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Por Fátima Fonseca

1 de Novembro de 2004



   Este é aquele tempo em que habitualmente recordamos com mais tristeza, os nossos mortos queridos, sejamos, ou não, pessoas de fé. Hoje porém, e por contraste, não posso iniciar este m2 sem vos dar a conhecer a enorme alegria que invadiu a nossa família, pelo facto de termos mais um bebé entre nós! Com efeito, uma nova vida traz geralmente consigo, uma alegria difícil de ocultar , e aqui em casa acabamos de ser avós pela 2ª vez, desta vez de um rapazinho...

...mas pronto, prometo que me vou conter sobre as parecenças e outros pormenores,  e de imediato me referirei ao oportuno relatório da OCDE que veio alertar os nossos governantes, exactamente para a ausência de uma adequada política familiar em Portugal , servindo assim  de mote a vários interessantes artigos  e comunicados- de que destaco, precisamente pela sua acutilância e oportunidade, o da APFN.

A propósito da necessidade sempre adiada de uma política de família com resultados práticos visíveis ,cito alguns dos “desastrosos indicadores familiares” que o comunicado da ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DAS FAMÍLIAS NUMEROSAS menciona: “(...) redução do número de casamentos, disparo de divórcios, redução da natalidade e aumento de nascimentos fora do casamento com consequente aumento do número de “órfãos de pais vivos” e como tal do crescente aumento de comportamento desviante e de risco infantil e juvenil (...)”.

 Este é, infelizmente, um quadro bem realista, a que não se pode fechar os olhos !

Não me vou alongar mais, no entanto, quanto aos conselhos da OCDE, de que já terão conhecimento pelos jornais, pois hoje queria falar-vos sobretudo, de três excelentes conferências a que tive o privilégio de assistir no passado recente, e que apesar de muito diferentes quer pelos oradores, quer pelos temas e pelo público, curiosamente contêm traços de ligação entre si.

Começarei por referir alguns aspectos da conferência da Profª Doutora Luísa Couto Soares, em Lisboa, sobre “Cultura e estilo de vida na Europa actual”, em que fomos logo de início genialmente confrontados , com uma descrição imaginária e caricatural, do que seria uma hipotética vinda de Gulliver à Europa de hoje e a leitura que faria dos nossos estranhos hábitos: “... gente obcecada pela velocidade, movimento, ruído permanente, consumo viciante, espaços gigantescos – armazéns- com gente a empurrar grandes carrinhos cheios de coisas, gente que passa muito tempo a tratar do corpo, em casas chamadas ginásios, muita actividade em cima de máquinas mas sem saírem do mesmo sítio,  sempre com uns aparelhos colados ao ouvido, roupas sumárias, muito papel, muito lixo, muito trabalho, mas trabalho sem sentido, caras sérias e tristes, um mundo sem referências espirituais e sem valores (...)”, traduzindo assim a “apostasia silenciosa” da actual cultura europeia ou “uma Europa sem alma”, no dizer de João Paulo II, e uma vulnerabilidade simbolizada no curioso título da obra de Edgar Morin , “ Fragilidade, o teu nome é Europa”.

      A 2ª conferência foi o ponto alto do  2º Encontro da AORN - Associação de Oficiais da Reserva Naval -  que teve lugar em Outubro último, em Portimão e Mexilhoeira da Carregação, e teve como tema “Portugal, o Terrorismo e a Segurança - o papel da Marinha”. Com uma primorosa organização,  da responsabilidade do seu incansável Presidente, Dr. Castro Moreira,  foram excelentes oradores convidados, o Gen. Rodolfo Bacelar Begonha, o Dr. António Rodrigues Maximiano e o Alm. Tito Cerqueira. Também aqui se falou de fragilidade e vulnerabilidade, desta vez porém, para referir a evolução dos dois tipos de ameaça tradicional, interna e externa, que hoje aparecem sob a forma de diferentes terrorismos, mas sempre como ameaça assimétrica, marcada pela globalização ( “sem fronteiras espaciais e compactada no tempo” como explicava o Prof Ernâni Lopes ),  e ainda pela letalidade e barbaridade.  Ouvimos falar com proficiência do tema, embora por razões de tempo  de forma necessariamente genérica, mas em dada altura o Gen. Begonha ,extrapolando o habitual sentido de ameaça terrorista, falou mesmo de uma intencional e actual “ameaça ideológica à família”- de que já algum tempo vem insistentemente falando , o Prof. João Carlos Espada -  pela equiparação de uniões de facto ao casamento, legalização de casamentos de homossexuais, aborto e eutanásia, etc. No debate, houve até quem perguntasse aos conferencistas  se “ a despromoção da dimensão espiritual do homem” não seria também uma forma de terrorismo ideológico subtil que diariamente nos entra casa adentro sob a forma de programas de televisão e Internet escolhendo como alvo preferencial as nossas crianças.

    Finalmente, na 3ª conferência, mais recente, pude ouvir a Dra. Margarida Neto, Alta Comissária para os Assuntos da Família, falar sobre “luzes e sombras” no contexto actual da família, a partir de uma releitura da encíclica “Familiaris Consortio”.

Porque o texto já vai longo, recordarei apenas e em resumo, algumas das suas conclusões, que de certo modo denunciam , tal como as duas conferências anteriores,  preocupação com a fragilidade e vulnerabilidade da nossa sociedade :

 ante o pessimismo que nos invade e nos leva a conceber frequentemente a vida “ como um risco de que é preciso precaver-se”, urge, dizia a Dra Margarida Neto, apelar à família para que seja “filtro e crítica desta cultura ( negativa) dominante na escola, na rua, na TV e Internet” porque “ a nossa época tem necessidade de um novo humanismo, de uma compreensão do sentido último da vida e de uma conversão ( dos corações)” que só a educação do Amor pode trazer.

 Mesmo correndo o risco de já não terem paciência para mais , deixem-me que vos diga, que às vezes dou comigo a pensar, por estas ruas fora, perscrutando os rostos tensos e tristes com que me cruzo :

Não é possível que vivamos constantemente com o pavor de sermos atacados ! Não, o comum das pessoas não vive nessa obsessão! E também não pode ser só a crise económica...Mas então porquê que encontramos tanto  pessimismo ? E porquê que oscilamos tanto entre um humor televisivo idiota capaz de nos fazer chorar a rir estupidamente e os  dramas familiares reais que nos arrastam para depressões, remédios e lágrimas sem fim? Porque há tantas crianças em sofrimento? Onde é que estamos a falhar?

E então , encontro quatro razões fundamentais :

-          falta-nos tempo para amar, porque não conseguimos gerir o nosso tempo, distinguindo entre urgente e importante, capricho e necessidade;

-          falta generosidade  e maturidade nos nossos casamentos;

-          falta-nos resiliência para enfrentar as normais e inevitáveis adversidades da vida;

-          faltam-nos Fé,  valores morais e  sentido da vida, e com isso, a noção de identidade e dignidade: não sabemos quem somos, o que aqui fazemos, donde vimos , nem para onde vamos. E por isso nos sobra o medo.

 

Tenho a certeza de que vos obriguei a saltitar, uma vez mais , de tema em tema, e peço-vos desculpa por esta dispersão , mas de uma coisa estou convicta : a maior ameaça que podemos temer não reside nos terroristas fanáticos e fundamentalistas, ou numa guerra de civilizações; o perigo maior está dentro de nós , já e agora, quando , dia após dia, nos deixamos vencer pelo relativismo e pela indiferença, pelo comodismo e  respeito humano, que nos levam a cruzar os braços e a pensar que já nada podemos fazer  para mudar o mundo em que vivemos!