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Por Fátima Fonseca

21 de Dezembro de 2004



   Num tempo simultaneamente de louvores e duras críticas à comunicação social, provenientes de diferentes sectores políticos e não só, pelo seu incontestável papel de relevo no que toca à descoberta de verdades, erros e injustiças, mas também, entre outros motivos, pelo desgaste contínuo de instituições e pessoas, permanentemente submetidas a invulgar “bombardeamento”, fui encontrar no Montepio Geral, numa revista da própria instituição, uma interessante entrevista com a Profª de Economia, Doutora Manuela Silva, intitulada “Em defesa da globalização regulada, da cidadania e da solidariedade”.

A meu ver, ali se põe e muito bem, o dedo na ferida ( ou em várias feridas)!

A propósito da boa pergunta “ se o homem é um ser ético, porque é que o mundo virou selva?”, a Profª Doutora Manuela Silva, depois de referir vários aspectos negativos e positivos do chamado progresso da Humanidade, diz no entanto, que também Portugal tem evoluído muito “ no fortalecimento da sociedade civil e no seu envolvimento em processos de humanização” e que não se pode esquecer que “todos os dias se recriam novas energias de aperfeiçoamento da nossa Humanidade, sem esquecer o alcance dos gestos ignorados de beleza e de bem de muitos milhões de seres humanos”. E acrescenta que sempre assim foi, só que “ o que parece ser novo nos nossos dias é o efeito dos media que, por sistema, ignoram e silenciam a face positiva da realidade, para fabricar a notícia com o lado mais negativo da mesma”.

É  também essa a minha opinião e por isso, várias vezes aqui tenho deixado um desafio: É preciso dizer bem! E seguramente é possível  fazer um jornalismo mais positivo! E há quem o faça...só que é sempre mais visível o negativo, porque vende mais!

Enquanto esperava a minha vez, continuei a folhear a revista e deparei com o testemunho de vários artistas sobre o Natal. E achei particularmente interessante, a referência do poeta José Fanha, bem conhecido a partir do 25 de Abril, que diz que “voltou a encontrar a magia (ou  antes, o sentido?) do Natal” agora  com os seus quatro filhos, pois recordando a sua infância, como filho de pais divorciados, ele lamenta essa “ ausência de família” e fala do Natal de então “ como um momento um pouco angustiante”, uma vez que frequentemente o passava com pessoas que não conhecia e recebia presentes que pouco se “ajustavam”...

Vinha eu pela rua fora, pensando exactamente nessas imensas( hoje muitas mais!) famílias em sofrimento e olhando a profusão de iluminações de Natal e a quantidade de  Pais Natais a marinharem pelas janelas e paredes das casas- em substituição das bandeiras portuguesas  desde o Euro 2004, já um tanto debotadas e rasgadas - quando dei comigo a pensar que de facto, entre nós, portugueses, sempre permaneceram resquícios dum endémico Sebastianismo .

Se calhar, este Pai Natal vistoso, a trepar pelas mansardas e janelas, embora fruto de influências alheias, também no fundo traduz esse sonho distante que todos alimentamos:

sonho de um tempo novo, mais do que cheio de coisas vistosas que tão cega e afadigadamente acumulamos e nada valem, cheio de paz, amizade e alegria, um tempo em que nos sintamos seguros,  em casa e fora dela, confiantes e bem governados, trabalhando para um progresso colectivo e nacional, liderados por alguma mão credível e desinteressada, e que defenda os valores da Vida e da Dignidade da Pessoa em que acreditamos .

Quero continuar a dizer bem, e falando de bom jornalismo e de sonho, vem-me à  memória a interessante entrevista que o escritor Amin Maalouf deu a Ana Sousa Dias, na 2, e que merecia um horário mais nobre e mais audiência.

Aliás, Ana Sousa Dias é uma excelente jornalista, cuja preparação, atitude e  serenidade  na forma como conduz as  entrevistas,  nunca é de mais salientar !

Amin Maalouf, libanês cristão, de 55 anos, assume-se como um “workaholic”, trabalha em 6 ou 7 livros ao mesmo tempo, nunca faz férias, e acredita que estudando e aprofundando cada período da História através da vida de personagens que ele vai escolhendo, contribui para um melhor entendimento do nosso tempo presente. Mais recentemente, escreveu  dois libretos de ópera, com enorme êxito, e acaba  de publicar um novo livro “Origens”. Curiosamente, esta é a  história da sua própria família, que ele pesquisou minuciosamente, como uma comovente homenagem a dois libaneses representativos de duas formas de luta pela vida : o tio-avô Gebrayel ( Gabriel), que aos 18 anos resolve emigrar, e por alturas da Guerra de 1914-18,  parte à aventura, para fugir à fome e acaba por fazer fortuna em Cuba, e o avô, Botros( Pedro), que apesar de  repetidamente chamado pelo irmão, decide ficar nas montanhas do Líbano, fundar escolas de aldeia, e através da Educação, como professor, lutar pelo desenvolvimento da sua terra e das suas gentes. O avô era um idealista: defendia um verdadeiro ensino de qualidade para todos e tinha uma profunda esperança numa sociedade tolerante capaz de aprender, pela Educação, a respeitar diferentes profissões de fé e culturas, numa coexistência verdadeiramente pacífica.

É também dessa Paz que se fala em tempo de Natal,  mesmo quando ela falta em tanto lugar da terra! Por isso vo-la desejo, de todo o coração, a cada um de vós, e às vossas famílias !

Que o Menino Jesus vos encha da Sua Paz e Alegria! Bom Natal!