Quem somos
Temas
Intervenção
 

Por Fátima Fonseca

1 de Outubro de 2004



   Na televisão muito se tem falado, ultimamente, em “ celebridades”, o que , - convém distinguir!- não é o mesmo que pessoas célebres. Celebridade neste caso, rima bem com efemeridade, característica desta frágil fama  que normalmente rodeia certas personagens forjadas pela nossa sociedade mediática  num perfeito jogo de ilusões e aparências.

 Não quero perder tempo em comentários a reedições de “ mais do mesmo”, tristes e perigosas experiências, mascaradas de inocentes brincadeiras,  que certamente darão muito dinheiro e audiência aos seus produtores, esquecidos já dos visíveis maus efeitos nos pobres Zés....apanhados na teia deste negócio!

Por mim prefiro falar de gente célebre –  heróis, santos e sábios – pelo exemplo positivo que as suas vidas representam para as crianças e jovens de hoje, que nos olham , tantas vezes, num mudo pedido de referências e caminhos.

É o caso dos nossos atletas paralímpicos , autênticos heróis, que acabam de regressar de Atenas e justamente serão homenageados,  premiando assim os seus esforços e os dos seus treinadores.

 A estes verdadeiros lutadores, cujas vidas em algum momento foram dramaticamente marcadas por alguma doença ou acidente, queria daqui endereçar um grande e amigo Abraço de reconhecimento, pelo que são, pelo que fazem e pelo nível que conseguiram atingir, independentemente das medalhas que trouxeram e que os honram, bem como ao nosso país.

 Estas são  vidas que merecem luzes de ribalta, apoios e carinho !

 Estes são  exemplos que convém realçar !

Estes são  casos que merecem imagens, páginas e entrevistas, com eles, com os seus familiares e treinadores.

 Não propriamente para despertar a nossa compaixão, mas para acordar consciências, sugerir reflexão, esperança e admiração, sobretudo entre desesperados de todas as idades, e em particular, entre  jovens que se dão ao luxo de desperdiçar  tempo, saúde e  tantos outros talentos com que foram bafejados...

 Por isso também, muito gostei de ouvir o Reitor da Universidade Católica, Prof. Doutor Braga da Cruz, num excelente programa da  2, a que o próprio telejornal da RTP1 em boa hora soube dar destaque, ao referir a importância e urgência de controlar a indústria da noite, responsável pela exploração dos inúmeros locais onde grande parte dos jovens gastam saúde, tempo e dinheiro. Dizia este sociólogo, personalidade de reconhecida competência, muito respeitado e ouvido nos meios universitários, casado,  e pai ,  que a vida nocturna tem decisiva influência negativa no rendimento escolar dos jovens universitários, num tempo particularmente importante da sua formação e que, ou se tomam medidas radicais para alterar horários nocturnos e venda de bebidas, ou corremos o risco – já real - de assisitirmos ao insucesso de várias gerações...

 Dou os parabéns pela seriedade, convicção, coragem e desassombro com que estas palavras foram ditas, porque também eu, como mãe e professora,  não tenho a menor dúvida de que qualquer que seja a vocação  profissional dos nossos jovens - carreira desportiva, militar, técnico-profissional, ou universitária -  ela assentará sempre as suas bases na formação e carácter do jovem, na sua capacidade de aprender a trabalhar com autonomia e honestidade,  regras e disciplina, sacrifício e perseverança, características seguramente incompatíveis com excessos de álcool, dinheiro fácil e noitadas...

Acrescento apenas, reforçando o que tão sabiamente foi dito, que o problema começa cada vez mais cedo, muito antes de os jovens chegarem às universidades- como aliás o panorama dos maus resultados escolares do 3º ciclo de Ensino Básico e do Secundário claramente o demonstra ! – e que se é verdade que as famílias são as  primeiras responsáveis pela educação dos seus filhos, cabe ao Estado garantir segurança ( também dos nossos filhos e nossa) , desenvolvimento ( que país teremos só com “ celebridades e ídolos” ???) e justiça ( e alguém  sabe dizer como estamos de branqueamento de capitais e corrupção na indústria nocturna? Nada de especial a assinalar???)...

Por isso digo – e estou certa que muitos leitores estarão comigo! - que acho muito bem que os nossos jovens e nós todos tenhamos tempo para o lazer, mas há que olhá-lo com olhos realistas e é  mais que chegada a altura de o Estado  intervir, para corrigir excessos, doa a quem doer !!!