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Por Fátima Fonseca

24 de Março de 2005



   Talvez alguém se lembre ainda, que na semana passada, vos confessei a minha vontade de vos escrever sobre  outras coisas. Por isso aqui estou, com este “ m2” de Páscoa !

 Achei graça e deixei ficar pendurado no candeeiro da nossa sala,  um mobile de barro ( daqueles que tilintam com o vento) ,  que uma das jovens de Taizé nos ofereceu em Dezembro último, como recordação da passagem por nossa casa de três lituanas, vindas de Vilnius.

 Falaram-nos, no dia da partida,  da sua terra, ofereceram-nos postais e contaram-nos, a propósito de um deles, a história ligada à colina das Cruzes em Siauliai. Santuário católico e centro espiritual da Lituânia, as mais de 50.000 cruzes que ali se erguem são também símbolo de resistência e coragem, pois perpetuam a memória dos que  morreram em 1831, durante a rebelião contra as forças  ocupantes dos czares russos, que diariamente arrancavam as cruzes postas pelos lituanos, sem que no entanto os conseguissem demover, já que os lituanos sobreviventes voltavam a colocá-las durante a noite.

Sento-me no sofá, no regresso de casa do João e da Inês, e não tenho sono.

Olho para  o mobile de barro à minha frente e penso nas cruzes da Lituânia, onde nunca fui. Ao mesmo tempo, recordo a “Paixão de Cristo” de Mel Gibson, que acabo de rever. Vejo as cenas finais no Monte Calvário, três cruzes, e Jesus, desfigurado, com o corpo em chaga, crucificado entre dois ladrões ...

Para melhor prepararem esta Quaresma, o João e a Inês, jovens recém-casados, resolveram passar o filme em casa deles e convidar um grupo de amigos igualmente jovens, três casais mais velhos (os pais) e um padre amigo. Nem todos conheciam o filme. Por isso houve uma apresentação prévia, cheia de pormenores - porMaiores! - interessantes acerca das filmagens e dos seus múltiplos contratempos, das conversões que se deram durante todo esse tempo e dos motivos profundos e sérios que moveram  Mel Gibson. No final do filme, depois de um silêncio comovido difícil de quebrar, estabeleceu-se um diálogo rico de interpelações à nossa forma de sermos cristãos no mundo em que vivemos.

Chegámos à conclusão de que na verdade, frequentemente somos cobardes como Pilatos e fugimos como os discípulos e os apóstolos...Recebemos tanto e damos tão pouco!

Quereríamos talvez, um cristianismo sem cruz, sem dificuldades, um cristianismo mais  à medida de cada um, que não nos incomodasse, nem nos obrigasse a desinstalar do nosso comodismo egoísta! Umas esmolas, alguma oração, umas idas à igreja de quando em vez, uns gestos de paz e uns rituais estética e sentimentalmente apelativos, mas rápidos, e pronto!  Sobretudo, preferíamos mesmo que não nos falassem de Confissão, nem de pecados pessoais, daqueles que nós fazemos diariamente , com uma leviandade e uma insensibilidade crescentes!

Vim para casa ( envergonhada, confesso!) a pensar em tanta coisa...

 Entre outras, também no escândalo e polémica que estalou à volta do anúncio que um padre pôs em jornais, com dinheiro emprestado, a dizer que não tinha outro meio de chegar ao grande público e que queria informar que, com base no artigo tal e tal do Código Canónico, não podia continuar a dar a Eucaristia a católicos que laborassem numa série de erros, a saber: defender o aborto, a sua despenalização, tomar a pílula do dia seguinte ou aconselhá-la, recorrer a técnicas de reprodução artificial, etc., etc. Apelava também ao seu arrependimento e mudança.

E pensei que nunca ninguém se insurge contra as inúmeras páginas de anúncios nos jornais diários convidando escandalosamente à prostituição e pornografia, mas porque este anúncio de um padre põe em causa comportamentos e convicções actuais de muitos de nós, católicos, sentimo-nos altamente ofendidos e chocados. E nós , que em cada dia, tantas vezes atraiçoamos o mandamento do Amor, sem dó nem piedade ( troçando dos outros,  prejudicando-os, criticando, espezinhando para subir, procurando o conforto pessoal acima de tudo...), logo nos queixamos da falta de Caridade deste padre, acusando-o, entre outras coisas, de loucura e de ânsia de protagonismo...

É verdade que a ideia de pôr um anúncio sobre estes temas, reunindo-os  assim por atacado, é  original e “bizarra” em Portugal, mas nos EUA tem sido muito usada nos últimos tempos, até por altos membros da hierarquia da Igreja, para esclarecer posições semelhantes . Por outro lado, não deixa certamente, de ser  bastante embaraçoso, para os seus superiores e colegas, ver um padre tomar esta atitude “em roda livre”!

No entanto, por mais discutível que seja o meio e a forma , estou em crer que acima de tudo, este sacerdote - que há tantos anos conheço como um dos mais fiéis e corajosos lutadores pela vida de quem não se pode defender, e por isso lhe estou tão grata ! -  mesmo antecipando provavelmente que iria ser incompreendido, insultado e “trucidado”, pretendeu acima de tudo alertar as nossas consciências para a gravidade e incoerência das nossas posições e vidas, e criar uma oportunidade para que a Hierarquia da Igreja Portuguesa - à semelhança do que esta já fez há cerca de um ano atrás com a excelente nota do Episcopado sobre a defesa da vida -  possa vir agora explicar ao comum dos leigos aquilo que é doutrina da Igreja sobre temas morais, difíceis certamente, mas sobre os quais a Igreja não pode ter posições ambíguas, ou deixar-se levar pelos ventos de modas...

Ninguém pode duvidar de que com cada pessoa, com a sua situação individual e  os seus erros pessoais, há que ser profundamente compreensivo, misericordioso e humano, Sempre!  Mas no plano dos princípios e orientações morais, a Igreja só pode ensinar o caminho da Verdade e da Santidade.

Os princípios estão todos nas várias encíclicas ( Humanae Vitae, Evangelium Vitae, Familiaris consortio, Carta às Famílias em 1994 , etc.) e no próprio Catecismo da Igreja Católica, mas nós que não arranjamos tempo nem para ler estes assuntos, nem  para rezar sobre eles, ocupados que estamos, uns com sobreviver e outros com gozar a vida, frequentemente preferimos uma Igreja  mais simpática ,que perceba as nossas dificuldades e baixe a fasquia da santidade...

 ...volto ao filme e recordo uma breve cena em “flash-back” : Maria, Mãe de Jesus, vê o seu filho  na oficina de carpintaria a fazer uma mesa de madeira e chama-O para comer. Pergunta-lhe se não tem fome e diz-lhe - como as mães dos meninos pequenos e grandes de todos os tempos costumam fazer! - “vá lá, vem comer, tira esse avental e vai lavar as mãos!”

 Sabem? O que me parece é que o sacerdote do anúncio só queria mesmo, num tempo em que somos chamados a opinar sobre temas fortes e actuais, como o aborto e a eutanásia entre outros,  que percebêssemos todos, urgentemente, que também para receber o Alimento da Eucaristia - Corpo e Sangue do Senhor Jesus -  nós, católicos, que n’Ele acreditamos e que sabemos que Ele deu a vida para nos salvar -  só nos podemos aproximar do altar depois de nos “lavarmos” pelo Sacramento da Confissão  e  se “vestirmos” a alma com o “traje” próprio da conversão e arrependimento.

Ninguém gosta de ser censurado em público, e talvez por isso nos tenha custado tanto ! 

 

De qualquer maneira, já agora, e para terminar, deixem-me que vos descreva um outro anúncio que  há alguns anos passava numa cadeia de televisão americana :

 sucediam-se várias cenas  a cores , mostrando banquetes sumptuosos, festas fantásticas, carros de luxo, gente muito bem vestida ; a seguir , aparecia apenas uma frase curta, mais ou menos com estas palavras - “num tempo em que a maioria não prescinde de nada, fazem falta alguns que prescindam de tudo”- depois o ecrã ficava negro e ao centro, a branco, apareciam apenas duas mãos de sacerdote elevando  um cálice no ar e por cima uma hóstia . Por baixo, a morada de um Seminário católico.

Certamente também muita gente terá criticado, ou ter-se-á sentido atacada, mas ninguém terá ficado indiferente. A mim, comoveu-me e tocou-me .

É muito tarde! Volto a olhar o mobile de barro...é isso mesmo: somos todos feitos de um mesmo barro tão frágil ...

Boa Páscoa para todos vós!