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Por Fátima Fonseca

17 de Março de 2005



   Tinha tantas coisas para vos falar, hoje! Paciência, terei de encurtar os assuntos...

Falemos então da belíssima ilha da Madeira, onde fui em viagem relâmpago, em nome da ACMedia, com representantes do Instituto do Consumidor e Fenacoop, participar num  interessante  Seminário, a  propósito do Dia Mundial dos Direitos do Consumidor, organizado pelo Departamento de Defesa do Consumidor,  da Secretaria dos Recursos Humanos do Governo Regional da Madeira. Deixem-me que vos diga que não podíamos ter sido melhor acolhidas pelos madeirenses, nem melhor recebidas pelas várias entidades, em especial pela  eficiente e jovem Directora, Dra Fernanda Botelho.

 Gosto sempre de ouvir as várias intervenções das técnicas  peritas em defesa do Ambiente, Segurança, Qualidade, Brinquedo Seguro, Cooperativismo, Comércio Justo e Educação do Consumidor, porque para além de aprender imenso  sobre temas em que é grande a minha ignorância, acabo por verificar que muito do que ali se diz se pode igualmente aplicar às temáticas das  Associações onde trabalho- Cenofa, Acmedia, APFN.

Ora reparem ! Quando as minhas colegas de Seminário ali afirmaram, e muito bem, perante um público numeroso e interessado, que a “educação do consumidor é uma filosofia de vida transversal, que em vez de sermos consumidores ( por impulso) devemos ser consumeristas, i.é, consumidores informados, activos, atentos e responsáveis”, e que frequentemente, “ as pessoas compram o que não precisam, com o dinheiro que não têm, para impressionarem pessoas que não conhecem”   referindo-se assim à  “questão do supérfluo e à  transferência  que fazemos dos nossos sonhos e frustrações para os objectos”, ou ainda que “todos os nossos actos de consumo têm consequências graves para o futuro da Humanidade” e que portanto “ é necessário tomar consciência e alertar para os consumos individuais que cada um de nós faz, que não temos só direitos, mas também deveres, e que é preciso usar de contenção para reduzir o lixo imenso que aí vem e cujos resíduos e rastos põem em perigo a própria espécie humana” – pergunto apenas:

- não é verdade que tudo isto tem a ver com Valores e Educação,  problemas e sobrevivência das famílias no seu quotidiano, ou mesmo com as medidas que as famílias e educadores precisam urgentemente  de tomar,  face ao outro “lixo tóxico”, tantas vezes mascarado de produto de qualidade, que TV, jornais, revistas e Internet nos “oferecem”?

Enfim, este não é certamente o momento, nem o local ideal para elencar todos os conselhos a dar aos Pais e educadores (poderão visitar o site www.acmedia.pt) sobre o uso reflectido e crítico dos Media, mas já agora aproveito para vos citar um genuino Madeirense dos nossos dias, grande Homem de Letras, Filosofia e Teologia, sacerdote e poeta, Tolentino de Mendonça, a quem muito admiro, e que numa sua obra recente evoca Epicuro e a sua distinção entre  Bárbaro e  Civilizado...  “Bárbaro é o que come ( só), civilizado é o que come com, está à mesa com ...”, naturalmente com outras pessoas, convive, troca ideias, impressões, gestos, olhares, sorrisos, afectos.

 Poderíamos pois, perguntar, já agora - como fizemos na Madeira- e a título de simples chamada de atenção, se realmente nas nossas casas é isso que costuma acontecer, ou se pelo contrário, a nossa é uma das muitas casas onde já não se conversa com a família, nem se come à mesa, uns com os outros, rendidos que estamos aos encantos ditatoriais e subjugantes de sua Excelência, a Televisão? !

 

Mas a ida à Madeira, se bem que curta, também serviu para estar com  pessoas interessadas noutra Associação, o  Cenofa, nos seus cursos de formação parental e conjugal e nos seus Gabinetes de Orientação Familiar. Deste modo, foi possível contactar diferentes pessoas pedir-lhes ajuda na divulgação das actividades da Associação e conhecer até os protagonistas de  uma história real, digna de ser divulgada!

 Passo a contar: há cerca de dois anos, um jovem casal teve de sair do país distante onde vivia, por motivo de uma violenta catástrofe natural que lhes levou todos os seus bens materiais. Sem recursos, angustiados e com uma criança que sofre de uma doença grave embora  sob controle, resolveram ir para a Madeira, onde residiam os pais dele, que generosamente os receberam em sua casa, apesar de não serem ricos. Entretanto, o pai arranja emprego e no ano passado, a jovem engravida. Os médicos aconselham-na a abortar porque a criança poderia ter a mesma doença da irmã. O casal recusa, mas depois de tanta insistência, a mãe aceita fazer a análise ao líquido amniótico, a amniocentese. Por fim, quando chega o resultado, chamam-na de urgência, para lhe dizerem que deve abortar porque a criança será mongolóide ( Síndroma de Down) de certeza. De novo, a mãe, estrangeira, se recusa, afirmando ser contra a sua consciência tirar a vida a um novo ser. O marido apoia-a. Finalmente, a  criança  nasceu ! Tem agora três meses. Estive com ela, é linda e  perfeitamente saudável.

 Não tem qualquer doença! Os pais, os avós e a irmãzinha de cinco anos, estão radiantes com a Maria, claro!

Já no avião, de regresso a Lisboa, enquanto a minha jovem colega de Seminário e  companheira de viagem, me fala animadamente do seu querido bebé, Martim, dei comigo a cismar  em quantos outros terríveis “erros” são cometidos diariamente em nome dessa mesma fé cega e inabalável na intocável fiabilidade das técnicas de diagnóstico pré-natal ...

Entretanto, peguei num livro que  comprara antes de partir e com ele me entretive durante o resto da viagem. A meio da leitura de “Educar para o amor” de Giovanni  Nervo, deparo com uma passagem que não resisto a transcrever, não só porque me impressionou vivamente, mas também  porque me trouxe à lembrança o terrorismo e os dolorosos acontecimentos do 11 de Março 2004,  em Madrid , cujo primeiro  aniversário acaba de ocorrer.

Trata-se de um excerto de uma carta publicada em “Il Corriere della Sera”, de 6 Julho 1986, escrita por Savasta, um terrorista, activista das Brigadas Vermelhas, e dirigida à viúva do Engº Taliercio, no quinto aniversário do seu assassinato, para lhe pedir perdão.

Não precisa de comentários! Deixo-vos com ela:

 

     “Naqueles dias , o seu marido esteve como a senhora o descrevia: calmo, cheio de fé, incapaz de odiar-nos e com uma dignidade altíssima.

Era ele que tentava explicar-nos qual era o sentido da vida, e eu, em particular, não compreendia donde lhe vinha tanta força para sentir-se assim tão sereno, quase alheado  das coisas terrestres.

       Eu sei, senhora, que nada disto lhe restituirá muito, mas saiba que dentro de mim há uma palavra que o seu marido trazia consigo e que venceu. Venceu contra mim, que agora consigo compreender alguma coisa e venceu contra todos aqueles que ainda hoje não compreendem.

    Mesmo naqueles momentos, o seu marido deu amor e foi uma semente tão poderosa que nem sequer eu, que lutava contra isso, consegui extinguir dentro de mim. É uma flor que também eu quero cultivar para poder ser eu a dá-la. Se não fosseis vós os  primeiros a darem  essa flor, eu ainda estaria perdido no deserto. Creia que estou em dívida para convosco e espero só poder encher este vazio, restituindo e ensinando a outros o que vós me destes e ensinastes.”