Quem somos
Temas
Intervenção
 

Por Fátima Fonseca

30 de Janeiro de 2005



   ...conheci a Margarida, largos anos vão passados, numa inesquecível viagem a bordo do “Príncipe Perfeito” nas águas do Mediterrâneo. Ela era então uma jovem de vinte e poucos anos, morena, elegante, lindíssima, no seu uniforme de hospedeira de uma conhecida agência de viagens. Filha única, solteira, uma simpatia, a todos acolhia com o seu magnífico sorriso. Tempos depois, soube que  tinha casado com um estrangeiro e esperava um bebé, para alegria de todos. A tragédia porém, em breve lhes bateu à porta, num terrível acidente. Margarida foi cuspida do automóvel descapotável em que seguiam e ficou em coma, enquanto o Marido pouco sofreu. Seguiram-se tempos muito difíceis. Os pais mudaram-se para a capital, transformaram totalmente a sua vida para noite e dia acompanharem a filha, que no entanto, nunca mais acordou do sono profundo em que caiu, mantendo-se ligada a uma máquina até ao nascimento do bebé. Este, por fim, veio ao mundo, sem problema algum. Entretanto, da última vez que tive notícias, soube que os pais dedicavam inteiramente a sua vida à filha, ainda em coma, mas já em casa, onde alegre e despreocupada crescia uma pequenina, entregue apenas aos cuidados dos avós, já que o pai  decidira voltar à sua terra de origem...

    ...foi precisamente este caso da Margarida que de repente, me voltou à memória no passado dia 22 de Janeiro, no auditório novo da Assembleia da República, enquanto  ouvia, diferentes e valiosas intervenções e testemunhos em defesa da Vida e promoção da Família, num Forum realizado por iniciativa do Movimento Mais Vida, Mais Família, que há um ano atrás realizou a maior recolha de assinaturas de sempre ( 200 mil assinaturas!) contra a liberalização do aborto e em defesa da Vida Humana.

     A Matemática e eu, infelizmente, nunca tivemos uma relação muito brilhante, nem pacífica  por isso, quando as intervenções passaram à Fiscalidade e aos frios números da nossa desgraça, apesar da sapiência dos palestrantes, confesso que – tal como nos meus longínquos tempos  de escola- a minha imaginação rapidamente levantou voo em direcção  à história da Margarida e a tantas outras não menos verídicas e próximas, que me fizeram aprofundar e rectificar ideias e atitudes, e me levam, hoje, a lutar, com profunda gratidão, nas primeiras filas, junto de outras associações e pessoas, pela defesa da vida  desde o primeiríssimo momento da concepção até à morte natural.

     Aproximam-se as eleições e precisamos de saber claramente, não só o que os partidos concorrentes pensam e defendem em matéria de Economia, Justiça, Educação, Saúde, Ciência e Tecnologia, Política Externa, etc.,  mas também que importância dão e prevêem dar à Defesa da Vida e Promoção da Família, como resultante do casamento entre um homem e mulher e elemento fundamental da sociedade. Só assim poderemos votar em consciência, como se impõe!

     Como ali foi dito e reiterado,  por muitas e diferentes pessoas, credíveis e abalizadas,   “ o Estado tem um papel fortemente condicionante dos projectos de cada Família” . E tal como afirmou a Profª Drª Maria Teresa Ribeiro, numa excelente intervenção, ainda recentemente na Conferência Europeia de Saúde Mental em Helsínquia, se falou da “depressão, como o assassino invisível da Europa, responsável por altas taxas de suicídios e auto-mutilações”, sendo consensual a existência de  “uma correlação inegável entre pessoas saudáveis, famílias saudáveis e sociedades saudáveis”.

     São muitos e graves os problemas económicos do nosso país, é um facto, mas  ninguém duvidará de que um Estado que se recuse a investir preventivamente no apoio às Famílias e  Educação, será severamente onerado a posteriori,  por causa da criminalidade, da droga e alcoolismo, da sida e tantos outros males.

     Como muito bem perguntava o Dr Raúl Dinis, numa exposição muito apreciada, sobre políticas favoráveis a uma melhor conciliação entre família/trabalho “ se não nascerem crianças, onde estão  as bases económicas para a sociedade e o enriquecimento da família humana?”

 

  ...    Lá fora, como cá dentro, a vida não para e as notícias, mais e menos relevantes,  sucedem-se a uma  velocidade acrítica, anestesiante e imparável! Ainda há pouco foi assinado um histórico acordo de paz no Sudão, lá onde a guerra civil e a fome não têm dado tréguas a  populações martirizadas, há vinte e um anos. Agora são as eleições no Iraque, um pálido “ensaio” de democracia ocidental imposto do exterior, a xiitas e sunitas, marcados por lutas fratricidas, ódios acumulados e brutal violência. Já pouco se fala do “tsunami” e das suas catastróficas consequências na Ásia. Porém, se  é verdade que a dor ali se instalou  e afectou para sempre mais de 260 mil famílias, não é menos verdade que a onda de solidariedade também não vai terminar tão cedo. Ainda agora ouvimos em campanhas de rádio e televisão, igrejas e grupos de profissionais das artes e espectáculos, apelos a donativos e ajudas às equipas de médicos e outros que dão o seu melhor no terreno. Salvar vidas, curar doentes, evitar epidemias, reconstruir, consolar, recomeçar...são as palavras de ordem.

Por isso, não posso terminar este “m2” sem dizer quanto admiro aquele médico açoreano, meu conhecido, pai de família numerosa, cirurgião já reformado, que vai partir, ou já partiu, para se juntar à AMI e dar o seu melhor, ele que  rondando os setenta anos, ainda  mantém aquela generosidade e juventude de espírito dos que sempre dão gratuitamente,  sem sequer esperarem ou julgarem ser notícia.