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Por Fátima Fonseca

26 de Outubro de 2005



   (Amigos, nunca mais vos escrevi e hoje, alguém me perguntou porquê! A razão é simples: inesperadamente, voltei a dar aulas na escola e o tempo esgueira-se-me facilmente… Volto porém, à minha meta “secreta” inicial: escrever 100 crónicas. Sem promessa de datas certas, procurarei chegar à meta!!! Recomeço agora! Espero que me desculpem um silêncio tão prolongado…)

 

Passava na rua um destes dias e uma vez mais me cruzei com ele: de pé, encostado à parede de um prédio novo, cabelos em pé, sempre crespos e desalinhados, barba longa, sorriso indefinível, andrajoso, grande, um ar embrutecido, sujo, sempre de vinho na mão, quando não deitado a coçar-se ou a dormir na calçada como um animal desprezado. Todos o vêem. Todos o vemos. Desta vez, olhava o copo de plástico atentamente, cheirava-o e bebia-o com uma imensa voracidade.

Ao vê-lo porém, ali bem perto de mim, tão escravo do seu álcool, lembrei-me de um filme não comercial que vi há pouco e me causou profunda impressão. Vou contar-vos!

 

O filme é apenas a gravação de uma conferência real dada por um arquitecto mexicano, de seu nome Gutierrez, hoje pai de 9 filhos. A cena passa-se no México, num congresso e o conferencista, sempre de pé, convida o público ali presente, a sentar-se o mais comodamente possível, pois vai revelar-lhes uma história verdadeira que lhe mudou a vida. Na primeira fila, entre muitos outros, vê-se uma bela mulher - a sua - com ar ainda jovem  e alguns dos seus filhos adolescentes. Começa então a sua narrativa:

Corria o ano de 1990 - tinha 33 anos e era pai de 7 filhos - e num dos primeiros dias de Setembro,  pela manhã, ao dirigir-se  ao seu carro, sentiu-se agarrado por trás e ao voltar a cara, apanhou com uma coronhada na boca e no queixo. Preso por dois indivíduos encapuçados que lhe taparam a cabeça e brutalmente o meteram dentro do seu próprio carro, arrancam de imediato a toda a velocidade. Ao fim de muitas horas e troca de carro, chegaram finalmente a uma casa, onde o enfiaram num cubículo de 3m x 1m., arrancando-lhe roupas, relógio e haveres, e deixando-o nu. Aí viria a permanecer durante nove meses, permanentemente observado através de uma câmara de vídeo, montada no tecto e sempre a ouvir as cassetes de música, que já ouvira no carro. O motivo do sequestro era a exigência de um avultado resgate aos seus irmãos, empresários conhecidos e com fortuna. Sem nunca tirarem os capuzes, os seus raptores montaram-lhe guarda permanente à porta e apenas comunicavam com ele através de um pequeno postigo, que só eles conseguiam abrir. Para ali ficou com uma esferográfica e uns papéis para preencher, como condição para o início das negociações com os irmãos. No chão, apenas uma pequena esteira, uma fossa e um jarro com água que teria de durar e chegar para as necessidades de cada dia. Ao compreender que o que pretendiam dele era o preenchimento de um relatório completíssimo com descrição pormenorizada da sua família, hábitos de vida, locais habitualmente frequentados, etc., que lhes permitiria ficar a conhecer todos e manipular as suas vidas a seu belo prazer, recusou-se durante vários dias, desesperado, apático, sem forças para reagir, sabendo apenas que não queria entregar-lhes a sua família. Finalmente porém, depois de muitas ameaças e de várias vezes lhe terem exigido o preenchimento dos dados, acabou por responder a tudo, convicto de que não havia outra saída. Porém, mal entregou o inquérito, encheu-se de nojo de si próprio, sentiu-se “ un maricón”, traidor da família, indigno dos seus e, prostrado no chão, nu, imundo, para ali ficou tempos sem fim.

Até que lhe batem à porta e lhe dizem que é Dia Nacional do México - 15 de Setembro - e convidam-no a pedir alguma coisa para festejar. O arquitecto, profundamente fragilizado, julga que estão a gozá-lo, mas lá lhes pede um whisky em copo de vidro e com gelo, da marca que costumava beber. Algumas horas mais tarde, passam-lhe a bebida através da janela. Fascinado e incrédulo, Gutierrez agarra o copo gelado com volúpia, encosta-o ao queixo dorido e mal cicatrizado, e aspira o cheiro a álcool com prazer, mas quando está quase, quase a dar o primeiro gole, ouve no mais profundo do seu íntimo uma voz que lhe pede: “ Dá-mo!”

E trava-se então um emocionante diálogo interior, entre ele e aquela que para ele é a voz de Cristo. “Dá-mo!” “Não posso! Isto é a única coisa que tenho! Já dei tudo…eles tiraram-me tudo!” “Dá-mo!” repete a voz, insistente. E Gutiérrez, encostado à parede, com o copo atrás das costas para que não vejam o que está prestes a fazer, arrasta-se penosamente até à fossa e de repente, ali despeja o copo de whisky. Em seguida deita-se e dorme um sono profundo e reparador. Ao acordar, sem bem perceber como, sente-se outro. Diz então para si mesmo: Afinal não sou “ un maricón” e não estou sozinho! Tenho Cristo comigo e hei-de sair daqui. A minha família não me abandonará!

 Pega na esferográfica, desenha uma cruz na parede, e num papel, começa a delinear um plano de sobrevivência. Traça três colunas e ao cimo da primeira escreve: Saúde física; na segunda, saúde mental e na terceira, qualquer coisa como, metas a atingir.

 Por baixo do título “saúde física” escreve higiene, alimentação e desporto. Pede-lhes um “kit” de limpeza e durante horas lava até à exaustão a “pocilga” onde vivera até então. Depois, como lhe dizem que o querem manter de boa saúde, pede uma alimentação extremamente simples e frugal, porque não quer engordar, pois precisa manter-se saudável para conseguir escapar dali quando possível. Com o mesmo objectivo, começa a fazer desporto, correndo no mesmo lugar, estendendo os braços e pernas, e subindo e descendo apoiado nas paredes laterais.Com a pouca água do jarro, no final dos exercícios, toma diariamente o “ banho” possível. E pouco a pouco, começa a criar rotinas que lhe permitem manter a saúde mental e física., inventando um estratagema para calcular o tempo, pois entretanto dera conta de que sempre estava a ouvir uma mesma sequência de oito cassetes, às quais atribui então uma determinada duração e assim consegue estabelecer um horário e um programa de vida. Pede uma Bíblia, mais tarde “ As Confissões” de Sto Agostinho, e entretanto apercebe-se de que ao longe se ouve um sino de Igreja. E quando o ouve, senta-se a um canto e imagina que está a acompanhar a Missa nessa Igreja e reza no seu íntimo como se estivesse a assistir acompanhado da mulher e dos filhos.

 E Gutiérrez interrompe a narração para comentar: “…talvez vocês pensem que eu era um tipo muito religioso, ou beato, mas não, é que talvez não acreditem, mas eu precisava mesmo daquele tempo de oração…era Aí que eu ia buscar energia todos os dias!”

Na véspera de Natal, os guardas perguntam-lhe se quer fazer algum pedido. E ele diz-lhes que só quer cumprimentá-los e rezar com eles um Pai - Nosso. No dia seguinte, assim acontece, mas apenas através do postigo e com os seus cinco guardas - quatro homens e uma mulher - sempre encapuçados. No final, um por um, estendem-lhe a mão. E um deles pergunta-lhe: “ Sr. Gutiérrez, onde vai buscar tanta energia?”

… O metro quadrado já vai longo, por isso vou encurtar.

 Gutiérrez não foi resgatado, apesar das muitas negociações, mas ao fim de nove meses consegue fugir numa manhã, em que ouve a conversa entre dois guardas. Um vai sair de turno e tomar banho, enquanto o substituto lhe diz que tem de ir rapidamente mandar um fax, mas não demorará. O arquitecto foge, salta um muro, entra em casa vizinha, atravessa ruas, depois mete-se num táxi, diz que está muito doente e pede que o levem ao hospital mais próximo, onde conta tudo e daí o levam a casa. Irreconhecível, cabelo pelos ombros, barba até ao peito, roupas esfarrapadas…assim caminha ao encontro da mulher e dos seus sete filhos…

Por que razão vos conto isto?

 

Brevemente decorrerá na nossa cidade de Lisboa, depois de Paris e de Viena de Áustria, o ICNE, Congresso Internacional da Nova Evangelização, já anunciado por todo o lado. Nós, católicos, somos chamados a participar, a deixarmo-nos reconverter e entusiasmar, para irmos e levarmos amigos, conhecidos e desconhecidos, cristãos e não cristãos, agnósticos e ateus, para vermos, ouvirmos e falarmos do Cristo que ilumina os nossos dias. Às vezes, circunstâncias da vida até bem menos penosas do que as que aquele homem enfrentou, fazem-nos desmoralizar e abater.

Mas se aquele homem na temível situação em que se encontrava, se conseguiu reerguer e sobreviver, ao ponto de os seus raptores, impressionados, quererem saber donde lhe vinha tamanha força, dando um imenso testemunho de Fé em Cristo e de vida cristã, então é porque vale mesmo a pena ir à procura do Cristo que continua vivo entre nós!

Vá lá, venha daí, informe-se…não fique de lado…vamos todos ao Congresso do ICNE!