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Por Fátima Fonseca

18 de Abril de 2005



   Quase todos os olhares parecem neste momento voltar-se para Roma, esperando a grande decisão, que como é natural e compreensível, interessa a todo o mundo em geral, mas aos católicos, em particular.

Enquanto esperamos porém, não consigo perder tempo com palpites políticos e estratégicos sobre o perfil do novo Papa. Estou certa de que esta não será uma eleição eminentemente norteada por critérios humanos, pelo que será eleito aquele que por intervenção de Deus  estiver em melhores condições para bem governar a Igreja.

Em contrapartida, aqui em Portugal, outros olhares parecem afastar-se do que se passa em Roma, procurando talvez aproveitar exactamente esta onda de emoção que  nos tem galvanizado, para a coberto dela, rápida e habilmente legislarem sobre matéria altamente fracturante e avançarem com decisões extremamente graves, nomeadamente no campo da defesa da vida.

Efectivamente, pretender alargar a “legitimidade” de fazer um aborto, das primeiras dez semanas para dezasseis semanas, poder alegar quaisquer razões desde problemas psíquicos a falta de meios, como razões suficientes para fazer um aborto a pedido, ou simplesmente acelerar mais um referendo sem tempo de preparação, nem debate suficiente, é algo que nos tem de acordar, incomodar e levar a agir. Porque é esta matéria que estará à discussão no Parlamento, esta 4ª feira! E se, de facto a preocupação fosse como tantas vezes se alega  poupar  a vergonha a que algumas mulheres podem estar sujeitas certamente que as propostas da Dra. Rosário Carneiro e da sua colega de bancada, não teriam sido tão liminarmente recusadas!

Neste momento porém, importa que não se pense simplesmente, “ … eles não  obrigam ninguém a fazer aborto…”, nem tão pouco se encolha os ombros, como se estivéssemos perante um facto consumado, ou perante algo que não nos interessasse.

É que a defesa da vida não pode ser considerada, como muitos pretendem, coisa de somenos importância, ou uma derradeira batalha da direita mais conservadora, da ala católica “fundamentalista”, de uma mentalidade “medieval”, cruel e indiferente à sorte das pobres mulheres …

Bem sabemos que há defensores da vida, mais e menos conhecidos, em todos os quadrantes da vida política, ainda que alguns estejam excessivamente silenciosos, talvez porque não seja politicamente correcto neste momento, afirmar, sem medo, que se defende a vida, sempre, e não só quando ela é programada, desejada, saudável e de qualidade.

Pretender reforçar uma legislação já existente contra a vida de seres indefesos, em nome dos “superiores”direitos das mulheres e do exemplo “civilizado”do mundo ocidental em que vivemos, será seguramente mais rápido, mais fácil e aparentemente mais barato (?) do que investir na luta contra a pobreza, na educação de crianças e jovens, bem como na formação profissional e parental de adultos, mas digam o que disserem, será sempre e cada vez mais, uma incongruência num qualquer Estado que se diz de Bem! Sobretudo, num Estado que pretende proporcionar melhores condições de vida a “todos” e que se diz empenhado na solidariedade para com os mais necessitados, e preocupado com a segurança, saúde e bem-estar de “todos” os cidadãos.

Talvez, de facto na opinião de alguns se pense que sendo  o “bolo” tão  pequeno, e não sendo capazes de o fazer aumentar, a melhor forma  de o dividir seja desde já excluir os que ainda não nasceram, para  muito em breve se fazer o mesmo aos já nascidos,  que não correspondam ao modelo a fixar por lei…!!!

E tudo em nome “da pena que dá não ter melhores condições, nem qualidade de vida para lhes oferecer”…

 

E ao mesmo tempo paradoxo dos paradoxos ! quem assim pensa, afirma-se frequentemente, muito preocupado com os direitos humanos, a destruição da natureza, a crueldade com os animais, os mortos em acidentes de viação e em guerras, etc.

Quero dizer-vos no entanto, que reconheço, sem sombra de dúvida, que em certos defensores do aborto há certamente uma genuína pena – até porque a conheci bem de perto! - pela situação dramática em que muitas mulheres recorrem ao aborto.

Não se pode porém, querer resolver um problema humano, social, cultural e moral, através do que não é solução humana, nem civilizada, isto é, através da eliminação daquele ser humano, que não é agressor, mas vítima inocente, sem qualquer possibilidade de se defender, de sobreviver, ou de revelar o seu sofrimento.

Esta aliás, foi uma lição que devo e agradeço a um juiz agnóstico, meu colega, num distante curso de Verão, em finais dos anos 70, no American  Language Institute.

Como ele me dizia, a mim, então grávida do meu terceiro filho, a propósito de uma primeira lista a favor do aborto que então corria  :

“A vida não se discute, é um Bem Maior e como tal, defende-se, respeita-se, protege-se. Não sou, nem preciso de ser católico para o afirmar com convicção, só me admira que alguns católicos tenham dúvidas!”

 

São já muitas as instituições e associações que trabalham, apoiando exactamente, mães solteiras, crianças não desejadas ou crianças cujas famílias não as podem educar. Mas sabemos que é preciso e possível, fazer mais , e urge como ainda hoje ouvi defender na rádio a criação de uma entidade reguladora dos processos de adopção, que poderiam estar a funcionar melhor.

Entretanto, não fiquemos de braços cruzados! Defendamos o direito à vida nos meios onde nos movemos: nas conversas de café, nos transportes, nos locais de trabalho, nas escolas…juntemo-nos e façamo-nos ouvir pelos políticos e pelos meios de comunicação social!

Por outro lado, há um imenso espaço de acção para todos os que querem intervir neste campo e não sabem como:

Por ex., fazem falta sócios que ajudem pelo menos com a sua quota ;

Fazem falta bens de primeira necessidade, roupas de criança e mobiliário, de que talvez não precisemos;

Fazem falta pessoas de boa vontade com algum tempo para dedicar nas próprias associações, apoiando as crianças, ou ajudando as mães mais  inexperientes no cuidado aos seus bebés;

Fazem falta pessoas que queiram dar emprego a mães solteiras;

 Fazem falta pessoas como o leitor, ou a leitora que me lê, por exemplo, e que há muito deseja ser útil na defesa da vida e não sabe como! Vou-lhe dizer os nomes de algumas Associações que provavelmente estão à sua espera:

Ajuda de Berço, Ajuda de Mãe, Mulheres em Acção, Associação Portuguesa Maternidade e Vida, Juntos pela Vida, Federação Portuguesa pela Vida, Emergência Social, entre outras.