Quem somos
Temas
Intervenção
 

Por Fátima Fonseca

1 de Março de 2005



   Uma das  vantagens de uma gripezita  é ficarmos em casa e descobrirmos inesperadamente, mais tempo para ler, para arrumar papéis, e entre duas sestas, aproveitar até algum programa de TV interessante.

 Foi assim que encontrei um programa da Oprah ( canal SIC mulher) gravado em 2004, sobre “ abuso emocional”, em que se afirmava que uma em cada três mulheres americanas sofrem de permanentes maus tratos psicológicos dos seus maridos, ou companheiros, apelidando esse abuso de tortura e assassino silencioso, uma vez que sendo a violência  verbal e não havendo cenas de violência física, as cicatrizes e marcas profundas não estão no corpo, mas  na alma e na personalidade. Revelavam os dois casais em causa que por vezes a violência era tão grande que chegava a haver destruição da própria casa e de bens materiais, como se para assustar ainda mais a vítima, mas sem jamais tocarem nas respectivas mulheres.

E contudo, era bem visível o estado de total  devastação e perda de auto-estima de uma das vítimas, que chegava ao ponto de afirmar que se sentia” feia, horrível  e incapaz de inspirar amor, indigna dos filhos, culpada ...”

O objectivo do programa era levar as pessoas a perceberem que este é um problema real e que estes casais precisam de aconselhamento e orientação familiar e de tratamento clínico e psicológico. Num dos casos em concreto, o marido fora obrigado pelo tribunal a frequentar um curso de  “ compaixão/ empatia” com a duração de 14 semanas, e ao fim de quatro semanas ele compreendera o que a tinha feito sofrer e viera pedir-lhe perdão, tendo reatado a vida em conjunto.

Apesar de não ter visto  a totalidade do programa, não pude deixar de relacionar com o trabalho que o Cenofa – Centro de Orientação Familiar – se propõe fazer dentro em breve, com um novo curso para casais ( quer estejam em crise, quer não, porque as crises   podem surgir em qualquer momento de maior vulnerabilidade, sem que se possa culpar alguém ! ) precisamente sobre “As crises nos casamentos” ( em Abril próximo! Estão abertas as inscrições...), e com um outro convite ao Cenofa, para participar numa parceria de um projecto  do programa “Equal” que visa o apoio a ex-reclusos e  famílias  para a sua reinserção na sociedade, através de formação conjugal e parental, bem como de um Gabinete de Aconselhamento Familiar.

As palavras finais de Oprah, ao olhar para um dos homens a quem convidou para frequentar um daqueles cursos de “compaixão/ empatia”, dizem-me muito :

“Acredito que tu és, não o que tens sido até agora, mas a possibilidade que vejo em ti de seres diferente!”

Também nós acreditamos na possibilidade de mudança de comportamentos e atitudes. Sabemos que não nos cabe ser juízes, mas apenas auxiliares de  mudança !

Com efeito, são muitas e variadas  as  causas das crises familiares - inadaptação um ao outro e às etapas do ciclo de vida familiar, excessiva dependência em relação às famílias de origem, esquecimento da vida a dois por ocasião do nascimento de um filho, problemas com filhos adolescentes, dificuldades na divisão de tarefas e partilha de dinheiro, excesso de dedicação ao trabalho, infidelidades, doenças, traumas de infância, etc  - mas o que importa é pedir ajuda enquanto é tempo, porque existem recursos internos e externos a utilizar e para isso servem exactamente os Gabinetes de Orientação e Aconselhamento Familiar.

 Na verdade, não temos de ser passivamente arrastados pelos acontecimentos, podemos alterar o seu curso, isto é, podemos e devemos pedir, oferecer e aceitar a ajuda de terceiros. Respeitando sempre, naturalmente, a liberdade de cada um!

 

No trabalho do Cenofa como no de tantas outras Associações ao serviço das famílias, verifica-se, como muito bem dizia numa carta recente à sua equipa de trabalho, o novo Presidente da Fiatyr  ( já agora, Parabéns, Dr Nuno von Amann de Campos, e felicidades na condução dos destinos da Federação Ibérica  das Associações de Tele-espectadores e Radio-ouvintes!) e Presidente da ACMedia ( Associação de consumidores de Media) “(...) que em cada país poucas são as gentes para o muito que tem de ser feito. As iniciativas assentam sobretudo no entusiasmo e generosidade de uns tantos que percebem que a mudança tem de acontecer e que as novas gerações não se podem continuar a deformar por causa da passividade e da lassidão daqueles que ainda têm a possibilidade de alterar o curso dos acontecimentos e esses somos também nós.

O aumento crescente das “famílias desestruturadas” , um pouco por toda a parte, acaba por fazer recair na sociedade civil consciente, o compromisso que até aí era uma responsabilidade tacitamente aceite e efectivamente desempenhada pelos pais.

Reside agora na atitude dos cidadãos a razão da mudança, como nela está igualmente implícita a esperança em conseguir que os resultados venham a ser atingidos num tempo possível, que se deseja curto. Assim será, se o fizermos com muito trabalho, muita determinação, muito carinho e muito profissionalismo (...)!”

 

Este trabalho é sem dúvida, do âmbito da cidadania, do serviço ao bem comum, e tanto se aplica na educação para o uso dos Media, ou na busca de uns Media que melhor sirvam as famílias, as suas necessidades e interesses, como em tantos outros voluntariados, como seja no apoio às grávidas , às mães sozinhas e aos casais e  famílias em crise.

E embora saibamos ser poucos e frequentemente inábeis ou demasiado “pequeninos” para a grandeza de trabalho que se nos pede, não posso deixar de comparar a situação ( uma vez mais?) com o lindíssimo conto de Jean Giono ( 1895-1970)- “ O homem que plantava árvores”- (ed. Vicentina, Associação para a protecção e desenvolvimento do Algarve Sudoeste).

 Trata-se da  história de Elzéard Bouffier, que sozinho, num trabalho diário e incansável, acaba por transformar a paisagem, plantando enormes florestas de carvalhos e bétulas numa zona deserta. Jean Giono inspirou-se na sua experiência pessoal, e cito  “(...) quando era pequeno dava grandes passeios com o seu pai pelas florestas. Levavam nos bolsos bolotas que iam enterrando na terra com a ajuda da ponta das duas bengalas esperando que daí viessem a nascer belos carvalhos. (...)”

Jean Giono, através de uma vasta obra literária, queria fazer com que os seus leitores viessem “ a gostar mais de plantar árvores” e amassem e protegessem a Natureza.

 

 Nós também queremos que as iniciativas de bem-fazer , à semelhança das bolotas e das árvores de Jean Giono, se multipliquem , dêem muitos e bons frutos  e atraiam mais e mais gente para amar, proteger e defender a vida, as famílias e os seus valores.