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Por Fátima Fonseca

17 de Julho de 2005



   Nos primeiros dias de Julho, ouço na rádio, TSF, ao fim da tarde, em dias diferentes, notícias da seca e incêndios que atormentam Portugal e programas que me provam, o que estou sempre a dizer aos meus filhos: “...é que a vida não é uma gargalhada permanente!”

 “…morre uma criança em África, cada três segundos…”

 “We’ve never been wealthier, we’ve never been healthier, we know what to do, we know what it costs, so Do IT!” (música de Bob Geldof )

 Catarina Serra Lopes, 28 anos, Universidade Nova. Dois meses em Moçambique serviram-lhe de estímulo e certeza de que era possível fazer qualquer coisa pelas crianças que ali morrem de fome ou vivem em extrema pobreza. Por isso criou o projecto “ Padrinhos de Portugal”, que apesar de muitas dificuldades, vai singrando. Missionárias, missionários e leigos, vão administrando como podem  os 25 euros / mês que os padrinhos das crianças enviam de Portugal.

Uma jovem, Mécia Gertrudes, diz :”O qui gosto mais é di receber cartas dos meus padrinho qui  mi tratam como filha!”

Ouve-se um garotinho cantarolando “eu sou minino lindo di  Moçambique, quero aprender, estudar as lições…”

Uma voz africana, a cozinheira da missão, explica: “tem vezes os minino não  consegui estudar porque tem  muita fomi…”

 Sentada no carro, com o ar condicionado a refrescar-me, não consigo deixar de me sentir envergonhada, eu que ali vou, recostada e confortável, a caminho de mais uma recepção numa Embaixada. Olho para a minha roupa e envergonho-me das vezes que me sinto tentada a comprar outra, só por achar que já todos a viram vezes de mais…Lá fora, pela janela, passam céleres e alheias àquela realidade que a rádio me traz, muitas mulheres de todas as idades, todas diferentes mas demasiado parecidas, como escravas submissas e acríticas em busca de pretensa felicidade, exibindo a moda provocante do curto, ou comprido, mas sempre descaído, justo, reduzido e transparente…

Penso nas minhas filhas. O programa de rádio continua. Sinto-me triste e envergonhada.

 Alguns dias mais tarde, vivia uma experiência única que não esquecerei!

Às primeiras notícias, ainda vagas e imprecisas, do terrível atentado terrorista em Londres, entrava eu numa corveta da Marinha Portuguesa no Tejo, juntamente com outros convidados, para tomarmos parte numa insólita cerimónia: o lançamento ao mar das cinzas de um famoso poeta mexicano, Francisco Cervantes Vidal ( 1938-2005), falecido no México em Janeiro último, grande amigo de Portugal, apaixonado em especial, por Lisboa e pela poesia de Fernando Pessoa, e principal divulgador da língua e cultura portuguesas na América do Sul.  A sua última vontade foi que as suas cinzas fossem lançadas na foz do Tejo, e por isso três dos seus familiares mais próximos se deslocaram expressamente a Portugal para tal, com apoio da Embaixada do México.

Ouviu-se uma breve oração, seguiram-se igualmente algumas curtas palavras de poetas, de gente das nossas letras, de amigos portugueses e do irmão mais velho, e finalmente, parados no Tejo, sob um sol escaldante apesar da brisa amena, ouvindo-se apenas o suave bater da ondulação no casco – estranhamente ignorantes da tragédia que se abatia sobre Londres – ali estávamos nós numa simples e estranha cerimónia de luto, despedida e paz.

Depois, já de regresso, um pouco afastadas do resto do grupo que conversava entre si, encostadas nós ambas à amurada, quebrando o silêncio que curiosamente nos unia, de repente, a poetisa Isabel Barcelos, professora e escritora portuguesa apaixonada pela poesia sul-americana, desviou o olhar do belo casario branco da nossa cidade, e disse-me com um sorriso inspirado e doce: - “Sabe? Há uma harmonia tão grande e profunda no Cosmos, como que um mistério que sempre nos está a ser revelado, só que não damos conta …não vemos, não ouvimos, …sempre tão distraídos…”

“É por isso que fazem falta os poetas!...” – alguém disse, mas sinceramente, já não sei se foi ela, ou se fui eu, ou se ambas o pensámos e o vento o disse...

Lembrei-me então, das palavras que ela escrevera expressamente para esta ocasião no folheto que nos foi distribuído à entrada: “ (…) a poesia é a sombra plasmada do poeta, a sombra que se torna matéria - é a sua carne viva. (…) A poesia fixa um ponto no caos. Um ponto em que nos ancoramos, sempre num equilíbrio precário, sempre a perder o pé, porque o poeta não pode defender-se de nada; é um órfão na terra, um quase apátrida. Mas a língua é a pátria do poeta e Francisco Cervantes teve duas pátrias: a língua castelhana e a língua portuguesa (…).”

Ali ficámos a falar de como a Isabel o conhecera em Portugal, em 1999, quando o poeta aqui viera proferir uma última conferência e receber a Ordem do Infante D. Henrique, pelo seu trabalho na promoção e difusão da nossa língua e cultura. Falámos ainda de Lisboa e de outras paisagens: da sua ilha da Madeira, dos meus amores pelos Açores! – (das Furnas e da Lagoa do Fogo, onde a Mão de Deus se me revela mais e mais, na paisagem, nas rochas, no silêncio, nas aves, na vegetação luxuriante, de cada vez que tenho a dita de ir a S. Miguel!!!) …até que atracámos, saltámos para o cais e tomámos enfim conhecimento da verdadeira dimensão dos vários ataques terroristas que espalharam morte, sangue e dor na cidade de Londres! Estranha sensação a de ter estado numa pacífica e inédita cerimónia de despedida aos restos de alguém que morreu de morte natural e anunciada, enquanto exactamente ao mesmo tempo, uma outra morte se abatia inesperada e violentamente sobre milhares de inocentes!

 Passaram já vários dias e todos têm muito justamente comentado a exemplar contenção com que o Governo e os Media ingleses têm tratado toda esta tragédia. Contudo, por muito que nos abalem as notícias, todos sabemos que são as vítimas directas quem realmente fica irremediavelmente marcado para sempre, dificilmente podendo os sobreviventes e seus familiares voltar algum dia, à sua vida normal! Há no entanto, um clima de respeito e solidariedade que, no mínimo, nos deve impedir de ficarmos indiferentes ao que ali se passou e nos deve manter atentos às notícias que nos vão chegando.

Por isso, foi com profundo desagrado e pena que vi hoje, numa revista associada a um conhecido jornal Semanário, textos e imagens pretensamente humorísticos a propósito deste atentado, que infelizmente, como todos sabemos, a qualquer momento se repetirá por certo, só que não sabemos onde, nem quando…Como é possível fazer humor e desrespeitar a dor real, palpável e próxima de tanta gente inocente? Como é que, em nome da liberdade de expressão e da criatividade, alguém se pode permitir brincar com a tragédia alheia???