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Por Fátima Fonseca

31 de Dezembro de 2004



   Chegara finalmente o Grande Dia !

Joana quebrou o porquinho de barro, contou ansiosa, moedas e notas, juntou tudo no envelope que a mãe lhe tinha posto no sapatinho, junto ao presépio, no dia de Natal, e às nove da manhã já estava a bater à porta do quarto dos pais, toda vestida e arranjada, para irem às compras, conforme o prometido.

Era véspera de Ano Novo. Sabia que a vida estava difícil em casa: o pai ia deixar de receber subsídio de desemprego e, embora com promessas de trabalho, continuava à espera de alguma proposta concreta. A mãe, há dois anos a fazer quimioterapia, deixara há muito o trabalho de tradutora à tarefa e dedicava-se agora a cozinhar para fora, quando alguém lhe fazia encomendas. Sabia também que o seu presente de Natal tinha sido o dinheiro que a mãe recebera por 4 dúzias de sonhos e dois “pyrexes” de crêpes de camarão. Todo para ela, para comprar os tais sapatos especiais com luzes e  rodinhas atrás ...os sapatos que as colegas de escola já usavam e que ela tanto desejava... ( só não sabia é que o pai tinha achado uma irresponsabilidade da mãe oferecer aquele dinheiro todo à Joana, de 9 anos, só para comprar uns sapatos daqueles...).

Muito pálida, a mãe sorriu, compôs a cabeleira postiça ao espelho, enfiou o velho casaco castanho, arrumou o envelope da Joana na carteira e dando-lhe a mão,  desceram as escadas do prédio velho na Amadora.

Entraram no metro e dirigiram-se à Baixa, onde a mãe tinha visto os sapatos de sonho...

Sentaram-se, uma ao lado da outra, sempre de mão dada, sorrindo mutuamente num silêncio cúmplice. Muita gente entrava e saía a cada paragem. Um bando de jovens estrangeiros de Taizé acotovelavam-se, de pé, no corredor e toda a gente os olhava,  sem perceber a língua em que falavam  e porque se riam tanto, com um ar tão feliz e tão sereno. Joana também se ria.

Em dada altura, vagou um lugar e um senhor de idade sentou-se-lhes em frente e abriu o jornal de par em par. Na primeira página viam-se fotografias de horror, alusivas à catástrofe recente no outro lado do mundo. Uma lista de números em cor de sangue revelava novas estimativas de mortos, desaparecidos, feridos e desalojados. Por baixo, em letras enormes, a negro, dizia:

“Dê o que puder, mas dê !”

Assinavam o pedido, AMI, Caritas, Cruz Vermelha, RTP e RR seguidas dos respectivos números de contas bancárias.

De mão dada com a mãe, Joana saiu na Baixa-Chiado. Das pastelarias saía um delicioso cheiro a bolos. Caminharam rapidamente para a sapataria. Lá estavam eles, os sapatos com luzes, rodinhas  e duas cores. Na montra, apelativos. Joana saltitava, nervosa.

“São o máximo, não são, mãe?” A mãe sorriu e acenou com a cabeça. “ E o dinheiro chega, não chega, mãe?” A mãe voltou a acenar e empurrou-a, docemente. Entraram na loja, pediram para experimentar e Joana escolheu a cor preferida: cor-de-rosa, como as Barbies que ela não tinha, mas as amigas levavam para a escola.

Porém, no exacto momento em que a mãe mandava embrulhar, e retirando o envelope da carteira, se dispunha a pagar, Joana olhou, muito corada, para a empregada e disse, baixinho :- “Desculpe, mas afinal não compramos! Sabe? Eu nem preciso, estes meus ainda servem...”

A mãe olhou-a, atónita, e sentiu-se levada pela mão, apressadamente, para a rua.

“Mãe, a sério, eu não preciso e antes quero dar este dinheiro. Não se zanga, pois não? Vamos  pôr na conta que ali vinha no jornal”.

                                                                  ...

...Deixo-vos um conto de fim de ano! Façam de conta que é o meu pequeno presente para todos quantos paciente e fielmente me acompanharam ao longo de mais um ano de m2...Obrigada ! E um Bom Ano para todos vós e para as vossas famílias! Até 2005!