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Por Fátima Fonseca

29 de Junho de 2004



   À semelhança do resto do país, em todo o meu bairro não se falava de outra coisa (antes da nova confusão com a recente decisão do Dr. Durão Barroso)! Devo confessar que inicialmente, também eu era das vozes contra, mas tive de me render à evidência positiva e eu própria acabei por ser contagiada... Refiro-me ao Euro 2004, claro!

E comecei por dar conta de como alguns intelectuais do meu bairro – escritores, professores, pensadores livres, sindicalistas, etc. – estavam furiosamente contra. Sentados à roda de umas quantas mesas na pastelaria da esquina, ouviam-se invariavelmente, os seus comentários em voz alta:

-          ...é ridículo! por favor, já viram aquela bandeira ali no 2º andar do prédio azul? Aquilo mais parece um lençol! Não me venham dizer que  é patriotismo, é mas é puro exibicionismo!

-          ...e viram em que estado os “hooligans” deixaram a estação do metro? Até tive pena da desgraçada da empregada africana que, pacientemente, ali na Baixa – Chiado, andava a apanhar à mão os inúmeros copos de plástico e os cacos de garrafas de cerveja, ali espalhadas, pisando aquele nojo, um verdadeiro rio de cerveja pelas escadas abaixo!!!

-          ...e alguém tem dúvidas e se admira com os maus resultados que se adivinham dos alunos agora em exames? Como é possível estudar alguma coisa com tanto festival Rock, mais estes jogos todos...?

-          ...e como é que adeptos a dormirem aí espojados pelas ruas, alguma vez vão poder reembolsar os cofres portugueses dos gastos e investimentos na construção de 10 estádios e em toda esta organização?

-          ...pois, e liga-se o rádio, abre-se a televisão, compra-se um jornal e é sempre do mesmo a toda a hora...já farta! Isto é que é verdadeiro ópio do povo...e com tanta coisa bem mais importante, urgente e interessante para fazer!

 

  Enfim, conversas destas quem as não ouve, ou não ouviu?

Pois bem, devo dizer-vos que, pouco a pouco, também eu fui contagiada de certo modo, por esta “futebolite” aguda, ou “euromania”, (eu que nem gosto, nem ligo ao futebol...), e como professora em conversa com outros até chegámos às seguintes conclusões:

  1. Afinal a “euromania” pode servir de excelente instrumento de trabalho em todas, ou quase todas as aulas, para alunos de todas as idades. Por ex., pode-se ensinar Matemática, calculando números de espectadores, horas de voos, custo de bilhetes, lucros em restauração, investimentos, etc. Em História e Geografia, pode-se aprender a identificar bandeiras, organização política, localização, adesão à União Europeia, etc. (e não me alongo mais...mas outro tanto se poderia fazer em Línguas Portuguesa e Estrangeiras, com trabalhos individuais e de grupo, pesquisa de dados em bibliotecas, etc.);
  2. No entanto, é a nível de lições de vida, qualidades humanas e “character building” que o Euro 2004 melhor pode ser aproveitado em Educação! Com efeito, reparem como de tudo o que se tem passado a nível de selecções, treinadores, jogos e jogadores, começando pela nossa, se podem comentar factos com os alunos e aprender “ferramentas” fundamentais para a vida em sociedade, e não só, de que destaco apenas, a título de exemplo:

-          Humildade e galhardia – aprender a perder e a ganhar com igual dignidade, reconhecer e corrigir os próprios erros e faltas, aceitar que outros possam ser melhores ou jogar melhor...

-            Espírito de equipa e generosidade – sacrificar o aparente bom nome individual pela unidade do grupo, passar por cima de atitudes individualistas infelizes, para valorizar os aspectos mais positivos de todos, saber voltar ao banco para dar lugar a outros jogadores, animarem-se e consolarem-se mutuamente, jogarem para oferecerem vitórias e darem alegria aos respectivos adeptos...

-          Esforço e perseverança – independentemente das possíveis derrotas e falhas, um renovado esforço e sacrifício para se chegar cada vez mais longe e conseguir superar o seu melhor de jogo para jogo...

-          Alegria, respeito, honestidade, esperança, patriotismo...e quantas coisas mais!

 

Ponhamos de lado os inevitáveis excessos em eventos desta envergadura.

A verdade é que é notório um novo espírito...talvez a cabeça esteja um tanto feita bola, talvez nos sintamos movidos por um fervor novo e tenhamos até (para nossa surpresa!) aderido ao apelo de uma bandeira no coração, no carro ou na janela, e talvez tenhamos ainda uma reserva de gritos preparados com a (pouca) voz que ainda resta na garganta...

De uma coisa podemos estar certos:

A auto-estima dos portugueses que tantos revezes tem sofrido nos últimos tempos – sempre a lermos estatísticas e a ouvirmos dizer que estamos em quase tudo na cauda da Europa! – bem precisava  de um banho de optimismo e convicção que nos revitalizasse e unisse...Aí está ele pela mão do Desporto, de uma complexa e excelente organização do Euro, da nossa fantástica selecção, de um brasileiro que veste  por completo a nossa camisola , do fervor patriótico de todo o país e de mais de 10 milhões de portugueses convertidos em bons anfitriões, adeptos convictos, sonhadores e crentes na vitória....

Tudo isto só prova que é possível mudar o curso dos acontecimentos, quando há força de vontade e empenho num projecto comum, porque a “união faz a força”...

Força Portugal! Cheguemos ou não à vitória final, agora que já tantas pequenas e grandes batalhas foram ganhas, sabemos que é possível mudar de atitude e temos de o fazer também em tudo o mais: Educação, Saúde, Economia, etc.

Vamos lá arregaçar as mangas para os outros desafios que nos esperam!