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Por Fátima Fonseca

30 de Junho de 2005



   Encontrei-a por acaso, ao entrar numa tabacaria. Vi uma pessoa, de bata azul, a varrer o chão, de costas para mim, pedi-lhe com licença, mas só depois a reconheci pelo seu sorriso gaiato, inconfundível. Passaram muitos anos, quase a perdi de vista, tem agora a cabeça toda branca, mais pelos problemas do que pela idade.

Ali ficámos, sem que eu tivesse coragem de lhe falar da minha pressa.

 Baixinha, desembaraçada, sempre trabalhou a dias na minha zona, levantando-se às cinco da manhã para tratar da família e da casa,  apanhar o comboio da linha de Sintra, e conseguir estar sempre  no seu posto, aqui em Lisboa, pontualmente, às oito da manhã. Recordo o entusiasmo com que me falava das suas férias saudáveis, junto à praia, num parque de campismo, há vinte e tal anos atrás! Dos três filhos que teve, e que tão bem conheci, o do meio, o mais bonito, -  aquela criança loura,  de olhos inocentes, muito azuis e cabelos  encaracolados - a quem vaticinavam um grande futuro no futebol, cedo começou a não ligar aos estudos e a preferir  companhias duvidosas, que pelos seus catorze, quinze anos, o iniciaram na droga. Para os pais foi um choque terrível, a descoberta!

 Hoje, aos 34 anos, já não consegue andar, tal o inchaço dos pés e pernas, num corpo indescritivelmente magro e fraco. Alterna curtas estadias em casa, com longos e dolorosos  internamentos no hospital, depende da mãe para tudo, tudo!, e dos amigos da droga, já nenhum  lhe resta com vida! O pai, reformado por doença cardíaca, acaba também de sair do hospital neste momento, e permanece, como que apático, todo o dia em casa, numa cadeira, a ver televisão, à espera que a mulher volte do trabalho para tratar de tudo e de todos; ambos se dizem preparados, e avisados pelos médicos, esperam que o filho morra a qualquer momento…

São inenarráveis os sofrimentos que esta família tem passado e a vergonha, entre muitas outras humilhações, do despedimento da mãe, por o filho tantas vezes ter entrado no seu local de emprego para roubar os colegas e patrões da mãe…

Por fim, separámo-nos.

 A caminho de casa, com o coração muito pequeno ante tamanha angústia e dor, e admirada ainda, pela serenidade e coragem daquela mãe, veio-me à memória uma entrevista recente, na rádio, em que um conhecido jornalista evocando as palavras de um não menos famoso psiquiatra, punha a questão de como  lutar contra este flagelo da droga na nossa sociedade actual…e repetia a resposta dada há tempos atrás, pelo psiquiatra, considerando-a como uma  “genial metáfora”:  “ …para vencer a droga, olhe, só há uma coisa a fazer, declarar guerra, por ex., a Espanha!”

 Na verdade, a sua metáfora significava, não que seja necessário fazer guerra ao vizinho, mas  que  o que falta é entusiasmar a gente nova por grandes projectos, ocupá-los a todos, dar-lhes tarefas, responsabilizá-los, motivá-los…sacudi-los de rotinas, vícios e desocupações! Arrancá-los da cama, da televisão e dos sofás, e ajudá-los a descobrirem o sentido da sua vida!

Por isso, num país que está a ficar tão triste e deprimido como o nosso, em que a sombra do défice das Finanças Públicas paira, cada vez mais ameaçadora, onde “todos ralham” e os políticos se acusam de dedo em riste, onde as estatísticas da nossa vergonha nos conferem, quase sempre, desde há algum tempo para cá, o primeiro lugar entre os piores resultados escolares, gravidezes precoces, casos de sida, obesidade infantil, etc., é bom saber que há escolas de risco e bairros “difíceis”, onde os meninos de diferentes raças e idades, já de férias, foram convidados pela junta de freguesia local a pintar os muros feios do cemitério vizinho, a troco de algum dinheirito de bolso e de um almoço, acompanhados por um jovem professor de Religião, licenciado em Comunicação Empresarial, a meio do seu Mestrado,  mas simplesmente voluntário nas pinturas e desejoso de educar para a Cidadania, em que tanto acredita…(e eu também) !De bolhas e tinta nos dedos, poucos sabem que ele é o grande promotor de uma Associação “Mais Cidadania”, responsável por ATL’s de crianças carenciadas, animador cultural do Bairro de Sta Catarina, permanente sonhador e impulsionador de projectos e pessoas …

Talvez outros lhes sigam o exemplo! E já agora, gostaria de vos contar alguns outros casos de gente nova de que tão pouco se fala, mas que bem merecem ser divulgados, porque são a nossa esperança e certeza de que é possível vencer dificuldades na vida, trabalhar com denodo e levantar cabeça !

 Ainda há pouco tempo, tive ocasião de ouvir, na Figueira da Foz - no âmbito das comemorações do Dia da Marinha - a primeira audição integral de uma obra belíssima –“Sinfonia nº2 “Mare  Nostrum”, opus 124 - de um jovem e promissor compositor e músico português, Jorge Salgueiro,  membro da excelente banda da Armada. Estou certa de que o seu trabalho fantástico e o seu mérito serão reconhecidos além fronteiras !

 E como não referir aquele outro jovem, natural da zona de Esposende, autodidacta, escultor, que começou como simples aprendiz de calceteiro, e tem já várias obras de grande valor no Norte, tendo agora terminado uma magnífica “ Nossa Senhora do Mar” para a Capela da Base Naval do Alfeite ? O seu sonho é chegar a esculpir na pedra da montanha a história da sua terra e das gentes de Esposende…

E o  trabalho de um não menos jovem “designer gráfico”, que participou no projecto missionário da Equipa de África”, em Moçambique, de 1999 a 2003, e agora expõe pela primeira vez, em Colares, um trabalho inovador de técnica mista sobre fotografia, intitulado “Tambores graves dentro de nós”, que  merece ser visitado, compreendido e apreciado ? ( Trago gravados em mim os enormes olhos tristes e negros dos dois meninos de rua moçambicanos “Ismael Gamito”!)

 

Arte, Ciência, Música, Literatura, Solidariedade, Desporto, Trabalho… quanto campo para desbravar, quanto para aprender e descobrir, tanto por fazer…não deixemos que os nossos jovens desperdicem  talentos, saúde e  vida! Para muitos, as férias já aí estão!