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Por Fátima Fonseca

1 de Setembro de 2004



   Não é possível ficar indiferente, fechar os olhos, olhar para o lado, ou simplesmente mudar de canal, perante a tragédia que se abateu sobre os habitantes da pequena cidade de Beslan, na província de Ossetia do Norte, na Rússia.

Não é possível pensar que tudo se passou  e passa, lá tão longe, que não nos diz respeito...hoje são eles o alvo inocente escolhido, como ontem já foram tantos outros....e como amanhã poderemos ser nós próprios e os nossos.

Das imagens e narrativas de alegrias, esforços, sucessos e decepções nos Jogos Olímpicos de Atenas, depressa acordámos ao som destas terríveis notícias, desta vez ainda mais chocantes por serem crianças as principais atingidas.

Entretanto, no fervilhar dos acontecimentos familiares, das notícias nacionais e internacionais, e enquanto hoje me esforçava por lutar contra um certo entorpecimento mental,  e procurava passar ao papel, sem mais adiamentos, um pouco do que me vai na alma, recebo um telefonema de um jovem alentejano, de quem já vos falei e que conheci numa destas nossas idas às escolas.

Falava-me ele, o João, muito indignado, a propósito de toda esta polémica do “barco do aborto” e perguntava-me se o Cenofa, Centro de Orientação Familiar, não ia intervir em defesa da vida,  pois tinha estado a ouvir um programa de televisão em que uma  holandesa ensinava explicitamente as mulheres portuguesas a abortarem de forma “simples e segura”, utilizando medicamentos autorizados  em Portugal.

Achava ele , e creio que com razão, que têm sempre mais tempo de antena os “outros” do que nós...

Expliquei-lhe então, que o Cenofa não foi criado propriamente com o objectivo  de defender a vida, mas sim para dar apoio às famílias na educação dos filhos e no seu relacionamento interpessoal ; no entanto, a defesa da vida  sempre esteve, está e estará implícita em todas as nossas acções, já que consideramos a Vida como o maior Bem e os filhos como o maior Dom que um casal pode receber! Por isso sempre o Cenofa foi contra o aborto e assim continuará a ser, defendendo uma paternidade responsável, bem como uma política de ajuda às famílias mais frágeis,  a aceleração e incentivo dos processos de adopção e apoiando ainda,  incondicionalmente as  Associações pró- Vida no seu meritório trabalho.

Brevemente, o João virá estudar para uma Universidade em Lisboa e quer ajudar o Cenofa. Obrigada, João! Contamos consigo!

 

Há dias, quando começou esta  autêntica encenação da vinda do barco, uma das minhas filhas, de 20 anos, antecipando argumentos que ultimamente têm sido invocados por muitos em brilhantes artigos , comentava , convicta, “ ... a Mãe já viu, se a moda dos barcos pegasse , o que seria? E se agora viesse para aí um barco com defensores da pena de morte, ou então outro com defensores da eutanásia, a convidarem os portugueses a verem-se livres de quem mais os incomoda,  ou a aliciarem os mais angustiados e solitários a embarcarem e “resolverem” os seus problemas de vez??? Cá por mim, fez o nosso Governo muito bem em não deixar entrar o barco ! Então é assim que se mudam as leis, com pressões deste tipo???”

Subscrevo a mesma opinião e aqui deixo os parabéns ao Governo!

 De resto, voltando ao debate de ideias e pondo de parte as manobras políticas bem visíveis em todo este caso,  mesmo sabendo que sempre haverá quem faça abortos, em melhores ou piores condições, por muito que custe a uma mulher encarar uma gravidez – e refiro-me a razões de saúde e circunstâncias socio-económicas  efectivamente reais, graves e angustiantes que não podemos ignorar! – a solução a propor por quem verdadeiramente queira ajudar estas mulheres,  não pode ser “ eliminar” o “problema” acabando com uma vida, qualquer que seja o seu estádio de desenvolvimento.

Interromper uma gravidez é  a saída mais fácil e tentadora, certamente, mas é sempre tirar uma vida, ou seja matar um ser inocente e indefeso . Mesmo que os homens modifiquem as leis a seu belo prazer, o que está mal e é intrinsecamente errado continuará a sê - lo, em todos os tempos, independentemente do que está escrito na lei  ou do número dos que o fazem e apoiam!

Há muito a fazer, sem dúvida, e aí TODOS  temos culpas e responsabilidades - governe quem governar ! – e há trabalho para TODAS as Associações, actuais e futuras, tanto as mais empenhadas directamente no apoio às mães e bebés, como as que se preocupam com aspectos de formação profissional das mulheres,  conciliação família - trabalho, assistência social às famílias mais carenciadas, apoio em creches e ATL ‘s e orientação de crianças e jovens. E também nas escolas, nos hospitais, nas ruas, nos meios de comunicação. Criar emprego, ocupar gente nova sem gosto pelo estudo, fomentar  desde pequeninos, uma nova filosofia de vida mais saudável e menos consumista, dar ajuda às famílias em crise e aos jovens casais, lutar contra a violência doméstica, o álcool e a toxicodependência, e  também,  contra esta verdadeira obsessão pelo sexo , que inunda as distracções oferecidas pelo cinema e televisões, a todas as horas do dia, -  como se quase mais nada de interessante e útil houvesse para  debater e fazer...Passou-se de um extremo ao outro:  dum silêncio feito de tabus e proibições para uma despudorada e ditatorial omnipresença do sexo, como se fosse um  brinquedo, vazios que estamos da busca de um outro sentido da nossa existência!

E todo este exagero aliena, cansa e prejudica...

 

 Vou terminar, mas lembram-se da história do cavalo de Tróia e de como Ulisses e os gregos através do envio de um espião conseguiram convencer os troianos a levarem o cavalo de pau para dentro da cidade, sem saberem que ele levava escondidos os guerreiros gregos que durante a noite abririam as portas da cidade à entrada dos seus camaradas ? Pois é o que me lembra todo este episódio da vinda das holandesas, astuciosamente preparadas para fazerem inofensivos  “ workshops” e provocarem um amplo debate de ideias na sociedade “ obscurantista” portuguesa!!! O barco não entrou de facto, mas elas aí estão , em terra, nas televisões e nos jornais, impunemente a incitar ao aborto e a dizerem como, furando a lei portuguesa ante as nossas barbas...

 Uma última palavra  positiva, de ânimo e admiração, para as Associações pró- Vida e seus representantes, que com toda a calma e serenidade têm conseguido uma excelente prestação nos debates de que me tenho apercebido, tanto na televisão como na rádio! Parabéns e obrigada pelo que fazem. Talvez mais alguns de nós , que vos apoiamos, ainda conseguíssemos um pouco de boa-vontade e tempo para vos imitar e seguir! Quem sabe?!