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Por Fátima Fonseca

15 de Setembro de 2004



   Ultimamente tenho recebido uma série de “mails” com pedidos de ajuda muito imaginativos, vindos de África, na sua maioria da Nigéria e  Costa do Marfim. Assinados por diferentes personagens- de solicitadores, a viúvas e filhos de  ex-governantes - relatam sempre histórias rocambolescas e  extraordinárias, de fortunas escondidas pelos defuntos ou depositadas em seguradoras e bancos europeus, e pedem – me que os ajude a recuperar o dinheiro, a que têm direito, prometendo-me generosa recompensa. Basta que lhes responda ! Imagino o vosso sorriso, pois certamente não serei a única a receber estas missivas...

Não tenho qualquer dúvida de que estamos perante cérebros extremamente criativos, mas é  mais um estratagema evidente para enganar incautos.

Contudo, bem sabemos que a África continua a ser varrida pela guerra, pela fome, pela doença, e ignorância, de que só o terrorismo internacional, a globalização e o egoísmo consumista da nossa civilização ocidental nos podem fazer distrair.

Recentemente, as poucas páginas de alguns dos nossos jornais que sobram à revelação de escândalos, desmandos na governação , desastres e notícias erótico-pornográficas, começam a referir insistentemente a tragédia do Sudão, o maior país africano, imerso numa guerra civil há mais de meio século.  Agora fala-se em cerca de milhão e meio de pessoas desalojadas e em fuga, marcadas por mortes, mutilações e violações, e tentando sobreviver em acampamentos sem condições. As atrocidades cometidas contra crianças, mulheres e homens , na região de Darfur,  são de uma barbárie quase inacreditável. A crueldade humana  ultrapassa os limites do imaginável neste novo século e os relatos, só por si, têm que dar a volta aos estômagos mais sensíveis.

  Os últimos dados da ONU referem que nos últimos meses mais de 50 mil pessoas têm vindo a ser massacradas, sendo a maioria dos crimes atribuídos a milícias árabes financiadas pelos próprios governantes de Cartum, com intuitos de aniquilação de grupos étnicos específicos.

 Louise Arbour, comissária da ONU para os Direitos Humanos, decidiu entretanto, ir ver com os seus próprios olhos , o que se está a passar no terreno e encontrar formas “para fazer parar” esta enorme tragédia!

A nós porém, neste nosso cantinho à beira-mar plantado, imersos que estamos numa certa mesquinhez de espírito que quase nos faz olhar só para o nosso umbigo, para os nossos problemas pessoais e nacionais- há aumentos, ou não há aumentos? pagamos mais, ou pagamos menos ? ganha um partido, ou ganha o outro ? temos escola ou não temos escola?  demitimos este ou demitimos aquele? ... - quase todas estas notícias nos passam ao lado.

E contudo faz-nos muito “bem” descobrir gente, aparentemente igual a nós, que em vez de andar a tentar localizar no mapa os países ( africanos, ou não)  de que se fala, resolve deixar de “procurar os pobres no mapa, para os procurar nos seus próprios países”.

Foi o que aconteceu com  várias pessoas que conheço e de diferentes idades. Anónimas, sem busca de protagonismo, vão para diferentes pontos do globo, onde quer que haja sofrimento e necessidade. A Pipa, por ex., jovem leiga e médica, foi dar um tempo da sua vida para os Camarões, onde opera, sem anestesia e sem meios...A Ana, das Escravas, foi trabalhar com crianças e famílias em Timor. Um grupo de jovens do MSV ( Movimento de Serviço à Vida) foi para as favelas do Brasil, durante dois ou três meses, como já vêm fazendo há alguns anos, em vez de gastarem o seu tempo de férias preguiçando nas nossas praias e na vida nocturna. Um grupo de estudantes católicos de Lisboa, Porto e Coimbra, foi trabalhar gratuitamente, na Croácia, em Agosto.

Os jovens do ISU ( Instituto de Solidariedade Universitária) não param de trabalhar nos seus projectos de formação e educação em vários países africanos de expressão portuguesa.

 Christine du Coudray, jovem francesa, que  há dez anos descobriu a Fundação “Ajuda à Igreja que sofre”, deixou o seu bem-estar pessoal para trás e é  hoje responsável pela Secção Africana.

Acabo de receber pela primeira vez o mais recente boletim desta organização , todo ele dedicado ao Sudão, e leio testemunhos impressionantes obtidos nas cidades de Cartum e Wau . Mas não só aí a Fundação trabalha pela Fé, pela Paz e pela ajuda no abastecimento de água, na construção de escolas, casas, maternidades, missões e respectivos equipamentos.

África  precisa de facto,  urgentemente,  da nossa ajuda e uma prioridade essencial, nas palavras dos responsáveis por esta Fundação, é precisamente a pastoral da família. Lá como cá! Prioridade às famílias! Ajudemos quem trabalha generosamente e pode canalizar os nossos donativos de forma criteriosa e honesta! (www.fundacao-ais.pt).

Temos de sair da nossa concha, gastando-nos, cá como lá, por causas nobres !

Ainda há pouco conheci  a “ Casa de Betânia”,  uma obra notável aqui na zona de Carnaxide / Linda-a- Velha, que no meio de imensas dificuldades, liderada pela corajosa irmã Maria João, luta pelo apoio a todo um grupo de deficientes intelectuais, dando-lhes casa, alimentação, trabalho, dignidade e um ambiente de família, quando atingem os 18 anos , ficam sós e deixam de ter apoios.  E pedem- nos ajuda.

E gastamos nós tanto tempo e dinheiro inutilmente...Não é verdade? Não concordam?

É certo que não podemos chegar a tudo, nem a todos, nem vamos todos agora partir para qualquer lado, deixar família e profissão num fugaz lampejo de missionação, mas mesmo aqui no nosso país ou a partir de cá,  há trabalho para todos e  uma infinidade de formas de sermos úteis, com e sem dinheiro.

Só não há tempo é para ficarmos confortavelmente sentados na vida,  sempre a criticar os outros e a pensar: - Está tudo mal neste país ! E a África fica lá muito longe ! Eles que resolvam os seus problemas! Acabou-se ! Eu cá já fiz o que tinha a fazer na vida. Agora mereço papas e descanso. Vou-me reformar e cuidar de mim...