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Por Fátima Fonseca

28 de Fevereiro de 2006



   O meu 100º metro quadrado -  ( Este é que é o último! uff, custou a cá chegar!!! a montanha, ou o montezinho, era afinal mais íngreme do que me parecia ao começar…)
 

 

28 de Fevereiro, 3ª feira de Carnaval, 22,30.

Ainda agora, deitada em cima da cama, ao lado da cama da minha neta Carlota, de 6 anos, estávamos as duas de mão dada, nesta que é a sua última noite aqui em casa, antes de voltar para casa dos Pais, e filosofávamos…

Enquanto conversávamos, ia recordando esta mesma hora mágica do deitar dos meus filhos, quando pequenos, esses momentos, agora distantes, de risos e lágrimas, que nunca gostei de trocar por nada deste mundo e que era tempo de rezar, contar segredos e anedotas, conversar, fazer teatros, ler e imaginar histórias, até que, por fim, rendida, acabava por ser eu sempre a primeira a adormecer.

A Carlota fez-me hoje perguntas mais difíceis e variadas do que é habitual: - “ oh Avó,  cá no meu cérebro estou a ver os meus pais lá no outro sítio do mundo onde ainda é dia e eles estão a lanchar a esta hora, não é? Como é que é dia lá? Oh, avó, e como é que eu posso olhar para dentro do meu cérebro? A avó já viu o meu cérebro? É cor-de-rosa?...

 ...E os animais do Jardim Zoológico, estão lá todos os animais do mundo todo? E vivem lá presos até ao fim da vida deles? Coitadinhos! Só espero que lhes dêem de comer todos os dias. É um bocadinho parecido com “ nós”, não é? Também estamos presos aqui na terra e só se pode sair vivo, quem for astronauta, não é, avó? Só mais uma pergunta, avó, prometo que é mesmo a última …E os ladrões, avó, como é que eles se transformam em ladrões? Quando eram pequenos não eram maus, pois não? …”

Lá consigo escapulir-me, por fim, e venho directa ao computador, cumprir o meu compromisso último. Muitos temas gostaria de ter abordado, mas ficar-me-ei por dois comentários apenas!

Ao ver na televisão, por estes dias, um engraçado desfile das gentes de Sesimbra mascaradas de palhaços, lembrei-me de que há poucos dias ouvi na rádio, os minutos finais de uma entrevista na Antena 1, em que se fazia referência a uma homenagem prestada por médicos a um pequeno grupo de palhaços que há quatro anos, percorrem, sem descanso, alguns dos hospitais do nosso país a levar um sorriso e uns minutos de alegria a crianças internadas com cancro. São os senhores “Drs.-Palhaço”, cujo sonho é conseguir, um dia, que cada criança doente possa ter mesmo o seu “Dr. Palhaço”. Para eles faz de conta que é Carnaval todo o ano, por devoção à causa daqueles cujos dias tão precocemente surgem marcados pela Dor.

Quanta coisa boa de verdade acontece neste país, sem que chegue a ser notícia! Ainda bem que a rádio, pelo menos, uma estação de rádio! no-la deu a conhecer !

Depois, ao ouvir a Carlota fazer-me perguntas sobre os ladrões – uma versão “soft” inventada por mim para desviar a atenção da Carlota da notícia do assassinato do sem-abrigo no Porto – pensei que teria de contar-vos o que me aconteceu hoje, ao fim do dia.

Tive de ir à rua, num instante, e encontrei duas vizinhas de idade, ambas empregadas domésticas até há bem pouco tempo. Ao aproximar-me, reparei que uma delas, de dedo em riste, falava quase ao ouvido da outra. A primeira era a D. Idália (uns 70 e tal anos), a segunda era a D. Constança (84 anos), que por sinal, partiu uma omoplata, no fim do ano, ao sair da minha casa onde viera de propósito, para me oferecer um bolo da Madeira, sua terra natal. E eu que de nada sabia!

Quando me aproximei para as cumprimentar, a conversa era sobre um indiano, sem-abrigo, que vive ao fundo da nossa rua há mais de um ano. Fiquei então sabendo, que a D. Idália fala muito com ele, o ajuda de vez em quando e lhe dá comida. Até tinha estado a fazer uma feijoada para ele, ontem de manhã. Só que ele não estava lá no jardim habitual. - Sabe, ele tem muita confiança em mim, dizia-me ela. Deu-me a guardar fotocópias dos documentos dele, porque já lhe roubaram os originais. Vira-o há dias com pontos na cabeça e por isso ficou muito preocupada quando um outro pedinte da rua lhe disse ontem, que tinha vindo uma ambulância buscá-lo para o levar para o hospital do Rego. Resolveu então, a D. Idália, ir ao hospital saber notícias e lá passou a tarde até às 23h de ontem, até conseguir falar com algum médico. Hoje foi à procura dele para S. José, da parte da manhã, e aí soube que tinha sido transferido para os Capuchos, para onde saiu, disparada, a fim de saber o que podia fazer pelo sem-abrigo. Está nos Cuidados Intensivos, por isso não o pôde visitar, mas vai lá voltar amanhã.

 

Fiquei a pensar que foi horrível, que é horrível, de facto, o acto de violência de que todos falam, perpetrado por um punhado de crianças e adolescentes, no Porto, contra um pobre desgraçado, estrangeiro, doente e sem-abrigo.

Ninguém fala porém, da D. Idália. Melhor dizendo, da Senhora Dona Idália.

Que pena contudo, que não possa ser notícia o coração grande desta mulher, quase analfabeta, que aqui em Lisboa, anda preocupada com a saúde deste outro, igualmente um pobre desgraçado, estrangeiro, doente e sem-abrigo…

 

A Senhora Dona Idália, na simplicidade do seu modo e do seu falar, à despedida só me disse baixinho: Coitada da Constança, gosto muito dela. Ela está muito em baixo, mas ela sabe que somos amigas do coração!

E são-no, de facto. A Idália, que eu vira de dedo em riste, falando baixinho ao ouvido da amiga, não estava a zangar-se, não, como as lágrimas que eu vi nos olhos da Constança poderiam querer dizer… estava simplesmente a recomendar-lhe que não se esquecesse de lhe levar a roupa suja que não lhe custava nada lavar a roupa da amiga. Contou-mo a Constança, depois que a amiga desapareceu na esquina da rua.

Bendito seja Deus! Grande lição recebi hoje!

 

Quando amanhã sairmos à rua, oficialmente já terá acabado o Carnaval e os seus excessos. No metro quadrado das nossas vidas rotineiras, cruzar-nos-emos com muitos desconhecidos, cujos rostos nada nos dizem, na maioria das vezes. Se porém, passarem junto à Igreja de Nossa Senhora de Fátima, ou mesmo, se lá entrarem para receber as Cinzas, que marcam o início de mais um tempo de Quaresma e conversão, é possível que lá encontrem a Senhora Dona Idália.

 Baixinha, franzina, morena, de óculos e passinho ligeiro, sempre sorridente e discreta, pobremente vestida, quase não se dá por ela, mas digo-vos aqui, quase em segredo: -fixem-na bem, porque ela é um anjo bom. Acreditem!

Até sempre, amigos leitores!

 Deixo-vos o meu agradecimento e os meus melhores desejos!

Qualquer dia, eu volto.