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Por Fátima Fonseca

31 de Maio de 2005



   Conheço, há vários anos, um homem bom, honesto, discreto, inteligente e corajoso, casado, pai de família e professor universitário, que resolveu pegar em livros de “Educação Sexual”, analisar manuais e linhas orientadoras, gastar o seu tempo ( livre) para fazer um trabalho profundo, honesto e isento, e assim poder falar. E vai daí, começou ele a dizer e a provar, desassombradamente, que “o rei vai nu” a propósito da Instrução Sexual, dita “Educação”, que anda por aí a ser feita em muita escola sob a determinação do Ministério da Educação, ao sabor do gosto e apetência pelo tema por parte de alguns professores, previamente “preparados”(?) ao que parece, por uma associação famosa e poderosa. E tudo isto, independentemente de os pais concordarem ou não, conhecerem ou não, o que está a ser dito e feito com os seus filhos, e aceitarem ou não, serem substituídos em matéria tão nitidamente da sua esfera de responsabilidades…

Por isso lhe estou francamente agradecida, como mãe e avó, e como cidadã do meu país! E ao mesmo tempo, me sinto envergonhada!

Em primeiro lugar, estou-lhe agradecida pelo excelente trabalho que tem feito e que permitiu a louvável e corajosa reportagem de duas jornalistas do Expresso (a quem também quero aqui dar os Parabéns!), e por se atrever a dar a cara em defesa das crianças e jovens do nosso país, e de todos os pais até agora calados, porventura mais distraídos e ausentes.

Em segundo lugar, sinto-me envergonhada, sobretudo por ter tido a ingenuidade (?) e tolice de pensar que as aulas desta pseudo “Educação” Sexual - ( mesmo defendendo eu própria que devem ser os pais a faze-la e não outros) - não seriam assim tão más quanto alguns já me diziam e alguns relatos pressagiavam!!!...

 E tenho de chegar à triste e lamentável conclusão, de que afinal elas são mesmo muito piores do que eu alguma vez julguei, quando há alguns anos atrás, analisei entre outros materiais, os posters de excelente qualidade já preparados para serem usados nas escolas de primeiro ciclo e fiz alguns comentários críticos, mas benevolentes apesar de tudo, em nome da APFN- Famílias Numerosas, numa entrevista com responsáveis pelos materiais e pela luta contra a Sida ! E recordo ainda alguns desses meus comentários e reservas: …mas e os pais podem escolher se os seus filhos vão ter obrigatoriamente “Educação” Sexual na escola, ou se querem continuar a ser eles a educar nesta matéria tão sensível, em suas casas, num ambiente natural e afectivo, no tempo que entendem mais propício e de acordo com a maturidade de cada filho/ filha? E vão ter conhecimento prévio dos conteúdos destas aulas? E que critérios há na selecção dos professores “ preparados” para dar estas matérias? E os pais conhecem os professores que as vão dar?...

Por isso, porque considero que tudo o que agora sabemos, graças a este meritório trabalho do Prof. Dr João Araújo e graças à sua divulgação pelo Expresso, é altamente preocupante e ultrapassa todos os limites do razoável e aceitável, assinei a petição em boa hora lançada por um grupo de pais contra este actual modelo de  Des-“Educação” Sexual e peço a todos que a assinem e divulguem !

E aproveito para lançar daqui uma sugestão:

por que não, a própria UCP, Universidade Católica, através do seu Instituto das Ciências da Família, lançar um curso de formação de formadores na área da  Educação dos Afectos, integrando, como deve ser , a Educação Sexual, no seu contexto afectivo, psicológico, social e ético, e numa base de Valores claramente manifesta, que permita aos pais saber de antemão que a Educação dada aos seus filhos é fiável, e poder, ou não, optar por ela?

Como há muito não escrevia esta pequena crónica do “meu m2”, hoje peço-vos licença para me alongar um pouco…Desculpem se vos demoro!

 

Fui recentemente a uma prisão e vim de lá muito impressionada. Talvez também por causa do Cenofa que, como vos disse, em breve terá oportunidade de trabalhar com ex-reclusos e suas famílias, o que me tem despertado muito mais para a sua problemática e condições de vida. A verdade é que até agora nunca tinha entrado numa prisão e as imagens que guardava eram apenas as dos filmes.

O Forte da Graça, na colina de Nossa Senhora da Graça, à saída de Elvas, porém, também não é uma prisão qualquer, mas sim, um presídio militar, desactivado desde 1989.

Construído ao longo de 30 anos, a partir de 1763,sob a direcção do Conde Schaumbourg  Lippe, marechal-general do exército português, por ordem de D. José I, depois das guerras da Restauração da nossa Independência, este forte, cujo passado histórico remonta ao tempo de D. Sancho II e sua conquista de Elvas aos muçulmanos ( 1226) , foi  diabolicamente “armadilhado” , para melhor combater o “invasor” vizinho e defender o território nacional. Depois, foi progressivamente perdendo funções, até que definitivamente, se esvaziou de gente e de recheio, entre 1985 e 1989. Aguardando por verbas disponíveis e melhores dias, eventualmente como museu, este grandioso monumento de arquitectura Militar está entretanto abandonado ao sol, vento e intempéries, com evidentes sinais de degradação.

O que mais me impressionou porém, foi pensar que em pleno século XX, a cerca de vinte anos do início do 3º milénio, era ainda ali que cumpriam pena de prisão muitos militares, apenas com direito a uma hora de luz, calor e recreio, por dia, os mais insurrectos na “solitária”, sem luz alguma e num espaço gélido, ou pior ainda, na “ultra-solitária”, num cubículo exíguo e indescritível… Por associação de ideias, vieram-me à memória as famosas prisões de Guantánamo, em Cuba, e Abu Ghraib, no Iraque , bem como muitas outras tristes histórias, mais e menos recentes, sobre “técnicas avançadas de interrogatório” usadas em tantas outras  paragens, nem sempre tão distantes geograficamente,  num tempo que é o nosso, e num mundo que gostamos de julgar mais “civilizado” depois de várias décadas sobre a  proclamação da Declaração Universal dos Direitos do Homem…

Curiosamente, e em flagrante contraste, a provar certamente que não há regra sem excepção, um dos Oficiais Generais que nos acompanhava na visita, contou-nos a recente saída de um homem de uma outra prisão militar, com condições e instalações muito mais humanizadas, e que ao fim de oito anos de cumprimento de pena, não queria sair da prisão e até chorou, por não ter para onde ir, não ter família e se sentir ali mais amparado e estimado por todos os colegas e pelos oficiais que nele confiavam.

 

Era já tarde, depois de mais uma última e magnífica visita organizada pelos nossos amáveis anfitriões a Monsaraz, integrada naquele encontro anual de Oficiais de um Curso Superior de Comando e Direcção e suas famílias, regressávamos a Lisboa.

Cansados e pensativos, meu marido e eu vínhamos em silêncio. Por momentos fechei os olhos, recapitulei o dia e pensei nas muitas outras formas de prisão que construímos nas nossas vidas, quantas vezes sem darmos conta, e que nos escravizam sob uma ilusão perfeita de liberdade, felicidade e busca de  sentido de vida!

 Lá fora entardecia, entre sombras, nuvens, sobreiros dispersos, terra vermelha escura  e um céu belíssimo, alaranjado. Fechei de novo os olhos já consolados e vi aquilo que tantas vezes nos prende a nós que nos julgamos livres de cadeias: os jogos de poder, sedução e ambição, honrarias, mordomias, feiras de vaidades, vícios de jogo, sexo e droga, compras sem fim  por consumo-dependência, uma obsessão irracional pela moda, a aparência, o corpo e o conforto…e  de repente dei comigo a recordar as palavras já distantes de Aldous Huxley (  “Sobre a Democracia e outros estudos”) : “(…) Uma pessoa nunca pode receber alguma coisa a troco de nada, e a obtenção do conforto foi acompanhada por uma perda compensadora de outras coisas, igualmente ou talvez, ainda mais valiosas.(… ). O conforto para mim tem uma justificação (…): facilita a vida mental. O desconforto estorva o pensamento.O conforto é um meio para conseguir um fim. O desconforto estorva o pensamento; é difícil, quando o corpo está frio e a doer, utilizar a mente. O mundo moderno parece considerá-lo como um fim em si próprio, um bem absoluto. Um dia, talvez, o mundo terá sido convertido numa vasta cama de penas, com o corpo do Homem dormitando em cima dela e a sua mente por baixo, sufocada, como Desdémona.”