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Por Fátima Fonseca

31 de Dezembro de 2005



   Entre Natal e fim de ano acabamos de fazer uma viagem relâmpago à Beira Alta, à velha casa  onde meu Pai nasceu e que sonhamos um dia  recuperar, depois de um abandono de  várias dezenas de anos .

Enquanto meu Marido e meu filho Zé passeavam pelos campos, sentei-me na sala gelada, junto à estante dos livros, onde me perco de cada vez que lá vou. Toda encolhida de frio - estavam dois graus e meio lá fora ! – para  ali fiquei entretida com a leitura de uns pequenos livros de Azorin ( nome pelo qual ficou conhecido o célebre escritor, jornalista e político espanhol da geração de Unamuno, José Martinez Ruiz, 1873-1967).

Chamou-me a atenção em particular, um pequeno livro intitulado “ O político” , com conselhos aos  políticos para que tivessem uma boa imagem. Lembrada dos recentes debates televisivos entre os  nossos vários candidatos à Presidência da República, não pude deixar de fixar alguns dos curiosos conselhos que tanto se adequam à situação actual, pensando que alguém poderia oferecer um destes livrinhos em especial a alguns dos candidatos…

Por graça, deixem-me que vos cite a eito e de memória, apenas alguns de muitos dos seus conselhos:

      O bom político deve  falar a todos - ricos e pobres - com o mesmo respeito, engenho e discrição, não deve ser exibicionista ou gabarola, deve manter-se impassível ante os ataques que lhe sejam dirigidos, não deixando sequer que as mãos traiam o seu possível nervosismo ( se para tal for necessário, deve cruzar as mãos atrás das costas ou usar os bolsos ), deve aceitar os elogios e distinções com simplicidade, nunca deve perder o sentido do equilíbrio, deve preferir viver recolhido “ porque o que muito se vê, pouco se estima” e deve actuar em cada momento segundo o que estima ser mais oportuno, benéfico e justo…

Ora digam lá se não seria um bom presente para oferecer no Dia de Reis aos nossos políticos?

 

Mas por falar em Natal e fim de ano, o que eu queria mesmo era contar-vos um pequeno episódio, que mais parece uma história inventada, não fosse ter de facto acontecido…

Há cerca de duas semanas recebi um estranho telefonema de uma senhora de idade, que me telefonou por três vezes, perguntando por mim, dizendo o meu nome completo e afirmando ter recebido um cartão de Natal meu há anos e que portanto devíamos ser amigas. Ao fim de 20 minutos de telefonema, para conseguir pôr termo à conversa, uma vez que não conhecia de todo a senhora, lá lhe pedi a morada e prometi que lhe escreveria um novo cartão. Desliguei, aliviada, e distraída, guardei no bolso do casaco o nome e morada da senhora. Rindo do mistério do cartão de Boas Festas, contei aos meus o episódio…porém, à medida que os dias passavam e nos aproximávamos do Natal e sobretudo cada vez que via o meu vizinho da frente, sozinho na rua a passear a Solidão, perdão, o seu cão, de manhã, à tarde e à noite, vinham-me à memória as palavras da senhora: “…sabe? É que eu quase não tenho família, já não saio de casa e pensei que se me escreveu um dia é porque somos amigas e assim podia vir visitar-me e eu ao menos já tinha uma amiga…”

No regresso da Beira, de repente dei comigo a sentir morder-me a consciência e a pensar que tinha de ir visitar a senhora. Na verdade, talvez fosse esse o único presente a sério que o Menino Jesus me pedia nesse dia…sacudir o meu comodismo, pôr de lado a minha recente paixão - os fantásticos jogos do Sudoku - e pôr-me a caminho…

Fui. Ao fim de hora e meia perdida entre Odivelas e Caneças, dei com a casa, uma sub-cave húmida e escura numa zona degradada. Primeiro bati à porta de uns vizinhos que me olharam espantadíssimos, e por fim dei com a minha nova Amiga! Levava-lhe uma linda “écharpe”  do bazar dos chineses, que ela recebeu e logo pôs com uma alegria tal que mais parecia estar a oferecer-lhe um presente de ouro, incenso e mirra, e depois, ali ficámos no meio de papéis sem fim, cheios de nomes e telefones, escritos à mão numa letra irregular e simples, montes de carteirinhas de plástico com cadernetas da Caixa Geral de Depósitos, postais e retratos, onde afadigadamente a minha nova Amiga de 80 anos procurava o meu postal para mo mostrar… mas em vão! Lá vi porém, no meio de muitos outros, o meu nome completo, a minha morada e o meu telefone…

Confesso que fiquei decepcionada em parte, pois também ia na esperança de desvendar este mistério…

A minha nova Amiga só me dizia: -  Que grande surpresa! Sabe ?  Passo aqui os meus dias nesta sala, recebo a comida da Santa Casa da Misericórdia e depois farto-me de telefonar a estas pessoas todas, mas não me atendem ! Os meus amigos já morreram todos

Agora telefona-me todos os dias. Enquanto vos escrevo esta pequena crónica, já recebi o seu telefonema. Estava com a minha valiosa “écharpe” chinesa ( de 5 euros!!!) sobre as costas e toda sorridente - percebia-se pela voz - vinha-me desejar boas entradas. Ia ficar a ver a Missa pela televisão esta noite  e amanhã ficará sozinha todo o dia no prédio. Os vizinhos estão fora.

 

Meus Amigos, leitores de “ o meu m2”, tenham um Bom Ano Novo em família!  Que o Menino vos aqueça o coração e  encha a vossa casa de Paz e Amizade!