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Por Fátima Fonseca

1 de Agosto de 2004



   Julho e Agosto, tempo de férias para alguns, mais trabalho para outros, mas sobretudo, tempo de partidas e chegadas, encontros e desencontros, casa cheia, casa vazia.

A Irina também partiu. Finalmente chegou o grande dia tão ansiosamente esperado! Irina Proswirnina, russa, imigrante, empregada doméstica em Portugal, mãe da Anastasia, de 8 anos, casada com um mecânico de automóveis, a trabalharem e a viverem numa espécie de contentor ali para os lados do Aeroporto, finalmente regressaram ao seu país, após 3 anos de intensa labuta, sacrifício e muita saudade.

Irina pode agora, já na sua terra, voltar a ser a Drª Irina, economista que é, e o seu Marido, engenheiro, título a que tem direito.

Ninguém noticiou a sua chegada, nem a sua partida. Contudo, quero fazê-lo eu!

Estas linhas são uma curta, mas merecida homenagem à mulher estrangeira, corajosa e lutadora, que conheci, e que com inteligência, sensibilidade e delicadeza, soube superar as fronteiras da língua e da indiferença, e adaptar-se a difíceis circunstâncias, ora cuidando de doentes acamados, ora fazendo os mais humildes trabalhos domésticos em casas e restaurantes. Com o marido e a filha, viveu profundamente angustiada aqueles primeiros momentos de decepção, quando enganada, julgando ter pago o direito a viagem, casa e emprego, aqui chegou e, sem casa, nem pão, nem esperança de emprego, teve de viver na rua e alimentar-se dos restos dos caixotes de lixo dos supermercados até encontrar quem lhes desse uma mão e os encaminhasse...

Adeus, querida Irina ! Vamos sentir a tua falta em nossa casa, a falta do teu sorriso sempre amável, da tua discreção e afabilidade, do teu trabalho e serenidade! Obrigada, Irina! És uma lição para todos nós ! Contigo aprendemos melhor a compreender a realidade destes milhares de pessoas que atravessam fronteiras em busca de  trabalho e de uma vida melhor, pessoas com quem nos cruzamos e cuja dureza de vida ignoramos, mas que  também ajudam o nosso país a crescer e têm direito a uma vida mais digna!

 

... Os nossos voos cruzaram-se nos céus, estou certa! A Irina partiu e eu acabo de chegar de um maravilhoso fim-de-semana numa terra abençoada, onde lindíssimas hortenses roxas e cor-de-rosa ladeiam as estradas estreitas. O clima sub-tropical favorece  a vegetação endémica exuberante,

e sol e chuva constantes parecem jogar às escondidas com o turista mais incauto. Paisagens maravilhosas, lagoas, colinas, vales, bosques, pastagens e mar azul todo em volta, povoações bem cuidadas, limpas e floridas, e gente simples, de olhar lavado e acolhedor, tudo isto faz da ilha de S. Miguel, nos Açores, um paraíso a não perder!

Aproveitando uma breve ida do meu marido, em trabalho, ficámos nesse fim-de-semana nas Furnas, coincidindo com as festas locais, em honra de Sta Ana, impecavelmente preparadas com o empenho do todos os locais ! As ruas atapetadas com pétalas de diferentes cores para receberem a passagem da procissão, as janelas enfeitadas com colchas coloridas, famílias inteiras nas ruas, três bandas de música, fanfarras, foguetes, quermesse , luzes, bandeiras e enfeites. Açoreanos emigrados nos Estados Unidos e Canadá estavam também de visita às suas terras, e cumpridas as promessas ao Senhor Santo Cristo dos Milagres, no célebre Convento da Esperança, em Ponta Delgada,  ali estavam também nas Furnas, lado a lado com os seus conterrâneos e parentes mais pobres, caminhando atrás dos andores na procissão da sua santa protectora.

Fui ,curiosa, acompanhando quanto possível, o que ali se passava, recordando , também eu, saudosa, as festas do S. Tiago, da minha meninice nas termas minhotas de Caldelas!

Em dada altura, apercebi-me da presença de um homem ,deficiente, que na Igreja,  a pouca distância de mim, cantava, sorridente e felicíssimo, a plenos pulmões , os cânticos da Missa, sem despegar os olhos do andor de Sta Ana. À sua volta, ninguém parecia estranhar o seu enlevo, nem a desafinação com que cantava. Mesmo atrás de mim, porém, de repente, ouço um irresistível e incontido ataque de riso . Logo de seguida, uma avó simples, serena e compreensiva, repreendia o neto adolescente, dizendo a meia voz, apenas: - “E se fosses tu? Já pensaste que podias ser assim como ele? Não tens o direito de fazer pouco...ele gosta tanto de cantar...”.

 

Regressei com uma imensa vontade de lá voltar ! E não foi só pela beleza local , mas também pelo acolhimento e simpatia das pessoas! Por isso, ali deixei alguns dos “Apontamentos do Cenofa”, pequenos artigos de grande qualidade sobre temas da actualidade, com a certeza de que muitos os lerão e apreciarão! Ali, em S. Miguel, onde em tempos passados o Cenofa já fez cursos de Orientação Familiar, onde se encontram famílias e professores sequiosos de apoio na educação dos seus filhos e alunos, ali onde há pequenos grupos de gente empenhada em organizar actividades de tempos livres para que muitas crianças e jovens possam estar saudavelmente bem ocupados , ali há muito trabalho a fazer!