos espinheiros, mas nas boas cepas, isto é, quando queremos estudar um assunto em profundidade devemos recorrer a publicações da especialidade dignas de crédito e não a jornais, onde o que conta não é o rigor e a objectividade, mas o sensacionalismo, o primeiro lugar e tudo o mais que seja vendável e rentável.

Maria Fernanda Barroca