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Por Fátima Fonseca

15 de Julho de 2004



   A face mais visível do nosso estranho mundo português mudou subitamente, de um extremo e quase infantil entusiasmo, louco, obsessivo, alegre e congregante, em torno do Euro 2004, para uma nova imagem fracturante, fratricida e violenta, em redor do imbróglio político da sucessão de Durão Barroso.

E tudo isto, como sempre!, apoiado, estimulado e multiplicado  pelos nossos Media, sedentos e sequiosos de notícias novas. Tudo o mais  que possa estar a acontecer, quase nem parece ter relevo ou existência. Sobram muros e divisões, faltam-nos pontes e paz.

Simultaneamente porém,  somos confrontados com uma recente sucessão de mortes e perdas de pessoas notáveis, cujos nomes e personalidades a todos nos dizem alguma coisa por certo, e que no meio de tantas palavras de reacendidos ódios e combate político, de novo suscitam alguma pausa de respeito, compaixão e comoção unitiva em todos nós!

Para os mais novos, talvez sejam só nomes e rostos, mais ou menos conhecidos, mas para os mais velhos, foram pessoas que nos entraram casa adentro durante muito tempo, quase diariamente, através da televisão, rádio, livros e jornais.

Aprendemos deles , vibrámos e comovemo-nos com eles, concordámos ou discordámos, acreditámos ou não, porventura fomos críticos ou seguidores, mas nunca lhes ficámos indiferentes.

Sousa Franco, Sophia de Mello Breyner, Henrique Mendes, Maria de Lurdes Pintassilgo, pessoas muito diferentes, mas todas elas, cada uma à sua maneira, portugueses  influentes, aquém e além fronteiras, cuja perda sentimos e nos impressiona.

No entanto, Sophia de Mello Breyner, pelo muito valor da sua obra literária , perdurará na nossa memória e continuará a influenciar ideias, atitudes  e comportamentos de gente de todas as idades,  para lá de todos os  tempos e espaços. Conheci-a apenas através dos seus escritos e em particular, dos “Contos Exemplares” ( não percam, por favor, a sua reedição)  o primeiro dos seus livros que li e que revisito frequentemente com encanto renovado, mas  estranhamente, ( estarei enganada?), talvez a obra de que menos se tem falado nos últimos tempos.

Ouço a minha filha Rita dizer- “Mãe, apetece-me chorar, queria ter ido acompanhar o funeral da Sophia, porque gostava tanto dela pelo que ela escreveu que quase me parecia ser da minha família...”- e compreendo-a bem!

Ouvi a jornalista Graça Franco comentar que teria sempre de agradecer à poetisa os belíssimos contos para crianças, que tem lido e representado para os seus filhos vezes sem conta....também eu os li sempre, deliciada e fascinada pelo conteúdo e pela forma, como se fosse a primeira vez...e também eu tenho sincera pena de nunca lhe ter escrito, ao menos um postal!, a agradecer e a dizer “ Gosto de si, Sophia, obrigada por ser quem é e como é, obrigada pelo que escreve e nos oferece a todos nós !”

Curiosamente, ontem, também eu estive num outro enterro e em dada altura, o sacerdote, perante uma assembleia atenta, composta entre outros, de muitos políticos, interpelava-nos sentida, certeira e  convictamente: “...já repararam como tantas vezes, nos preocupamos muito mais com o fazer, fazer, fazer, do que com o ser, e depois, quando alguma coisa não nos corre bem, temos um desaire, ou nos surge uma doença pela frente, de repente damos conta de que estamos completamente vazios, sem nada, como que caídos num buraco...? É como se quiséssemos começar a construção de uma casa pelo telhado (...)Obrigada, M., porque tu nos ensinaste que mesmo no meio  de uma vida social intensa é possível manter a nossa intimidade espiritual, crescer em vida interior, dar prioridade ao mais importante, (...) construir a nossa morte...sem medo da Eternidade...(...).”

Lembrei-me logo do conto “A Viagem”, de Sophia, verdadeira metáfora das nossas vidas ,que termina num acto de fé, depois de a personagem principal ter perdido tudo, até o seu companheiro de viagem, à beira de um precipício, dizendo qualquer coisa como isto ( cito de memória, pelo que não serão exactamente estas as palavras, mas seguramente  muito parecidas )-“...vou chamar, porque deve estar alguém do outro lado...tem de estar alguém do lado de lá...”.

Sophia , obrigada pela profundidade dos seus ensinamentos e pela riqueza da sua mensagem!

À semelhança da interessante crónica “ Outra porta” de Maria José Costa Félix, na última revista XIS, do Público, também eu acredito piamente que “Todos somos mensageiros”. Como ela dizia, “Não é por acaso que viemos ao mundo num determinado momento da história da humanidade e inseridos num determinado contexto, seja familiar, intelectual, económico ou social” ou ainda “(...) o sentido da vida não pode ser encontrado em nada do que temos, mas apenas no que somos(...)”.

Ora vejam lá se conseguem recuperar esta revista e ler a crónica, porque vale mesmo a pena!