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Por Fátima Fonseca

15 de Setembro de 2005



   De pé, junto ao fogão, vou mexendo com uma colher de pau, lentamente, o doce de ameixa e pêssego que pus ao lume. E vou pensando: estas ameixas e estes pêssegos, tão bonitos por fora, mas que nunca amadurecem…são mesmo péssimos! Será que em doce se tornarão mais comestíveis?

 E quase sem querer, ponho-me a pensar em tantos jovens, rapazes e raparigas, também eles bonitos por fora, mas completamente imaturos por dentro, que diariamente tostavam ao sol, entre telemóveis e cremes, com um ar inútil e enfastiado, nas praias por onde passei. As suas preocupações pareciam sempre as mesmas, a partir da hora tardia em que se levantavam para fazerem praia: o culto do corpo, as roupas, as boleias, as saídas à noite, os namoros…Não, a culpa não é deles, é dos pais, é nossa…e quero falar deste tema no “ meu metro quadrado” de hoje…

Mas – assalta-me a suspeita! -será que alguém terá dado pela minha ausência? 

Longe de Lisboa, sem computador, sem silêncio, com filhos e amigos dos filhos sempre a chegarem e a partirem, casa cheia, a dispersão mais que muita, o tempo a fugir … não, não vale a pena dizer mais, já perceberam!

Aconteceu! Sofri de facto, uma espécie de verdadeiro ataque de esclerose!

Mas depois deste jejum estou de volta à escrita, um tanto enferrujada, é certo, mas com saudades.

Porém, como já calcularão, não irei comentar o que todos já comentaram, i.e. a nossa incapacidade para deter a desgraça nacional de mais um Verão de fogos devastadores em tempo de seca imemorável, os mais recentes e mortíferos atentados no Iraque, ou a catástrofe lançada a esmo pelo furacão Katrina em vários estados americanos, deixando o mundo estupefacto e incrédulo ante o caos impensável num dos países mais ricos, organizados e eficientes do mundo!

Tão pouco irei alongar-me sobre a morte injusta, inesperada e violenta do venerando Irmão Roger do Movimento de Taizé, que ainda em Dezembro passado passou por Lisboa, e foi um verdadeiro ícone do ecumenismo, da paz e fraternidade, arrastando multidões de jovens de todo o mundo.

 Não poderei sequer falar do encontro do Papa Bento XVI com milhares de jovens, nas recentes Jornadas Mundiais da Juventude em Colónia, onde se encontravam 5.000 portugueses, porque pouco pude acompanhar pela televisão e só agora estou a ler as mensagens do Papa…

Mas ouvi na rádio, há poucos dias, o comentador Carlos Magno afirmar que “ não podemos deixar desvanecer na espuma dos dias e na voragem de frivolidades dos Media” a recordação de pessoas que nos vão deixando – citando, a propósito da morte do célebre arquitecto Távora a quem todos louvavam, uma outra figura portuense desaparecida e de muitos desconhecida, a de um simples “gravateiro” português, de seu nome Pinho Vieira, se não estou em erro. Conhecido pela qualidade do seu trabalho, das suas mãos habilidosas saíram gravatas únicas para reis, presidentes da República e grandes personalidades de relevo internacional.  

E também eu senti então, que teria de vos falar hoje do Daniel.

Daniel da Luz Serra Vaz, marido de uma minha amiga, morreu de cancro recentemente. Era uma personalidade muito curiosa, invulgar mesmo, um homem muito culto, excelente contador de histórias, sociável e brincalhão, com um não sei quê de eterno menino, cuja simpatia e paixão pelos chapéus o tornaram conhecido como incansável coleccionador por esse mundo fora por onde tanto viajou, o que provavelmente o incluirá no Guinness.

 Ainda me lembro da primeira vez que o conheci: há muitos anos atrás, a entrar num conhecido colégio do Restelo, onde a sua mulher dava aulas, em dia de festa de Natal, transportando uma ovelha verdadeira, que fora buscar de propósito ao Alentejo, para dar um cunho mais realista e original à festa que alunas e professoras preparavam para os pais, dirigidas pela inesquecível professora de francês! O bom do Daniel não só trazia a ovelha ao colo, como tinha ainda o carro cheio de recheio da sua própria casa, mais um ramo imenso de folhas de palmeira que durante a noite andara a apanhar pelas ruas, com a sua mulher, escolhendo-as entre as folhas que os jardineiros da zona deitavam fora… Só mesmo o Daniel!

 A última vez que com ele estive foi exactamente há cerca de três anos, no Estoril, numa sua exposição, de que guardo deliciosas recordações, entre elas umas fotos que me tirou, ao fim de muita insistência sua, mascarada com uns estranhos chapéus na cabeça, provenientes das mais distantes paragens.

 A sua colecção acaba de ser entregue, como ele tanto desejava, ao Museu de S. João da Madeira e vale certamente a pena ir até lá, conhecê-la!

 Ao vê-lo, no dia da sua morte, deitado na urna, com um lindíssimo chapéu pousado a seus pés, todo forrado de pequeninas flores brancas e roxas, pensei que de facto aquela era a homenagem certa. Admirando-o e dedicando-lhe grande amizade, uma sua cunhada, escultora, teve a original ideia de primorosamente enfeitar e lhe oferecer aquele chapéu cheio de flores, como forma de o cumprimentar e “lhe tirar o chapéu” em sinal de respeito, pela última vez.

Carlos Magno tem razão!

 Há de facto pessoas simples, como o Daniel, que passam despercebidas, quase iguais a nós na sua normalidade de vida, mas que conhecidas mais de perto, não podemos esquecer, porque deixam um rasto diferente, seja de beleza, criatividade, saber, ou bondade. Essas pessoas fazem a diferença num mundo como o nosso em que muitas vezes, acabamos por vegetar, nós adultos, já quase indiferentes às notícias das desgraças, ou mergulhados em jogos políticos de escárnio e maldizer, enquanto ao nosso lado muitos jovens frequentemente crescem só por fora, incapazes de enfrentar o desafio real das dificuldades, do esforço e do trabalho, moles e acomodados entre os mimos e caprichos que erradamente os treinámos a exigir!

Por isso, e para terminar, também é sempre de louvar quando se encontram pais lúcidos e corajosos, como uns que conheço, e que este Verão, ao ouvirem os planos de um filho jovem de levar uns quantos amigos para sua casa de praia, como de costume, para fazerem a conhecida vida de noitadas e copos, lhe disseram pura e simplesmente: Não!

Este ano, de facto, diziam eles, não só não estavam para se levantar de manhã a horas normais, para irem fazer desporto e praia, e terem de andar a passar por cima dos vários amigos do filho, deitados nos sofás e no chão da sala, a tresandarem a cerveja, como não o levariam para o Algarve e o iriam pôr a trabalhar como porteiro de uma instituição durante um mês!

Ao filho custou e aos pais também, mas agora o filho é o primeiro a agradecer e a reconhecer que até foi uma experiência bem positiva!!! Abençoados pais!