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Por Fátima Fonseca

15 de Agosto de 2004



   Trocado o computador pelos tachos e panelas, máquinas de roupa e sucessão natural de tarefas domésticas sempre inacabadas, as férias de verão em família, sobretudo numerosa, -  esteja ela onde estiver, à beira-mar, no campo ou na cidade - acabam por  gerar uma certa confusão e mudança de horas e rotinas ! Necessariamente com consequências também na simples elaboração destas pequenas crónicas...

Efectivamente, os assuntos mais inspiradores acumulam-se e perdem a actualidade, se não forem logo comentados, e por outro lado, bem vistas as prioridades, a sobrevivência da própria família e o tempo que lhe deve ser dedicado não se compadecem de escritas amadoras como estas, que como tal passam de imediato a um lugar secundário na ordem das actividades !!!

Voltando pois, a estas lides, gostaria de vos contar uma breve história passada na praia de onde acabo de regressar, lá pelos Algarves. Entre amigos, no meio de uns mergulhos saborosos, juntamo-nos à mesa de um café. A conversa deslizara fatalmente, para uns divórcios recentes de gente conhecida. Em dada altura, contava-se como um jovem casal, pais de três filhos pequenos, casados há 7 anos, fora pedir conselho a um advogado e como este, friamente, em poucos minutos, escrevinhara num papel os passos a dar para a concretização rápida do divórcio, separação de bens, etc. Os presentes, muito embora sabendo que o assunto é delicado e pessoal, só diziam, com tristeza : -“ Mas  vocês não acham que o advogado lhes devia aconselhar calma e que reconsiderassem as implicações que o divórcio vai trazer para as crianças? Não devia  dizer-lhes que as crises conjugais são naturais, muitas vezes ultrapassáveis com ajudas de fora e com o esforço  de parte a parte, e não necessariamente o fim de uma relação (...)?”

A conversa dava pano para mangas e no final, todos concordávamos – sobretudo os veteranos casados ali presentes – que fazem muita falta mais gabinetes de Orientação Familiar  e Mediação Familiar, gente disponível para ajudar na preparação de Noivos para o casamento- seja ele religioso, ou civil- e para apoiar os casais em situação de pré-crise ou crise declarada. Se todos os doentes devem  ter acesso ao tratamento e cura dos seus males, porquê condenar à “morte” os casamentos “doentes” logo que surgem desinteligências de qualquer gravidade???

  

...Por estes dias também, muito se tem falado nos nossos Media, na tentativa de suicídio de uma jovem figura conhecida, lançada no super-efémero estrelato do Big Brother e afins.

Muito embora respeitando o direito à privacidade, que lhe foi negada, é importante reflectir sobre alguns comentários de psicólogos e psiquiatras, para que todos possamos dar conta do poder imenso dos Media e de como a manipulação das pessoas pode ter efeitos dramáticos e trágicos na sua conduta.

 De facto, extrapolando esta situação concreta, importa perceber que o suicídio é quase sempre causado pelo chamado sofrimento psicológico ( “drama na mente”), uma dor muitas vezes desvalorizada e ignorada pelos outros familiares, que a pessoa suporta sozinha, frequentemente com vergonha até de falar nela.

Ver-se, por ex., de um dia para o outro, transplantado para um meio cultural completamente diferente, ser-se catapultado para um ambiente de fictício heroísmo, ver-se nas primeiras páginas e nos telejornais, receber atenções, mimos e lisonjas inesperadas, dinheiro a rodos de uma só assentada, sem estar minimamente preparado para tal, e passado pouco tempo, como um objecto que já não nos interessa porque já satisfez os nossos caprichos, ser-se posto de lado e esquecido , é qualquer coisa que necessariamente deve afectar o  equilíbrio psicológico e físico de qualquer pessoa. Independentemente até, de quaisquer vulnerabilidades que a pessoa já pudesse ter anteriormente.

 Como diz quem sabe, uma tentativa de suicídio é sempre algo que não acontece de repente ,ou por acaso; ela é o fim de um processo lento de percepção crescente da própria dor psicológica que se vai agravando até se tornar de tal modo insuportável que nada parece restar senão a morte. Tudo perde sentido na vida destas pessoas, que sem crenças ou referências espirituais de apoio, julgam portanto, não ter outra saída, senão buscar o alívio da morte.

No entanto, como ensinava a Drª Clara Sá da Bandeira, em aulas recentes na Universidade Católica, as pessoas com tendência suicidária precisam perceber que “...o seu sofrimento pode ser ajudado, que o seu problema é levado a sério, que têm alterações bioquímicas que exigem medicação urgente e contínua, que perderam o controle da situação e precisam de ajuda de outrem”. O que importa é chegarmos a tempo!

A questão porém que aqui queria salientar, reside a meu ver, na responsabilidade moral dos Media, que não podem continuar a reger-se por meros objectivos económico-financeiros - ganhar, ganhar, ganhar, conseguindo mais e mais audiências !- sacrificando e transformando as pessoas em meras “ marionettes” ao sabor dos caprichosos ventos mediáticos...

Quereria aliás, a terminar, recordar aqui um recente programa americano do notabilíssimo talkshow “Oprah  Winfrey Show”, exactamente sobre pais que querem por força transformar os seus filhos, desde crianças, em estrelas de cinema ou modelos de “passerelle”,  e em que se falava precisamente sobre o reverso da medalha, que é a tensão permanente em que essas crianças vivem e o fracasso com que muitas vezes precocemente têm de lidar !

Uma lição para muitos pais!