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Por Fátima Fonseca

15 de Novembro de 2004



   Tudo se passou num ápice, pelo menos assim me pareceu, mas vou contar-vos:

Era aquela hora “H”, tão especial em cada manhã...meu Marido e meus filhos já tinham saído de casa, o silêncio e a calma pareciam ter voltado. Sentei-me, a tentar separar mentalmente, o urgente do importante. Meu Deus, tanta coisa para fazer! Por onde começar?

Nisto apercebo-me que meu Marido deixara a televisão ligada. Farta de tanta má notícia logo pela manhã, mecanicamente resolvo fazer um “zapping” rápido, em vez de desligar. Uma voz familiar segreda-me cá dentro: “ Desliga!”. Faço os meus conhecidos ouvidos de mercador e digo com os meus botões: “ Também é só um bocadinho e já agora vou espreitar o programa da Oprah (no canal SIC Mulher)!” “Desliga!”, “Não desligo nada, é só um bocadinho!”

E então, de repente, entra-me pela casa adentro e atravessa-me o coração de uma ponta à outra, uma das cenas mais bonitas e comoventes que tenho visto em televisão, nos últimos tempos! Vou contar-vos...

Duas produtoras conversam com a famosa apresentadora negra, a americana Oprah, acerca dos mais belos episódios e dos mais marcantes realizados até então. Uma delas refere a vinda ao programa, de uma jovem – cuja foto nos é mostrada – em tempos uma carinha bonita, alegre e fresca, mas agora, completamente desfigurada, apesar de um sem número de operações já sofridas. Numa trágica noite, ao regressar a casa de carro, a jovem foi abalroada por um condutor embriagado e de imediato o carro se incendiou com a jovem presa lá dentro. Contra todas as expectativas, sobreviveu. Agora, como diziam as produtoras, evocando a cena que voltaram a mostrar,“ é um espírito lindo”, porém num corpo tão desfigurado que a cara mais parecia um animalzinho e a cabeça vinha escondida num chapelinho preto.

Quando a mãe do jovem condutor embriagado (agora na prisão) é chamada ao palco, ambas se abraçam e a senhora, de voz embargada, nada mais consegue dizer senão “ eu julgava ser capaz de falar, mas não sou...”Então a jovem, volta a abraçá-la, segunda vez, segurando-lhe as mãos bonitas e cuidadas nas suas mãos deformadas e ouvimo-la dizer apenas, com grande serenidade, numa voz jovem e carinhosa “ está tudo bem, está tudo bem...” No final da breve cena revista, Oprah, igualmente comovida, comenta que aquela foi a mais bela expressão de perdão que ela já alguma vez ouvira ou conhecera!

 

“Perdi”(?) 30 minutos com a minha tentação.. e nem dei conta , é verdade, mas desta vez não me senti irritada comigo própria como daquelas outras vezes em que a televisão me seduz e amarra ao sofá, estupidamente, nas franjas do dia- pela manhã ou ao fim do dia- a perder um tempo precioso...

A verdade é que, falar de perdão vem mesmo a propósito, num momento em que a morte e sucessão de Arafat, “leader” da OLP – para uns aquele herói, para outros um assassino – cria uma oportunidade talvez única de abrir caminho à Paz entre Israel e a Palestina, a Paz por que tantos anseiam e que simultaneamente ódios ancestrais de ambas as partes parecem querer sempre inviabilizar.

 

Falar de perdão, aliás, vem também a propósito, aqui bem mais perto, precisamente quando no passado fim-de-semana, o Instituto de Ciências da Família, da Universidade Católica de Lisboa, organizou um excelente curso livre, com bastante assistência, intitulado “Mediação para a Reconciliação” e superiormente orientado por Tony Whatling, uma espécie de “guru” da Mediação, profissional, consultor e formador de Mediação Familiar, Membro Fundador da Associação de Mediadores Familiares do Reino Unido.

Tony Whatling tem corrido mundo a convencer casais desavindos e muitos litigantes de que a Paz é possível e que a violência – ao contrário do que a maioria dos programas de televisão nos ensina e aos nossos filhos! – não é a única, nem a melhor solução para os conflitos entre casais, familiares, vizinhos, colegas, patrões e empregados. Dizia Tony Whatling, alias, depois de ensinar as várias técnicas de fazer Mediação, que a capacidade de perdoar varia muito de pessoa para pessoa, dependendo sobretudo da sua personalidade, mas também da educação recebida, das suas convicções e crenças religiosas e da cultura envolvente. E contava vários exemplos elucidativos de capacidade e incapacidade de perdoar. Entre eles contou o caso de um polícia assassinado à facada, há pouco tempo em Inglaterra, durante uma operação de assalto a uma casa onde se pensava estarem a ser fabricadas armas químicas. No dia do enterro do polícia, seu pai, no meio de grande desgosto, foi capaz de dizer que rezava para pedir a Deus que perdoasse ao assassino aquele acto de extrema violência e ao mesmo tempo também pedia a Deus que lhe ensinasse a ele próprio a perdoar ao assassino do seu filho!

O perdão é de facto, a única chave e segredo da resolução de muitos conflitos e problemas, às vezes naturais e inevitáveis, outras vezes não, no nosso dia-a-dia, na família, no trabalho e na sociedade em geral.

E que falta nos faz uma cultura de Paz em oposição à imensa violência que nos rodeia!

Importa praticá-la nas nossas casas e treiná-la com as nossas crianças...