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Por Fátima Fonseca

15 de Fevereiro de 2005



   Tinha iniciado já um “m2” completamente diferente, mais atento às eleições que se aproximam, quando os últimos acontecimentos me “empurraram”- na verdadeira acepção da palavra- a escrever o presente.

Lúcia, a última dos três pastorinhos videntes de Fátima, acaba de morrer, numa idade avançada, de uma morte tranquila, num dia 13, comovendo multidões de crentes de todo o mundo, recordando-nos a mensagem de Fátima e chamando sobre si as atenções de que sempre fugiu em vida.

 Não a conheci, nunca fui ao Carmelo, não fui a Coimbra despedir-me, nem sequer tenho ouvido, visto, ou lido praticamente nada do que as rádios, televisões e jornais têm comunicado, mais por real impossibilidade do que por falta de vontade.

Contudo, vou contar-vos  um episódio que guardo cuidadosamente na minha memória  e que há muito pensava passar ao papel.

Como muitos sabem, as aparições de Fátima, tal como em tantos outros lugares do mundo - muito embora não sejam dogma de Fé -  têm “ tocado”  muitas vidas, e ocasionado verdadeiros “ milagres”, não tanto no sentido de curas de doenças físicas, que também tem havido, mas sobretudo influenciando benéfica e inexplicavelmente a vida de muita gente. Disso vos queria falar!

Corria o ano de 1978. No início de Setembro, fui pela primeira e única vez na minha vida, aos EUA, ao encontro de meu Marido, oficial de Marinha, que aí estava a frequentar um curso,. A  viagem foi perfeitamente decidida e reservada à última hora, levando comigo o meu filho mais velho, então com cinco anos. Ao entrar no avião, dirigimo-nos aos nossos lugares , onde já estava um estrangeiro sentado à janela. Ao ouvir o meu filho perguntar-me se não podia ir antes à janela “ para ver se lá em baixo havia tubarões” quando sobrevoássemos o mar, o estrangeiro sorriu, falou-nos  num português americanizado, ofereceu-lhe o seu lugar e assim ficámos os três em lugares diferentes dos previstos. Ao longo das cerca de sete horas de viagem até NY, donde nós partiríamos depois para Newport,  Robert N. contou-me toda a sua vida.

 Vivia em Portugal há vários anos, mais exactamente numa aldeia, Moita. Órfão, fora educado na América, numa instituição de freiras, donde saíra pelos 16 anos. Depois fizera um pouco de tudo, esquecendo por completo a educação recebida. Solteiro, jovem, grande apreciador da beleza feminina, andava pelos concursos de “misses” , saltando de paixão em paixão, vivendo uma vida boémia. No entanto, conforme me contou, uma  rotina nunca deixou de manter : a visita semanal a uma instituição de crianças deficientes, das quais cuidava e com quem brincava durante algumas horas.

Certo dia -trabalhava então na Força Aérea Americana- ao entrar num avião, queixou-se a um colega de uma terrível dor de cabeça. Vacilou e pouco depois, caía por terra. Levado ao hospital de imediato, foi-lhe diagnosticada uma grave encefalite. Entrou em coma e ficou hospitalizado longos meses. Quando finalmente voltou a acordar, sem forças, sem capacidade de andar ou sequer de se pôr de pé, reparou que alguém lhe pusera sobre a mesa de cabeceira, uma pequena imagem , de que ele nunca ouvira falar. Quis saber  quem era e por fim alguém lhe falou num país Portugal, e numa terra, Fátima, onde se dizia que Nossa Senhora tinha aparecido. Lentamente, a fé adormecida  e um desejo intenso de voltar a ter saúde levaram-no a acarinhar o sonho de, um dia, se voltasse a ficar bem, vir a Portugal, conhecer Fátima, de que passara a ter apenas uma imagem como referência e companhia. Assim aconteceu. Mais de um ano depois, Robert conseguiu cumprir o seu sonho. Veio a Portugal integrado numa excursão de americanos , de que ele era o mais jovem. Na Cova da Iria pela primeira vez ouviu a história daquelas três crianças, Jacinta, Francisco e Lúcia, e profundamente tocado pela mensagem da Senhora e pelo testemunho das três crianças, envergonha-se do seu passado e resolve mudar de vida. No regresso a Lisboa, para partir no dia seguinte para os EUA, fica alojado numa pensão residencial modesta e ao deitar-se só pensa em como gostaria de ficar para sempre a viver em Fátima. Nessa noite, deflagra um incêndio na pensão, todos os clientes são evacuados e entre os danos sofridos, Robert N. perde os poucos haveres e o próprio passaporte, o que o obriga a ficar mais uns dias no nosso país. Aproveita e com apoio da sua Embaixada, que lhe empresta dinheiro, Robert volta a Fátima e procura um local para viver, seguro de que é esse o caminho a seguir. Quer prosseguir na divulgação da mensagem de Fátima. Volta aos EUA finalmente, para ultimar os preparativos e alguns meses mais tarde vem definitivamente para Cova da Iria. Acaba por construir com as suas mãos  a casa de pedra onde vive solitário e modestamente ( ou vivia ainda há pouco tempo, quando lhe falei pela última vez). A partir de então passou a dedicar-se exclusivamente à oração, à causa da beatificação dos dois pastorinhos, Jacinta e Francisco e à divulgação da mensagem.

 No final da nossa viagem encheu-me de pagelas em inglês com a história das duas crianças e pediu-me que as distribuisse por onde passasse. Senti-me abalada . Anos mais tarde, a partir  de um ou dois dados que recordava da nossa viagem, escrevi para Fátima, fui procurá-lo, encontrei-o na Capelinha e voltei a faze-lo ainda uma outra vez, querendo confirmar o que agora vos relato. Fui também pedir-lhe orações por gente  amiga em grande aflição, ciente de que aquele era um homem Bom  capaz de ajudar pela oração quem dele se acerca. Claro que ele não se lembrava de mim. Eu sim; como poderia esquecer aquela viagem? Curiosamente, disse-me então, que  aquele Setembro de 1978 tinha sido a última vez que voltara aos EUA, onde ia fazer prova de vida anual para receber a pensão a que tinha direito !

Jacinta, Francisco e Lúcia levaram-lhe a mensagem da Virgem Nossa Senhora e mudaram o curso da sua vida. Como a tantos outros.

Robert N. tem feito o mesmo a muita gente.

“Como uma pedra lançada a um lago , que vai produzindo círculos sucessivos”.

Na verdade todos fazemos parte da imensa família humana, por isso de cada vez que nos cruzamos nas estradas da vida podem dar-se acontecimentos extraordinários, entre os quais aquilo a que os crentes chamam de conversões ou mudanças de vida.

Como os “links” da Internet que nos podem levar a “sites” maravilhosos e a  fantásticas descobertas, assim acontece com as pessoas que se cruzam connosco e nos desvendam paisagens do espírito. Há encontros decisivos e transformantes.

Agora percebem por que razão a partida da Irmã Lúcia  literalmente me “empurrou” a escrever este “m2” e não outro qualquer? É um modo de dizer “obrigada”!