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Por Fátima Fonseca

5 de Maio de 2005



   Estava mesmo a precisar! Retirei-me por isso, por uns dias, para o coração do Alentejo, lá onde o tempo passa mais devagar, onde os carros só se ouvem vagamente, no intervalo do canto dos melros, das rolas e cucos, lá onde  entre espigas e papoilas coloridas passeiam vagarosos bichos-de-conta  e se afadigam formigas enormes. No dia do regresso, virando as costas às velhas muralhas do castelo e ao moinho  no alto do monte, demorei-me ainda um pouco, com algumas amigas, junto de uma pequena ermida, de visita a uma lindíssima imagem, cópia da Virgem de Quito.

Bernardo Legarda, escultor equatoriano do século XVIII, inspirado no Apocalipse,  esculpiu uma imagem invulgar : uma Virgem com enorme diadema e brincos compridos, vestindo um manto de cores vistosas, as mãos de lado quase em jeito de dança,  segurando uma corrente presa à cabeça de um dragão, símbolo da vitória  da Virgem sobre o Mal.

Voltei contente e recuperada à família e ao frenesim da cidade, mesmo a tempo de aceitar o amável convite da APCD-  Associação Portuguesa para a Cultura e Desenvolvimento - para ir ouvir a jornalista Fátima Campos Ferreira falar sobre as suas impressões pessoais e o trabalho realizado nos bastidores durante as reportagens sobre a morte do Papa João Paulo II e a eleição do novo Papa Bento XVI.

Durante duas horas e meia, ininterruptamente, com o seu conhecido poder de comunicação, muita graça, inteligência e um invulgar talento narrativo, a jornalista falou-nos dos momentos que mais a tocaram, “pintou” verdadeiros quadros do que viu em Roma e a nós não chegou, comentou as reacções das multidões que choraram a perda de João Paulo II e se alegraram com a eleição de Bento XVI, e descreveu as imensas dificuldades que a  equipa da RTP só conseguiu ultrapassar graças ao apoio do Cardeal Saraiva Martins e sobretudo, da genial Irmã Terezinha, uma portuguesa das Pedras Salgadas ! Basta dizer que só às dez da noite conseguimos arredar pé da sala cheia, onde seguíamos atentamente as suas explicações e o relato do que é a vida alucinante duma jornalista triturada pela máquina insaciável da produção de notícias!

E Fátima Campos Ferreira, de facto, não deixou de estranhar ter ali uma plateia tão interessada em notícias já “passadas”, “nós que vivemos sem tempo para reflectir,  numa sociedade egoísta e desumana” que só vive de efemeridade e velocidade, ávida de emoções  presentes e  futuras, correndo cada vez mais rápido e inexoravelmente para o fim natural – a Morte -  de que nem  queremos ouvir falar.…

 

Agora porém, que estou de volta ao ritmo habitual, deixem-me que vos abra o coração e vos fale, também eu, dessa estranha sensação de correr demasiado, sem chegar a ter tempo de viver a solidariedade indispensável para com  aqueles que vivem um dos piores males do nosso tempo -a solidão.

Conheci a Frau Malve G., uma tradutora alemã, de setenta e quatro anos, por acaso. Um sobrinho meu, jovem e casado, a viver em Espanha, de passagem por Lisboa, viu-a cair no chão, num supermercado aqui próximo, no Verão passado. Ajudou-a a levantar-se, meteu-a no carro e acompanhou-a a casa. Pelo telefone, pediu-me que me interessasse pelo caso, suspeitando de graves carências e muito isolamento.

Não vou dizer-vos que fiz o que pude, porque mentiria.

 Visitei-a sim, mais que uma vez- sempre a correr!- mas sei que não lhe resolvi nenhum dos seus vários problemas…Recentemente soube, que depois de ter estado num domingo, horas e horas estendida no chão da sua casa, finalmente os porteiros – um casal disponível e bondoso - no regresso dum fim-de-semana na aldeia, acudiram-lhe , chamaram uma ambulância e levaram-na para as urgências dum hospital. Depois seguiram-se uma série de peripécias: do hospital para um lar, do lar de novo para o hospital e do hospital para o lar. Os médicos diziam que “ela desistira de viver... talvez se tivesse mais visitas, mais apoio, mais carinho…”

Quando a fui visitar ao hospital, na camarata cheia de doentes e  visitas, a sua cama era a única que não tinha ninguém à volta. Frau Malve G. parecia dormir. Branca de cal, o cabelo ainda ruivo apanhado com um elástico, entubada, não deixava dúvidas quanto à gravidade do seu estado, em parte causado por graves carências de alimentação… Abriu os olhos, sorriu docemente para mim, quis dar-me a mão  e…foi a última vez que a vi e com ela troquei algumas palavras. Saí dali decidida a tentar por tudo interná-la  num  bom lar alemão de que ouvira falar. Entretanto, já só a excelente Associação “Coração Amarelo” e uma jovem alemã da Igreja Evangélica - em estágio de Serviço Social, creio!-  a visitavam. Sem família, sem raízes, sem saúde,  Frau Malve G. vivera estes últimos anos, conversando apenas com os seus muitos passarinhos que saiam da gaiola sem porta e esvoaçavam livremente por toda a sua casa.

Telefonaram-me, uma ou duas semanas mais tarde, a informar da sua morte.

 

…Não pude deixar de recordar de imediato, a história escrita por Irene Lisboa e maravilhosamente lida em voz alta, num tom fascinante, por uma  professora que há alguns anos tive o privilégio de conhecer e ouvir numa formação para professores : Violante Florêncio.

Era a história de uma menina , aluna da Primária, que andava sempre de laço encarnado no cabelo e que gostava imenso da sua professora,  uma jovem  no seu primeiro ano de trabalho, que vivia ansiosa e preocupadíssima com as suas obrigações profissionais. Certo dia, a menina adoece, é internada num hospital e manda recado à sua professora, pedindo que a vá visitar. Todos os domingos a professora pensa ir visitá-la, tem muito boas intenções, mas o tempo vai passando e por um motivo de trabalho, ou outro, vai sempre adiando. A menina, a princípio, ainda põe o laço vermelho no cabelo, todos os domingos, para receber a visita da professora. Pouco a pouco, porém, a tuberculose vai minando a sua frágil saúde e quando finalmente, a professora se decide a ir visitá-la, a menina já está morta…

Nunca mais voltei a ouvir esta história, nem a reli, e posso eventualmente não ter sido totalmente fiel neste “reconto”, mas confesso-vos que ela me vem à cabeça muitas e muitas vezes, sobretudo de cada vez que dou conta - com um frio na alma! - de não chegar a tempo de dar uma mão a quem comigo se cruzou  na vida e esperou por mim…