A crueldade do 'bullying'


 

Isabel Stilwell

Durante anos traduzi a palavra Bullying por Tortura, embora agora já se use o termo inglês. Tortura descreve bem esta realidade cruel que vitimiza uma criança ou adolescente, que por ser 'diferente' (usa óculos, tem peso a mais ou é franzino, tem notas excelente, etc), é escolhido como bode expiatório, normalmente por um líder de um pequeno grupo de seguidores, que individualmente não lhe fariam mal, mas que na presença do chefe se juntam à chacota.

O círculo vicioso criado é evidente: o torturado sofre danos irreparáveis à sua auto-estima, guarda o segredo por vergonha e com medo de represálias, tenta fugir à escola, usando um leque de pretextos, somatiza o sofrimento e, por vezes, chega mesmo ao suicídio.

Durante séculos (e não o será ainda, para muitos, basta ver como se reage aos rituais mais bárbaros de iniciação de caloiros), a culpa foi atribuída à vítima, por se considerar «que se deixava humilhar», e muitos adultos fechavam os olhos, convencidos de que assim haviam de aprender a fazer-se homens/mulheres.

Sabe-se, no entanto, que esta forma de violência não tem nada de inocente, nem de pedagógico, e que se trata de um fenómeno muito complexo, em que é preciso ajudar tanto o torturador, que se refugia nestes comportamentos de prepotência e sadismo, como o torturado, que precisa de aprender a fazer-se valer, sob risco de continuar pela vida fora a colocar-se em posições de minoridade, que chamam sobre si constantes abusos.

Hoje o bullying está sob o microscópio dos especialistas do comportamento, e já foram criados programas anti-tortura de grande êxito, que muitas escolas aplicam, nomeadamente entre nós. Carlos Neto foi coordenador, em Portugal, de um projecto internacional nesta área.

Ao ler um resumo do trabalho, uma frase ficou-me na memória: «As escolas que permitem o bullying, dão aos alunos modelos muito pobres do que é ser cidadão numa sociedade democrática». O tema vai estar em debate.