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Por Fátima Fonseca

3 de Abril de 2005



   O Papa João Paulo II partiu, ontem, dia 2 de Abril, sábado, pelas 20.37 ( hora de Lisboa), para a Casa do Pai, depois de uma longa e lenta agonia.

Reina um silêncio à minha volta.

“ (…) então  foi Jesus com eles  a um lugar chamado Getsemani e disse-lhes: Sentai-vos aqui, enquanto eu vou ali orar. (…  )Depois  foi ter com os discípulos, encontrou-os dormindo(…) não pudeste vigiar uma hora comigo?(…)” (Evº Mat.26,36-41)

Também eu não consegui vigiar em espírito, nem acompanhar as últimas estações da sua Via Sacra  pessoal, as últimas horas de vida do Papa… É verdade! Desliguei a televisão. Meti-me no carro, fui apanhar chuva, ver o mar, as hortenses em botão, as sardinheiras agora molhadas; distrai-me com duas tulipas cor de fogo-alaranjado, e com uma osga no tecto. Abri de novo a  televisão , lembrei-me dele, mas fui estudar um assunto que me interessava, folhear um livro, fazer o gosto a um capricho; voltei à rua, comi, sorri, conversei, desbaratei meu tempo, zanguei-me por um nada, recuperei a paciência, lembrei-me de novo da sua agonia. Liguei o rádio, continua a piorar, dizem; rezo depressa e mal, tenho o coração apertado; a chuva bate forte nos vidros do carro; volto para casa, mas como sempre, acordei para a realidade tarde demais, sempre com este sabor a pouco e a muito menos do que podia e devia…

 “Havia sal de lágrimas,

 em  volta dos teus olhos.

E Tu, grave e sereno, em  mim os olhos punhas.

Pedir? Nada pedias…

Mudos também, Teus lábios.

Mudos. Mas é de então que  eu oiço a Tua voz

e  que me dói na alma

( como? Se não pediam…)

o apelo dos Teus olhos de olheiras de salitre.

Dá-me, Senhor, a arte de não perder de vista

Teus olhos e Teus lábios

- mudos, mas eloquentes;

discretos, mas precisos(…).

                                          “ Cristo”, Sebastião da Gama

 

Folheio e leio vários livros ao mesmo tempo. Ligo de novo a televisão. Há um silêncio estranho na minha casa. A osga continua lá. De repente, o mundo parece ter parado. Chegam-me imagens impressionantes, de multidões em oração, silêncio, carinho e comoção. Uma comunhão humana e sobrenatural que vence barreiras e fronteiras. Depois, em cada canal de televisão, nacional e estrangeiro, todos comentam, falam, aplaudem, respeitam e admiram, mesmo os mais cépticos e os não-cristãos.

 “Partiu para o Pai” aquele que foi carinhosamente apelidado de “atleta de Deus”, “o último gigante da nossa época”, “sinaleiro de Deus”, aquele que afirmava que “ o problema da humanidade que mais me inquieta é o de todos aqueles que ainda não conhecem Cristo, que ainda não descobriram a grande Verdade do Amor de Deus. É ver a Humanidade que se afasta cada vez mais do Senhor, que julga crescer deixando Deus de lado, ou mesmo negociando a Sua existência. Uma Humanidade sem Pai e por consequência, sem amor, órfã, desorientada, capaz de continuar a matar os homens nos quais não reconhece os seus irmãos, e a preparar assim a sua auto-destruição e aniquilamento. É por isso que eu quero empenhar-vos de novo, a vós, os cristãos, a vós, os jovens, para que sejais apóstolos de uma nova evangelização para construir a civilização do Amor”( in As reflexões para o ano 2000, João Paulo II).

Para nós crentes, o Papa partiu de facto, para o Pai. Foi o retorno à Casa Paterna daquele que, sendo o Vigário (representante) de Cristo na Terra, se esforçou por palavras e gestos, por se identificar cada vez mais e totalmente com o próprio Cristo. Até no modo, humanamente admirável e inexplicável, como viveu tantos e indescritíveis sofrimentos, sempre no seu posto, diante de todos nós.

João Paulo II, consciente da visibilidade dos seus males e do Mistério da Dor que só à luz da Cruz de Cristo encontra explicação, quis “dar um sentido ao seu sofrimento”, que ele via claramente como “ uma provação divina” e um “ dom necessário”.

 “Meditei sobre tudo isto durante o meu internamento”- afirmou o Papa no Angelus de 29 Maio de 1994- “compreendi que o meu papel é conduzir a Igreja de Cristo em direcção ao Terceiro Milénio através da oração, de iniciativas diversas, mas também pelo sofrimento, devido ao atentado de há treze anos e deste novo sacrifício.”(in João Paulo II, Bernard Lecomte).

 Referia-se então à fractura do fémur, mas desde essa data quantos novos sofrimentos, oferecidos por amor a Deus e por toda a Humanidade!

É tempo de Páscoa, tempo de passagem para o Pai e de Ressurreição.

Chegou ao fim o seu sofrimento, uma vida de total entrega a Cristo e à Igreja, que somos todos nós. É tempo de agradecer, mesmo que não o tenhamos sabido merecer.

 Partiu aquele que corajosa e reiteradamente afirmou “ o mundo da saúde e investigação está ao serviço da vida, para permitir ao homem que viva todas as fases da sua existência na dignidade (…) que lhe corresponde. A sociedade e as autoridades civis têm o dever de proteger as pessoas, em particular as mais frágeis, perante os eventuais excessos das ciências e das técnicas (…).

Recusar a vida aos mais fracos e aos deficientes constitui uma verdadeira injúria a todos aqueles que por múltiplas razões vivem nessa situação. Isso constitui um eugenismo inconfessável! ( in As reflexões para o ano 2000, João Paulo II).”

O Papa partiu, mas a sua Palavra permanece, interpela-nos e continuará a interpelar-nos.

A recordação que cada um de nós guardará deste Papa é certamente subjectiva, mas a sua Palavra e testemunho de Vida e Morte são marcos objectivamente inapagáveis e pedem-nos uma resposta. Uma atitude.

Sebastião da Gama acabava o seu belo poema “Cristo” (de que só transcrevi parte) com estes versos:

 Era de tarde. O Vento

dava nas ervas, punha-as

de rastros humilhadas.

Jesus passou.

                  -: Ergui-me.

 

                                        E nós? Vamo-nos erguer também?!