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Por Fátima Fonseca

15 de Novembro de 2005



   Em tempos conheci um pintor amador - muito dotado, aliás! - que para não esquecer as cores e imagens que mais o inspiravam, andava sempre de bloco-notas e caixa de lápis–de-cor no bolso, para assim poder anotar o que mais tarde queria passar à tela.

Também eu vou registando, aqui e ali, pequenas ideias ou histórias reais, que mais tarde me servirão de tema. O problema é que, como anoto em papéis soltos e diferentes agendas, acabo por me esquecer delas e quando as redescubro, muitas vezes já perderam a actualidade…

Vem isto a propósito de um programa de televisão, uma reportagem, passado na SIC, num telejornal de sábado, em Setembro, e que agora fui reencontrar. Desta vez porém, não creio que estranhem a sua evocação já que estamos em Novembro, o tradicional mês de “finados”, em que recordamos mais vivamente, se possível, a morte dos nossos entes queridos e de tantos outros!

O programa a que me refiro, tratava exactamente de diferentes modos de “desatar o nó do luto”, o mesmo é dizer, diferentes formas de viver e fazer o luto, gerindo afectos, memórias e penas, peso e dor.

O programa, em horário nobre de sábado, incluía entrevistas a um psiquiatra e a diferentes pessoas que, tendo perdido, de forma mais ou menos violenta e/ou inesperada, entes queridos e próximos, estão agora à frente de Associações que  eles próprios fundaram, como a “Apelo”, “A nossa Âncora” e “Associação Viver Criança - Ruben Cunha”, precisamente com o objectivo de ajudar outras pessoas em profunda aflição, por luto ou doença.

Dizia o psiquiatra que “ há um tempo para tudo” e por isso aconselhava a nunca se apressar o sofredor a desfazer o quarto ou a casa, ou  esvaziar a arca, o guarda-fato e as gavetas da pessoa que partiu. “É preciso dar tempo” para que as feridas vão cicatrizando, sendo uma ajuda fundamental à sobrevivência de quem sofre “ manter a família unida”.

Ali foram relatados com emoção “ pesados” exemplos de dor, no entanto apelidados de “casos de luto bem sucedido”, isto é, casos de pessoas que não esquecendo jamais os seus mortos queridos, acabam por conseguir, através dessa mesma dor e pelo amor,  transformar-se em pessoas melhores, mais generosas e prestáveis, mais próximas da dor dos outros, e até, frequentemente, mais criativas e artistas, descobrindo novos talentos e recursos dentro de si.

Neste programa, curiosamente, uma das pessoas entrevistadas era alguém que muito admiro e que, justamente, conheci mais de perto, por ser Mãe de uma jovem aluna minha, que fugazmente passou pela “minha” escola, mas a quem nunca poderei esquecer!

A Joana, assim se chamava, adoeceu aos 13 anos com leucemia e morreu aos 15, depois de um longo e intenso calvário. Sempre sorridente, corajosa e conformada - com aquele mesmo sorriso doce e gaiato da Mãe! , Joana viveu a sua doença com uma naturalidade espantosa, apenas pedindo “ por favor, nunca se esqueçam de mim!”Como a Mãe dizia, “a Joana partiu, mas o seu sorriso ficou para sempre, a encher a casa” …

Quando lhe perguntaram como se supera tamanha Dor, a Mãe respondeu com igual sorriso e simplicidade: “- O que a mim mais me ajudou foi a Fé! Agarrem-se a Deus e dêem-se, dêem-se aos outros, o mais possível!”

Tenho outros Amigos que igualmente passaram  por esta Dor inenarrável  da perda de um filho, ou de outro ente muito querido, e sei e vi com os meus próprios olhos, que a “receita” difícil tem sido sempre a mesma: Fé e entrega generosa ao serviço dos outros. Sair de si.